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Alberto Mota, obrigada por ter aceitado o nosso convite. A Federação Portuguesa de Dadores de Sangue apelou hoje à dádiva da população, visto que agora no verão as reservas de sangue estão abaixo do desejável. Por que no verão as reservas ainda baixam mais?

É muito fácil. Temos uma onda de calor muito grande, temos vários dadores a sair dos seus locais habituais onde dão sangue para outras zonas e onde também têm possibilidade de fazer a sua dádiva e por isso, e por outros motivos, não temos os serviços abertos com outros horários mais alargados. Acontece que temos sempre esta descida de dádivas nesta altura do verão. Este ano está-nos a preocupar mais porque começou muito mais cedo. Eu recordo que as reservas de sangue do IPST há mais de um mês que não estão em níveis satisfatórios.

Qual é o nível mínimo para que se possa dizer que as reservas estão bem?

O nível mínimo é que tenhamos grupos para 10 dias ou mais. E nós temos grupos com três dias, dois dias e por isso preocupa-nos. Preocupa-nos porque estamos a viver uma situação de que tudo o que colhemos hoje, amanhã ou depois de amanhã já está a ser utilizado. Nós temos um consumo certo, que é entre 1000, 1100 unidades, 100, e por isso preocupa-nos, e as notícias que nos dão conta que vamos ter ainda pela frente muitos dias com ainda mais calor, em que as pessoas, nomeadamente nas colheitas de sangue ao fim de semana, saem dos seus locais habituais e vão para o campo, praia e depois não fazem a sua dádiva de sangue. E pelos números que nós temos das associações que fazem a recolha de sangue, têm baixado nos últimos tempos muito a presença dos dadores.

Quais é que são esses números?

Esses números andam na casa dos 20, 25% de descida. Colheitas que normalmente davam 100 dadores, neste momento estão a dar cerca de 70, 60 dadores. Isso preocupa-nos para o futuro imediato, que é o futuro de amanhã. E por isso a federação habitualmente lança sempre uma campanha de verão, apelando às pessoas que antes de ir para férias, antes de ir para o seu lazer, de ir para o convívio com as famílias e com os amigos, que façam a sua dádiva. Ou até mesmo durante esse período. Procurar no site do instituto, no site da FEPODAVES, onde há locais que podem fazer a sua dádiva. Lamentamos é que os hospitais e os centros de sangue continuam com aqueles horários das 19h e outros hospitais até só das 15h ou das 13h. Isso faz-nos preocupante, por que as pessoas não há um sistema para que neste período do ano, os hospitais, os centros de sangue, toda a gente que recolhe sangue em Portugal possa fazer como fazemos aqui na vizinha Espanha, que estão abertos até às 21h, 22h, em que a pessoa pode ir para a praia, sai, vai tomar o seu banho e depois com uma temperatura mais fresca até vai fazer a sua dádiva, e vai às 19h, 20h ou 21h.

Portanto, acha que os hospitais e os centros de saúde deviam alargar agora, principalmente no verão, o horário para as dádivas e as colheitas de sangue?

Nós já apresentámos essa proposta ano passado ao IPST. Eu sei que o IPST também criou pontes para que os hospitais fizessem isso, mas não tivemos adesão nenhuma. Tivemos pouca adesão, poucos hospitais quiseram aderir a este horário. Depois os que aderiram não tiveram participação assim muito significativa. É um primeiro ano, tem que se experimentar vários anos, tem que se fazer apelos, tem que se falar com as pessoas, dizer que estão abertos até aquele horário, não é abrir por abrir, e depois as pessoas nem sabem que está aberto até às 19h, 20h, 21h ou 22h. Por isso é todo um trabalho que já devia ter sido feito lá atrás, eu recordo que lá atrás em fevereiro, março, é que se devia preparar o verão, como agora lá para princípio de setembro tem que se preparar a época de Natal, que é outra época que nos preocupa muito com as festas, com as deslocações dos dadores, e tinha que se preparar com o tempo em que os hospitais também investissem um pouco em publicidade, além de alargar o horário, em promover esse próprio horário. Não é só estar aberto por estar, estamos aqui, não vem ninguém. Pronto, para a estatística diz que não vem ninguém. Não, não pode ser assim.

