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Paulo Sande, pergunto-lhe então quem é que é a nova líder do Partido Conservador britânico, Kemi Badenoch.
Neste momento, de alguma forma, o Partido Conservador acabou por escolher uma líder improvável, alguém que apesar de já ser membro do Parlamento há alguns anos, acaba por representar uma aposta muito desafiante e difícil, já que é alguém que desde logo despoletou uma espécie de discussão sobre a sua origem, quem ela é. Ela nasceu em Londres, mas depois foi viver para a Nigéria com os seus pais e só regressou a Londres para acabar os seus estudos e para fazer a universidade. E desde então tem tido uma carreira política relativamente ativa. É deputada já há alguns anos, foi membro de alguns governos conservadores nos últimos anos, mas acaba por ser alguém com muitas opiniões controversas, algumas gaffes, por exemplo, a questão do subsídio maternidade, que seria excessivo. Ela já veio dizer que era um erro. Tem tido algumas controvérsias e algumas questões com membros do seu próprio partido, mas acabou por vencer a eleição. Uma eleição também muito pouco participada. É uma das participações mais baixas dos membros do Partido Conservador nesta eleição e de alguma forma tem uma posição muito conservadora. É anti movimento woke, portanto critica acerrimamente esse movimento. Critica, por exemplo, a ideia das reparações pelos anos do colonialismo por parte do Império Britânico, obviamente. E portanto, é alguém que representa uma incógnita no futuro do partido, mas ao mesmo tempo representa também quase que uma revolução em termos daquilo que é o futuro do Partido Conservador, que embora devemos lembrar que o anterior primeiro-ministro Rishi Sunak tinha também uma origem étnica da Índia, portanto, era alguém que representava já essa ruptura. Isso é curioso se olharmos de facto para aquilo que é o Partido Conservador e que apesar de tudo, de conservador não tem nada neste tipo de escolhas, que são escolhas obviamente arriscadas, mas que repito, continua a ser a grande questão e mais uma vez, uma questão que tem sido muito sublinhada, sobretudo por membros do Partido Conservador, que basicamente usam esta escolha como também uma espécie de medalha e por contraposição àquilo que é a ideologia, a posição, se quisermos, dita mais progressista do Partido Trabalhista. Portanto, vamos ver o que vai acontecer. Vamos ver até que ponto é que isto e esta escolha vai ser aceite, mas a escolha de Badenoch é de alguma forma uma escolha muito arriscada.
Sim, e alguma surpresa também, presumo pelas suas palavras. Queria lhe perguntar em relação a Rishi Sunak, que é o seu antecessor. Creio que pelas suas palavras, presumo que estejam um pouco à direita de Rishi Sunak, pelo menos nas posições mais conservadoras, parece-me.
Vamos lá ver. Ela tem, de facto, uma posição bastante mais conservadora, é alguém sobretudo com uma linguagem muito aberta, muito franca, muito direta. É alguém que, como eu também já disse, tem tido posições muito marcadas. É uma Brexiteer, é uma apoiante fervorosa do Brexit. Em todo o caso, e naturalmente bastante mais radical nesse sentido do que Rishi Sunak. É amiga de Ron DeSantis, por exemplo. Ron DeSantis, aliás, declarou-lhe o seu apoio, embora naturalmente não tenha a ver diretamente com a eleição, com esta escolha, mas declarou o seu apoio e isso significa também que há aqui uma dimensão de conservadorismo muito grande, até algum extremismo. Ela inclusivamente chegou a dizer, já agora voltando àquela questão das afirmações mais polémicas, que não sei se 10%, julgo que foi isso, 10% dos funcionários públicos ingleses deviam ser despedidos, uma coisa do género. E portanto são posições muito fortes, mas ao mesmo tempo a ideia de uma transformação muito radical de um partido que no fundo encara já, apesar da impopularidade tão rápida do governo de Keir Starmer, encara já um traçado a zero de um período de anos. E a grande questão, talvez a grande incógnita, é saber até que ponto é que esta liderança com todos estes aspetos mais ou menos polémicos, mais ou menos surpreendentes até, tem capacidade para durar esse tempo todo, porque também sabemos que o Partido Conservador sendo um partido profundamente da sua liderança, uma liderança como William Hague disse há vários anos, quase monárquica, quase absolutista, é também uma liderança que é moderada pela ameaça permanente, não é da guilhotina porque não estamos em França, mas da decapitação. Isto é, há uma grande pressão dos movimentos mais profundos do Partido Conservador, do Comitê 1922, etc., para de alguma forma porem permanentemente em questão essas lideranças. E portanto, a questão é saber até quando é que ela dura, se ela vai durar, se a sua visão muito conservadora, muito à direita, quase radical, a ideia de que, aliás há hoje acusações nesse sentido, de que o Partido Conservador cada vez se coloca mais à direita no espectro partidário.
Para fazer sombra a Nigel Farage, por exemplo?
De alguma forma competindo com Nigel Farage, aliás é uma tendência muito comum na Europa, diria eu, muita tendência e essa tendência é questão de acusações do lado sobretudo mais à esquerda, de partidos mais moderados, etc., que os partidos à direita, os partidos conservadores tradicionais tendem cada vez mais a namorar, se quisermos, a tomar conta, assumir as causas dos partidos mais extremos, dos partidos de extrema-direita. No caso do Reino Unido é naturalmente essa a competição, aquilo que está em causa. Mas vamos ver, porque no fundo depois nestas coisas e no dia a dia, a tendência é sempre para uma maior moderação e de alguma forma ela tem que ter em conta que o Partido Conservador é um partido de poder, portanto será um partido que mais tarde ou mais cedo regressará ao poder, o que significa que tem que ter em atenção aquilo que pode ser feito e aquilo que pode ser proposto e a forma como isso pode ter impacto nas pessoas. Portanto, é alguém que vai ter um grande desafio. Já foi dito também que este lugar de líder da oposição no Reino Unido é o lugar mais difícil da política britânica. Vamos ver se essa não é, mas mais uma vez esta escolha surpreendente de alguém que apesar de já ter alguma experiência política já há alguns anos, quase 10 anos, mais do que isso, mas sobretudo por eminência nos últimos anos, nunca teve uma grande visibilidade, nunca foi alguém de muito falar numa esfera pública. Vai passar a ser, naturalmente, vai ser um desafio para ela