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João Cotrim Figueiredo vai deixar a liderança da Iniciativa Liberal em dezembro. Não é candidato à liderança da próxima Comissão Executiva. Eu tenho que começar por lhe perguntar o que o leva a tomar esta decisão neste momento.

O que me leva a tomar esta decisão, uma decisão que está a gerar muito interesse, e eu percebo, porque realmente não é frequente, não é normal que o líder de um partido cuja vida está a correr bem, que está estável, um partido que tem sucessos eleitorais recentes, com um líder que goza de alguma popularidade, decidi não se recandidatar. E a razão para que as pessoas possam perceber e não se sentirem tão surpreendidas, é que o partido precisava resolver dois problemas. E esta minha decisão acho que ajuda a resolver esses problemas. Um de natureza interna, porque nós temos as eleições pra Comissão Executiva desalinhadas das eleições para o Conselho Nacional, o que significa que todas as convenções, todos os anos, são atos eletivos, o que prejudica a concentração do partido nas batalhas externas, que são as que interessam. E depois temos um problema mais estratégico, de natureza externa, que o partido tem que estar preparado para as batalhas deste ciclo eleitoral 2022/2026, que são muitas, começam já no ano que vem, nas regionais da Madeira, e acabarão, presumivelmente, com as legislativas em 2026. E dada a situação política atual e a rápida erosão do governo do Partido Socialista, este calendário não é o calendário certo. Portanto, o partido não pode ser apanhado desprevenido, e ter uma liderança que, no meu caso, não se poderia prolongar para além de 2026, por uma questão de idade, uma questão de disponibilidade minha. E, portanto, eu tenho que deixar o partido preparado para estas batalhas. E isso faz-se deixando que uma liderança mais enérgica, mais combativa, mais popular também, tome posse do partido a tempo de se preparar e de ganhar experiência e notoriedade para essas batalhas. Portanto, estes dois objetivos, de alinhar mandatos internamente e preparar o partido para as eleições externamente, acho que recebem um contributo muito positivo da minha parte com esta decisão.

João Cotrim Figueiredo, já falou da sincronização de mandatos, mas a Iniciativa Liberal elegeu oito deputados há menos de um ano. Tinha iniciado agora um conjunto de iniciativas como presidente para ajudar o partido a implementar-se um pouco por todo o país. Este era o momento para sair?

Era, na medida em que a sincronização de mandatos só pode ocorrer exatamente a meio dos mandatos da Comissão Executiva, e se não o fizesse agora, só o poderia fazer em 2024. E isso temo que poderia ser tarde demais, ou poderia ser demasiado em cima dos atos eleitorais que entretanto iam ocorrer. E, portanto, é com esta lucidez e com este sentido estratégico que esta decisão é tomada. Não é uma decisão fácil, não sequer é do ponto de vista pessoal, uma decisão agradável, mas eu estou plenamente convencido que é a melhor decisão para os interesses do partido. E mais uma vez, eu acho que a Iniciativa Liberal na sua curta, nem fez cinco anos de existência ainda, teve a possibilidade em vários atos eleitorais de lançar nomes menos conhecidos, mas que se demonstraram excelentes deputados regionais, excelentes candidatos presidenciais, excelentes deputados. E mais uma vez eu acho que vamos ter a oportunidade de surpreender as pessoas e mostrar que na Iniciativa Liberal não só dizemos, mas fazemos, as ideias falam mais alto que as pessoas.

Não pode ser encarado como uma desistência num momento fundamental pro partido sem saber ainda o impacto que isso poderá ter.

Eu não sei o que as pessoas vão achar, eu não controlo isso. Só posso dizer que da minha parte, pelo contrário, é uma forma de mostrar desapego ao poder e de garantir também que continuarei ligado ao partido e ajudarei o partido e a próxima liderança de todas as formas que essa liderança entender que seja útil. Portanto, não há fuga nenhuma, pelo contrário, há uma demonstração de desapego ao poder que até é tão caro aos liberais também.

Enviou um e-mail aos membros da Iniciativa Liberal onde diz que o partido precisa de uma atitude mais combativa, mais popular e mais abrangente a nível nacional, foram também as razões que já nos deu aqui. Depois de tudo o que a Iniciativa Liberal conquistou sob a sua liderança, por que não entende ser a pessoa indicada para protagonizar essa mudança?