E considera que o Ministério da Saúde, por exemplo, deveria também dar uma palavra sobre esta situação?

Eu acho que sim. Eu acho que a senhora secretária de Estado deve, de uma vez por todas, chamar a si, com os seus parceiros, seja com o IPST, seja com a federação, chamar a si para que haja rapidamente uma resolução deste problema. Que seja abertura dos hospitais com um horário muito mais alargado, termos mais profissionais para fazer a colheita de sangue, porque também é verdade, nos últimos tempos tem havido cancelamentos de colheita de sangue porque não temos profissionais para fazer a colheita de sangue. E por isso, tudo isto leva-me a pedir à senhora secretária de Estado, que é uma pessoa que tem estado muito atenta à dádiva de sangue, tem estado muito atenta ao movimento da dádiva de sangue, para que chame de uma vez a si, seja o instituto, seja a federação, para de uma vez criarmos aqui uma estratégia e não andarmos aqui em apelos, porque depois esses apelos poderão ter um problema, que é: hoje estamos a apelar e a pedir às pessoas para vir dar sangue, amanhã as pessoas aparecem e depois não são atendidas porque não há profissionais para as atender. Por isso nós precisamos de criar uma política de dádiva regular, de ter dadores regulares em Portugal para dar sangue. E por isso é esta política que tem faltado e que a FEPODAVES apela para que de uma vez por todas se faça algo na dádiva de sangue. Mas também apelo não só à senhora secretária de Estado, apelo também aos grupos parlamentares na Assembleia da República Porque muitas das vezes aprovam projetos de lei, projetos de resolução, e depois não começam nem do papel. Eu sei como um projeto de resolução aprovado em fevereiro e até hoje nada foi posto em prática. Agora há meia dúzia de dias, na Assembleia da República, foram cinco ou seis projetos de resolução aprovados e eu pergunto: onde é que eles estão? O que é que já fizeram? Quem é que chamaram para desenvolver esses projetos de resolução agora? Só aprovar por aprovar e depois não se fazer nada, voltamos sempre ao mesmo assunto da falta de sangue em Portugal.

E para fechar, quais são os hospitais, se tiver esses dados, quais são as zonas mais afetadas, onde há mais falta de sangue?

Nina, nós temos uma região muito preocupante que é a região do Algarve, em que temos só uma unidade local a colher sangue e até fechar, com um horário muito pequeno, tem um horário muito curto. Temos relatos nas redes sociais, temos hospitais de Setúbal, temos hospitais de Lisboa, o hospital aqui do Porto, têm hospitais a dizer que têm falta de sangue, nomeadamente no A positivo. Por isso, há muitos relatos de hospitais e vê-se pela reserva que o IPST lançou na segunda-feira que têm muitos grupos com algumas preocupações.

Ou seja, quais são os tipos de sangue que há mais falta, tanto nos hospitais como no Instituto Português do Sangue?

Nós precisamos de todos os grupos. Todos os grupos são necessários, mas nomeadamente os A positivos e negativos e os O positivos e negativos. Esses são os que mais nos preocupam, porque são os que mais consumimos. Mas todos os grupos são necessários. Este é um apelo a todas as pessoas com mais de 17 anos. Dos 17 aos 18 já podem fazer a sua dádiva, terão de vir acompanhados pelo seu tutor, pai ou a mãe, para a autorização, mas todas as pessoas com mais de 17 anos e que tenham até 70 anos possam fazer a sua dádiva de sangue, que sejam saudáveis. Eu recordo que agora já não há limite de idade para fazer a sua primeira dádiva. Por isso, é um apelo que eu deixo aqui a todas as pessoas que nos ajudem para que, de uma vez por todas, a gente consiga passar um verão tranquilo e não ter esses apelos, que também não são benéficos, porque é como digo, também não temos profissionais para responder a todos esses apelos que estão aí em cima.