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Rádio Observador, vamos agora falar de rugby, até porque a equipa masculina de Portugal já conhece os adversários para o Campeonato do Mundo. A equipa orientada pelo neozelandês Simon Mannix está no grupo D, acompanhada por Uruguai, Escócia e também Irlanda. Para analisar estes adversários, tenho comigo ao telefone António Aguilar, que é comentador de rugby. Mais uma vez, muito boa tarde. Pergunto-lhe, e atendendo não só às equipas, mas também ao novo formato, é um sorteio difícil para a seleção portuguesa ou pode ser mais acessível do que aquilo que os telespectadores vão poder ver em 2027?

Boa tarde, obrigado pelo convite. Com todo o gosto que estou a falar para a Rádio Observador. Para dizer que este sorteio, não sendo totalmente adverso, podia ser um bocadinho mais favorável. Isto por quê? Porque Portugal também sabia que estava, à partida, um bocadinho sujeito a este sorteio não muito favorável, porque ficou na última banda, na banda quatro, onde estavam as equipas com ranking inferior. E por isso mesmo estava sujeito a isto. Mas mesmo dentro da banda quatro, onde nós estamos incluídos, Portugal podia ter apanhado uma ou outra seleção que está na banda três. O Uruguai estava na banda três, porque é a 14ª do mundo, e podíamos eventualmente ter ficado no nosso grupo, em vez do Uruguai, com uma seleção como por exemplo o Tonga ou mesmo a nossa vizinha Espanha ou até mesmo os Estados Unidos. Porque são seleções que estão, sobretudo os Estados Unidos e o Tonga, estão em processos, pelo menos neste momento, não muito reais relativamente à sua valia de outros tempos. Sabíamos que iríamos apanhar sempre duas equipas difíceis da banda um e da banda dois, no nosso caso da Irlanda e a Escócia.

Selecções que Portugal há pouco tempo jogou, concretamente creio que foi com a Escócia, e que perdeu.

Sim, Portugal tem jogado ultimamente, em virtude da excelente campanha no Mundial de 23, tem jogado com seleções do nível um, do tier one. Jogou o ano passado numa digressão, fomos jogar a casa da África do Sul, em Bloemfontein, e perdeu, evidentemente, mas marcou três ensaios, fez um jogo olhos nos olhos com os bicampeões do mundo. E relativamente à Irlanda e Escócia, que é o que nos agora diz mais respeito, o ano passado, em novembro, fez agora um ano, fomos jogar a Murrayfield, a casa da Escócia. Também tivemos uma exibição bastante positiva, perdendo por 20 e poucos pontos, e recentemente, em julho último, é que tivemos um jogo com a Irlanda, que foi um jogo mal planeado pela nossa federação, porque calhou numa altura de férias, sobretudo férias de muitos dos nossos jogadores que alinham em França, sejam lusodescendentes, sejam alguns dos jogadores que nós já temos formados em Portugal e que estão a jogar em clubes franceses, sobretudo da segunda divisão. Essa data foi muito mal escolhida. E então apanhamos uma Irlanda que era um misto de primeira e segunda equipa, mas uma Irlanda que nos infligiu a maior derrota de sempre em julho. Mas esse resultado não é muito representativo. Isto por quê? Porque 13 irlandeses titulares estavam na digressão dos Lions no verão passado à Austrália. E isso impediu que os irlandeses trouxessem a melhor equipa. Mesmo assim, nós com uma equipa muito mal preparada, sem muitos desses nossos jogadores que fazem a diferença, são muitos deles que jogam em França. Fomos batidos copiosamente e como diria o outro, não havia necessidade. Mas isso são águas passadas. Nós agora temos que olhar em frente. Até porque repare o Uruguai, que está no nosso grupo, e que eu falava há pouco, agora no mês de novembro, nós jogamos com o Uruguai em Lisboa. Num jogo que era importante pra nós, porque se nós tivéssemos ganho ao Uruguai em Lisboa, ficaríamos na banda três e não na banda quatro. Porque esses jogos contavam pro ranking, que ia definir as tais bandas pro sorteio de hoje. Nós ao perder pro Uruguai ficamos em definitivo na última banda, na banda quatro.

Piorámos um pouco essa colocação neste sorteio.

Exatamente. Piorámos o ranking e ficámos em 20º do ranking. Devíamos ter ficado em 18º, que era o lugar que nos permitia estar na banda três, onde por exemplo ficou o Uruguai, esteve a Geórgia, a Espanha, os Estados Unidos, as Ilhas Cook e o Tonga. Mas o nosso grupo tem realmente o jogo que temos que ganhar, forçosamente, que é com o Uruguai. E depois com a Irlanda e a Escócia, tentar fazer exibições personalizadas, exibições em que consigamos exprimir muito daquilo que conseguimos também a nível do Mundial 2023, quando jogámos com a Austrália e com o País de Gales, e depois ganhámos às Fiji. E também empatámos com a Geórgia e podíamos ter ganho o jogo diante da Geórgia. Nós estivemos muito perto, em 2023, de chegar às quartas de final Neste caso, quartas de final é impossível chegar, porque com o aumento de 20 para 24 seleções finalistas.

Era mesmo isso que eu lhe ia questionar.

Exatamente.

Era mesmo isso que eu lhe ia questionar, até porque nesse mundial passado, em 2023, havia um formato de apenas 20 equipas, que se dividiam-se em quatro grupos de cinco. Ora, em 2027 há mais quatro equipas, 24, a serem divididas por estes seis grupos de apenas quatro seleções. Pergunto-lhe, e tendo em conta este cenário, se é um formato que pode ajudar Portugal ou se, neste caso, como já referia, essa missão dos quartos de final é um pouco uma miragem para este campeonato do mundo.