É que esse é um erro muito frequente de qualquer organização, é achar que o sucesso e o que fez o sucesso até aqui vai ser aquilo que vai fazer o sucesso daqui pra frente. A minha leitura é que não é, que são precisas coisas diferentes, vão ser precisas pessoas com outra energia, com outra idade também. E, portanto, é essa a leitura que faço e em consciência e em coerência com essa leitura, tomei a decisão que hoje tornei pública.

No que toca aos mandatos, apesar de estar a defender-se com uma questão logística de anos de mandatos e da idade que teria em 2026 pra umas próximas legislativas.

Infelizmente, não é uma questão logística, é a minha idade, infelizmente.

Deixe-me perguntar-lhe se este passo que está a dar agora não faria mais sentido dar em 2024.

Mas eu não sei se em 2024 não estamos em cima de eleições antecipadas. E seria uma enorme responsabilidade da minha parte não preparar o partido para essa eventualidade, que hoje considero bastante mais provável do que considerava há uns meses atrás.

Pergunto-lhe também de que forma agora pretende continuar a contribuir pro partido. Vai ficar como deputado da Iniciativa?

Ficarei deputado da Iniciativa Liberal e contribuirei pro partido de todas as formas que a nova liderança achar que possa ajudar.

E João Cotrim Figueiredo, uma recandidatura à vice-presidência da Assembleia da República é uma hipótese que está em cima da mesa?

Não creio.

Não, mas estaria disponível ou...

Deixe-me em relação a isso. Essa questão não é uma questão de disponibilidade pessoal, essa é uma questão política de fundo. O que aconteceu no dia 29 de março, em que o meu nome foi chumbado pela maioria dos deputados da Assembleia da República, foi que houve um conjunto vasto, umas dezenas de deputados do PSD e outros tantos, provavelmente, do Partido Socialista, que entenderam que o nome proposto pela Iniciativa Liberal não merecia a sua confiança. Eu sei que tem havido apelos da parte do senhor Presidente da Assembleia e de outras pessoas para que eu me pudesse recandidatar, mas eu não ouvi nenhum daqueles que votaram contra vir reconhecer publicamente que erraram, e que por birra ou por cálculo errado, tomaram uma decisão que foi, prova-se agora, disparatada. E, portanto, enquanto essas pessoas, e os apelos que têm que ser feitos não são a mim, nem são às pessoas que já votaram em mim naquela altura, são àqueles que não votaram e que agora possam estar arrependidos. Digam por que não votaram, para eu saber se há condições diferentes para que agora tomem uma decisão oposta àquela que tomaram em março. Está-me a perguntar isso num dia em que eu estou a mostrar enorme desapego ao poder e a um cargo que tive muita honra em desempenhar. Portanto, não é com certeza do meu gosto pessoal desempenhar um cargo sobretudo institucional e simbólico como vice-presidente da Assembleia. Portanto, não será por gosto pessoal, com certeza. E não me parece que seja um enorme serviço ao partido, mas lá está, se a nova liderança achar que isso é uma coisa importante, eu poderei ponderar. Mas dentro destas condições que lhe acabei de descrever, não é em mim que tem que ser feita, digamos, a venda e o apelo, são àqueles que votaram contra o nome da Iniciativa Liberal em março. Por que aquilo fizeram? Enganaram-se, por que se enganaram e o que é diferente? Sem isso, penso que nenhum liberal se vai sujeitar outra vez à mesma coisa que ante sujeitou em março.

Já sabemos o nome que é candidato para o substituir na liderança da iniciativa, é Rui Rocha. Vai apoiar?

Eu gosto muito do Rui Rocha. É um deputado que tem demonstrado enorme capacidade de intervenção política, enorme assertividade, muita inteligência e é de facto uma pessoa com uma enorme capacidade de energia, combatividade. Tem aquele apelo popular que eu há pouco referi que é importante e penso que pode fazer crescer a Iniciativa Liberal. Portanto, gosto muito que o Rui se tenha disponibilizado para esse combate e obviamente tem que aguardar se haverá outras candidaturas, mas desde já me parece um excelente nome.

Foi um nome que foi uma proposta sua ou da atual Comissão Executiva, ou foi do próprio Rui Rocha?

Não, houve da minha parte, obviamente, antes de tomar uma decisão que podia criar um vazio de poder, a tentativa de perceber se havia pessoas capazes e disponíveis, porque não basta uma delas, tem que ser as duas. E portanto, sabia que o Rui Rocha seria um deles que estaria disponível, sim.