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Foi encontrada uma nova espécie de dinossauro com mais de 125 milhões de anos. A descoberta foi revelada por paleontólogos, com a publicação do estudo da descoberta na revista internacional Journal of Systematic Paleontology. Começar por perguntar o que é que esta descoberta representa para a paleontologia em Portugal e para o conhecimento internacional.
Para começar, praticamente não existem dinossauros bem conhecidos no Cretácico Inferior de Portugal. Nós aqui na zona Oeste onde trabalhamos, principalmente em Torres Vedras, Lourinhã, são conhecidos muitos dinossauros até deste grupo, digamos assim, no Jurássico Superior, portanto são formas mais primitivas do que estas. Mas do Cretácico Inferior, de facto, em Portugal e na Península Ibérica, em geral, não se conhecem assim tão bem. E é um momento charneira em que, de facto, há uma grande alteração das faunas que existiam do Jurássico Superior para o Cretácico Inferior. Portanto, há aqui um lapso de tempo que nós não conhecemos muito bem o que é que acontece e que formas é que vêm substituir as formas do Jurássico. E, portanto, qualquer achado desta magnitude é extremamente importante. Em segundo lugar, é o crânio mais complexo de um dinossauro em Portugal e do qual nós conseguimos, através da preservação do endocrânio, conseguir criar o volume do cérebro e o canal do ouvido interno. Portanto, conseguimos a parte do bulbo olfativo, conseguimos reconstruir esses tecidos moles, que na maior parte dos casos não estão preservados nos dinossauros.
Este fóssil foi encontrado em 2016, mas só hoje é que o público conhece esta nova espécie. Quais as diferenças entre as espécies já conhecidas e esta?
Esta é diferente, para começar, de todos os outros dinossauros, mesmo deste grupo, por uma simples razão: ele tem dois ossos que estão coossificados, coisa que não acontece em mais nenhum dinossauro conhecido. Portanto, a maxila e a jugal estão fundidos. Trata-se de um indivíduo relativamente jovem, não é um adulto. Os únicos elementos do crânio que estão fundidos são esses. Toda a parte daquilo que nós chamamos a calote do cérebro não estava ainda completamente ossificada. O que quer dizer que estes animais teriam, muito provavelmente, uma adaptação muito peculiar à mastigação ou tipo de alimentos que se colhiam para sobreviver.
Portanto, tudo indica que eles são herbívoros, é isso?
São herbívoros. Eles são parentes dos famosos Iguanodon. Foi um dos primeiros dinossauros a ser descoberto, neste caso, em Inglaterra, mas este é completamente diferente de todas essas formas que são conhecidas, quer na Bélgica, quer em Inglaterra, e supostamente também no Cretácico Inferior de Espanha. Portanto, este é realmente diferente. Ele está na base de um grupo que no Cretácico Superior vai ser sobejamente conhecido na América do Norte e em parte do norte do que é atualmente a Ásia.
Descobertas como estas, não sei se podem indicar que Portugal é um local privilegiado para a paleontologia. Pergunto que potencial ainda existe na nossa costa?
Sim, para o Jurássico Superior as descobertas são constantes. No Cretácico Inferior, até porque existem menos sedimentos expostos desse período, ou pelo menos terrestres, são bastante mais raros. E sublinha a raridade deste espécime, porque realmente estamos a falar de um território que tem sedimentos do Cretácico Inferior muito reduzido. E este tipo de achados é extremamente importante e único. Mas sim, a paleontologia portuguesa tem muito mais a dar relativamente às faunas que compõem o que eram as paisagens do Jurássico Superior e no Cretácico.
E pergunto se há mais alguma coisa sobre esta espécie que nos possa contar.
Sim. A título de exemplo, este espécime parece ou sugere comprovar que a origem deste grupo não se deu na Ásia, como sempre se pensou até agora, mas provavelmente terá uma origem ou aqui na Europa ou em África. Isto vem, em certa forma, contribuir para algumas teorias que já estavam levantadas há uns anos, principalmente com alguns achados da Inglaterra, que eventualmente a origem deste grupo, dos Abrosauroides, pudesse não ser realmente na Ásia. E este vem dar um pouco mais de força a essa teoria. Portanto, sim, é bastante importante também nesse aspecto, na própria evolução do grupo.