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Temos também em direto connosco Afonso Reis Cabral, escritor e editor, com uma função importante na Fundação Eça de Queiroz e também colunista. Afonso Reis Cabral, obrigado por se juntar também a nós. Como é que podemos recordar que legado nos deixa António Lobo Antunes?
Deixa-nos um legado de fronteira da literatura. Ou seja, perante o que Lobo Antunes escreveu e a obra dele, que é profundamente nova em vários aspectos, eu acho que a literatura teve que se definir, maior aproximação, menor aproximação, até de renegar também, muitas vezes. Portanto, é de facto uma obra de charneira e perante a qual muitos outros têm que se definir. E isso é único, é uma coisa rara, não acontece todas as gerações, certamente.
É um estilo, é uma linguagem que vai marcar e continuar a marcar a literatura portuguesa.
Sim. As obras dos últimos tempos depois foram muito afuniladas dentro do estilo dele, cada vez mais depuradas, mas cada vez mais reflexo delas mesmas. E portanto, há um momento em que entram nesse afunilamento. Ainda assim, toda a obra é absolutamente marcante. Eu lembro uma vez que estava com ele e estava muito aflito porque sentia que tinha alguma dificuldade em fazer diálogos. Isso é a propósito de um aspeto que se fala muito da obra de Lobo Antunes, que é as vozes. Portanto, é quase como se fosse um coro grego e há vozes que falam sobre os assuntos. E então eu estava um bocado aflito e perguntei-lhe o que é que fazia para o diálogo, o que eu podia fazer para o diálogo ficar melhor. E ele olhou-me com um olhar bastante malandro. Ele tinha um olhar às vezes um bocado de menino que se vai portar mal, assim um olhar um bocado de baixo e de cima ao mesmo tempo. E olhou-me e perguntou: "Mas para que você precisa de diálogo?" E eu fiquei atrapalhadíssimo. Eu acho que preciso de diálogo, mas para ele isso era quase como se fosse uma coisa nada evidente. Quer dizer, os livros fazem parte de uma espécie de um todo em que as vozes se confundem, em que tanto pode ser um elemento da família que está a falar como outro. E, portanto, mesmo a ideia de diálogo, a certa altura, na obra de Lobo Antunes, para ele já não era importante. Era importante que ele falava muitas vezes da mão a correr, uma espécie dele, é quase como se ele canalizasse alguma coisa que não era totalmente dele.
Afonso.
Pode parecer um bocado poético, mas não é, na verdade, ele acreditava mesmo nisso.
Afonso, bom dia, daqui Bruno Vieira Amaral. Agora, aproveitando isso que estavas a dizer, uma vez numa entrevista, o Lobo Antunes falou precisamente em relação aos diálogos, a dizer que como não tinha muito jeito para o diálogo, esta era a sua forma de contornar essa dificuldade. Ou seja, os escritores muitas vezes transformam as suas falhas, aquilo em que têm mais dificuldades, na sua maior força. Eu acho que esse é precisamente um dos casos em que isso acontece.
Sim, sim, nem mais. E portanto, as vozes são elas próprias dialogantes, só que não é um diálogo clássico. E isso é fascinante também.