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A esta hora junta-se a nós neste jornal a vice-presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Renata Benevente. Muito boa noite, Renata, está conosco?

Boa noite, sim.

Boa noite, Renata. Doutora, eu começo por lhe perguntar até que ponto o resultado deste estudo era previsível, tendo em conta aquilo que foi o confinamento um pouco por todo o mundo, dos jovens.

Sim, o resultado desta investigação para nós não é de facto surpreendente. Infelizmente, já se antecipavam dificuldades sérias também nas crianças e jovens portugueses, fruto da situação pandémica, porque eram conhecidos os impactos que toda a experiência de perda de socialização, redução de contactos sociais, a impossibilidade de manutenção de algumas rotinas que são cruciais para esta fase de desenvolvimento. Portanto, já perspectivávamos que, de facto, as dificuldades iam acentuar-se e não há aqui, no nosso ponto de vista, grande surpresa nestes dados. Esta investigação é interessante porque traduz aqui uma perspectiva mais global. Temos uma amostra muito grande de crianças e jovens que foram estudados em vários contextos, em vários países. Portanto, estes resultados remetem para uma visão mais alargada daquilo que são os efeitos da situação pandémica na nossa realidade concreta, que é também aquela que mais nos preocupa. Estas dificuldades têm vindo a observar-se no dia a dia da atividade dos psicólogos nos vários serviços. Portanto, o que temos constatado, quer ao nível da intervenção em cuidados de saúde primários, portanto, centros de saúde, quer ao nível dos cuidados hospitalares e até do recurso aos serviços de urgência. Esses dados também foram ainda ontem abordados, dados nacionais, que remetem exatamente para isto, para o recurso que os jovens estão a fazer dos serviços de saúde, nomeadamente até dos serviços de emergência, a pedirem ajuda, porque estão com sintomatologia exatamente nesta linha, da ansiedade e da depressão. E portanto, o que constatamos na realidade nacional é que há uma clara incapacidade de resposta adequada a estas necessidades. E preocupa-nos também o facto destas vulnerabilidades que se estão a acentuar, terem efeitos muito sérios no desenvolvimento destas crianças e destes jovens, que vão provavelmente condicionar aquilo que vai ser o seu bem-estar e sua saúde psicológica na idade adulta. E o que temos também preconizado e defendido é que a abordagem deve ser o mais precoce possível na intervenção com estas pessoas especialmente vulneráveis. Quando falamos de crianças e jovens, estamos a falar de pessoas especialmente vulneráveis e que precisam de um apoio especializado, sob pena de verem comprometido o seu futuro e a sua saúde a médio e longo prazo. Portanto, as queixas já se verificam no momento atual e importa, e com urgência, acautelar que estas crianças e jovens têm, de facto, os cuidados de que precisam e que têm o acesso aos cuidados de saúde, nomeadamente aos cuidados de saúde psicológica, adequados precisamente para evitar que se desenvolvam outros quadros mais sérios e mais difíceis de tratar.

Doutora, no caso português, e também falava aqui sobre os dados nacionais, queria perceber se estamos a falar de efeitos semelhantes. A doutora já revelou que também se detetam, mas nós estamos a falar de um país, o nosso, em que o confinamento foi extremamente severo. E depois, quando as autoridades de saúde olham para estes dados, tem margem para fazer exatamente o quê? Como é que se recupera este tempo perdido e estes efeitos do confinamento?

Na nossa perspectiva, o que é importante e de imediato, e não há aqui tempo a perder, é precisamente proporcionar o apoio que estas crianças e jovens precisam agora, no momento atual. Como disse, e bem, o nosso processo de confinamento foi bastante severo. Houve aqui limitações muito sérias à vida de todos os cidadãos, mas com impacto particularmente importante nas crianças e jovens. E esta sintomatologia reflete exatamente isso. E portanto, urge apoiar estas crianças e estes jovens no seu percurso atual, evitando exatamente que estes quadros se agravem e se tornem, eventualmente, até irrecuperáveis. Porque há aqui etapas da vida das crianças e dos jovens que não se vão repetir. E portanto, tendo havido esta condicionante que foi imposta pelas circunstâncias da pandemia, há que recuperar o mais depressa possível aquilo que não pode ser assegurado graças à situação pandémica.

Doutora, e acha que seria plausível a criação de um gabinete próprio, de uma consulta própria para aqueles que são afetados pela pandemia, em particular? Isto faz sentido no âmbito da psicologia?