Absolutamente. Quartos de final é uma miragem completa, porque mesmo que possamos vencer o Uruguai, que é uma seleção também muito em evolução, aliás, o rugby sul-americano, através do Uruguai, do Chile, já é a segunda presença também consecutiva numa fase final de um campeonato do mundo. E claro, a Argentina, que está num patamar diferente. Mas mesmo que nós vençamos o Uruguai, temos sempre que pensar que nos outros grupos poderão haver seleções que fiquem no terceiro lugar, mas em melhor posicionamento, porque os quatro melhores terceiros lugares vão para os oitavos, a tal ronda de 16, como eles dizem, mas são os oitavos de final. E outros grupos existem em que seleções, como por exemplo, a Espanha, que está no grupo com o Canadá e as Fiji, ou mesmo Estados Unidos e Samoa, que estão no grupo com Japão e França, poderão ficar um bocadinho melhor do que nós para apurar esses quatro melhores terceiros. Porque o apuramento, claro que partindo do princípio que estas equipas da banda três e quatro terão dificuldades em conseguir duas vitórias, porque há sempre duas equipas muito fortes em cada um dos grupos, são as cabeças de série. Depois tem a ver que nós mesmo perdendo com a Irlanda e a Escócia, convém perder pela menor diferença possível.

Por uma margem mínima.

Para que depois no desempate com os outros candidatos todos a serem os quatro melhores terceiros, possamos ter alguma vantagem.

Essa vantagem, precisamente. E pergunto-lhe até para terminar esta entrevista e já tendo em conta essa classificação possível dos melhores terceiros classificados, ou seja, há que ter atenção esses números dos pontos apontados nessas partidas frente à Escócia e frente à Irlanda. Neste momento, como bem sabemos, a África do Sul é campeã do mundo. Pergunto-lho, e tendo em conta que esta seleção calhou no grupo B com Itália, Geórgia e também a Roménia. Também temos outras seleções como a Nova Zelândia, que calhou no grupo A, a Austrália, que vai ser a anfitriã desse campeonato do mundo, também está nesse grupo A. Pergunto-lhe se a África do Sul continua a ser a detentora do favoritismo a esta prova que se vai realizar em 2027. Ainda falta muito tempo, mas pergunto-lhe se esse favoritismo ainda está na África do Sul.

Absolutamente, creio que sim. A África do Sul, realmente, nos últimos anos tem formado uma equipe com jogadores de já razoável experiência. Atualmente, a maior parte do lote de jogadores que são convocáveis, e recordo que em termos de extensão de plantel de qualidade, a África do Sul é aquela que está melhor apetrechada. Já vem da embalagem de dois títulos mundiais, tem um lote de jogadores extenso, diria eu, 15 por aí, de um lote de 25 ou 30 que serão convocados, e que tem entre 15 a 20 jogadores já com dois mundiais no seu currículo. Portanto, são jogadores com uma enorme experiência, têm um campo de recrutamento muito elevado e, quanto a mim, têm, neste momento, talvez aquele que é o melhor treinador da atualidade, que é o Rassie Erasmus, que foi campeão em 2019 e campeão do mundo também em 2023. Claro que nós podemos pensar sempre que há uma Austrália.

Que joga em casa.

Que tem melhorado, mas ainda não chegou ao nível da Austrália antiga. Mas há três seleções que nós temos sempre que considerar, que é a Nova Zelândia, obviamente, e depois, a nível da Europa, a França e a Inglaterra. Sendo certo que, por aquilo que eu estive a ver muito rapidamente, já está traçado o encarrilamento das equipas para os quartos de final e tudo poderá até acontecer, se correr normalmente, que haja um jogo de quartos de final entre Nova Zelândia e África do Sul.

Pode já haver esse embate de gigantes.

Enquanto que Inglaterra e França estarão na outra banda dos quartos de final. O que vai acontecer nos quartos de final vai traçar muito as meias e depois a possibilidade de quem vai chegar à final.

Muito bem. Essas contas serão feitas certamente em 2027 e como há pouco referimos, também a Austrália tem este fator casa, apesar de não ser a Austrália de antigamente, pode ter essa ajuda do público nas bancadas dos vários estádios onde se vai disputar.

Permite-me só que diga algo importante. É que nós tivemos o privilégio, também alguma sorte, de termos disputado duas fases finais de campeonatos do mundo em França, que é um país onde temos uma grande colônia de imigrantes, como todos sabemos, e onde a deslocação de muitas centenas de adeptos aqui de Portugal facilitou e tivemos sempre um grande apoio nos estádios em França. Não vai agora acontecer tanto na Austrália, até pela distância e pelo custo da viagem. Esse é um aspeto que importa a ter em linha de conta. Só para acabar, dizer que só no dia 3 de fevereiro é que será divulgada a lista de todos os jogos, com os dias e os horários, e sobretudo também as cidades onde se vão realizar esses mesmos jogos. E portanto, até lá temos que esperar mais dois meses, pelo menos.

E esse calendário que vai tanto...

Esse plano completo da nossa presença na Austrália.

E esse calendário que vai certamente clarificar o plano para a equipa portuguesa neste campeonato do mundo. Mais uma vez, António Aguilar, muito obrigado por esta entrevista à Rádio Observador num dia em que já se conhecem esses adversários para daqui a dois anos no Campeonato do Mundo de Rugby de 2027, a realizar-se na Austrália. Relembro, Portugal está no grupo D e conta também com Uruguai, Escócia e também Irlanda. Mais uma vez, muito obrigado.

Obrigado eu.