Pode ser difícil discriminar aquilo que é exatamente o impacto da pandemia, o que decorre de outros quadros, eventualmente vulnerabilidades prévias que as pessoas já tinham. Portanto, o que nós pensamos é que quem necessita de cuidados de saúde psicológica, deve tê-los. Deve tê-los e deve tê-los atempadamente. Nós temos, infelizmente, em Portugal, uma insuficiência que já era, antes da crise pandémica, muito séria, de recursos ao nível da resposta em intervenção psicológica nas várias áreas de atividade do nosso Serviço Nacional de Saúde. E estamos a assistir a um acréscimo de solicitações, eventualmente agravados pelas circunstâncias que a pandemia trouxe. Veio agravar e pôr eventualmente até a nu uma série de dificuldades que as pessoas já apresentariam, e que estão agora mais acentuadas e mais visíveis. E portanto, o que defendemos é que, para todas as pessoas, independentemente das queixas e do nível de sofrimento atual, decorrer da situação pandémica, do confinamento, das limitações que tiveram, eventualmente até agora, das crises que enfrentam face às situações de desemprego, a lutos que tiveram ou que estão ainda a fazer de pessoas que perderam pela doença, enfim, uma série de circunstâncias que podem realmente levar a um agravamento da condição de saúde psicológica. Mas o que defendemos é que todas as pessoas que precisam de cuidados psicológicos devem tê-los, independentemente da sua circunstância específica. Nós temos, de facto, um número muito insuficiente de psicólogos nos serviços. Temos no nosso Serviço Nacional de Saúde, um número que fica manifestamente aquém do que são as recomendações internacionais. Temos mil psicólogos distribuídos pelas várias estruturas do Serviço Nacional de Saúde, portanto, para uma população de dez milhões, não é difícil perceber que isto é claramente insuficiente. E neste momento estamos com consultas em que há listas de espera de seis meses, de um ano e até de mais tempo. Estamos a falar de primeiras consultas em que o que vai ser feito é uma primeira observação, portanto uma avaliação inicial daquilo que aquela pessoa no concreto vai necessitar e poderá eventualmente implicar, fruto dessa avaliação mais específica, uma intervenção mais continuada no tempo, e que requer realmente uma afetação de recursos que claramente não existem nos nossos serviços. Há aqui um acentuar até das desigualdades, porque provavelmente as pessoas que têm condições financeiras para recorrer a respostas ao nível privado conseguirão ultrapassar as situações de uma forma mais ajustada e quem não tem esses recursos financeiros para poder procurar uma resposta no privado, fica de facto condicionado naquilo que é um direito essencial, que é o direito à saúde. E pensarmos também aqui que a saúde não é apenas a ausência de doença, mas diz respeito a um bem-estar, quer físico, quer psicológico e, portanto, se também não temos estas condições para que as pessoas consigam alcançar o seu potencial, o seu bem-estar máximo, estamos realmente a pôr em risco a saúde de muitas pessoas e não só. Esta investigação reporta precisamente à situação dos jovens, mas temos também a população adulta, a população idosa, enfim, os vários grupos etários a recorrer muito aos serviços de intervenção psicológica. Dizer também a esse propósito que, desde abril de 2020, temos em funcionamento a linha de aconselhamento psicológico ligada ao SNS 24, que neste momento já deu resposta a mais de 90 mil solicitações, portanto, é o recurso que as pessoas conhecem e que utilizam. Vem demonstrar também que, havendo este tipo de resposta ao nível daquilo que podem ser os cuidados de saúde psicológica, a população portuguesa está manifestamente interessada e necessitada dessa mesma resposta.

E relativamente àquilo que era a realidade há alguns anos, nós estamos mais preparados para este tipo de situações?

Preparados em que medida?

Na medida de ter profissionais especializados e obviamente, de dar mais atenção àquilo que é saúde mental. Nós muitas vezes falamos sobre a subvalorização das doenças quando são do foro mental, em detrimento daquilo que é a doença física. Quero perceber como é que evolui, e agora numa altura em que estamos a olhar para esses efeitos na prática e na vida de todos, se há mais recursos para lidar com estes casos.

Nós temos em Portugal cerca de 24 mil psicólogos preparados e com formação especializada para dar resposta às situações de vulnerabilidade psicológica e capacitados para intervir nestas situações. O que temos vindo a constatar, e ainda antes da situação da pandemia, era de facto um número insuficiente de psicólogos nos serviços e essa situação não tem sofrido alteração. Apesar das questões da saúde mental e agora penso que também fruto daquilo que cada um de nós individualmente também tem sentido. Eu penso que todos nós, de formas eventualmente diferentes, sentimos alterações no nosso bem-estar emocional e na nossa saúde psicológica, em função de tudo aquilo que vivemos. Esta foi uma experiência também coletiva e portanto, todos sofremos de alguma forma o impacto da pandemia, mas há de facto aqui uma escassez de recursos e embora se diga, pelo menos é essa a mensagem que vai passando, que nós vamos ouvindo até dos nossos decisores políticos.

Sim, precisamente. Até Marcelo Rebelo de Sousa disse estar muito preocupado com a saúde mental dos portugueses agora quando se falava do processo de desconfinamento, era precisamente por aí que dizia que nós estamos cada vez mais alerta para essas situações, talvez.

Exato, sim. E constatamos isso, os vários intervenientes da nossa vida pública, os decisores políticos remetem para isso e aparentemente têm essa noção de que as questões da saúde mental são importantes e são prementes de resolução. O que é certo é que, efetivamente, e naquilo que é o contacto direto com as populações e a resposta direta às populações, não estamos a conseguir ter esses recursos e essa resposta adequada e atempada. E eu voltava um pouco àquela questão que há pouco referia, e que é particularmente crítica quando pensamos em crianças e jovens, que tem a ver com a fase do desenvolvimento em que se encontram. E a importância que é atuar de imediato para evitar o agravamento das situações e a cristalização de alguns quadros. Esta atuação atempada e contingente à necessidade é fundamental. Estamos a perder aqui tempo essencial e que vai comprometer a vida destes futuros adultos e a sua saúde. E é uma questão que nos deve preocupar a todos como cidadãos.

Doutora Renata Benavente, vice-presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses, muito obrigada pela sua participação neste Jornal das 10 e também por esse esclarecimento. Agradeço-lhe essa disponibilidade.