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Nestas eleições legislativas, o Observador preparou uma ferramenta interativa para ajudar os eleitores a perceberem com que partido se identificam mais. Basta responder a um inquérito interativo disponível no site do Observador, um trabalho concebido pela equipa de programação do Observador e com a coordenação científica de Jorge Fernandes, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que se junta agora a nós. Jorge Fernandes, pergunto-lhe como é que foi fazer este trabalho e como é que funcionou a metodologia para o inquérito e para este votômetro.

A metodologia para a feitura do votômetro não foi inventada por nós. Já tinha havido uma bússola eleitoral em Portugal em 2009, na altura coordenada pela Marina Costa Lobo, e já tinha havido várias edições da bússola eleitoral para as eleições europeias em 2009, 2014 e 2019. Portanto, a feitura deste votômetro seguiu metodologias já experimentadas e já testadas noutros contextos, não só temporais, mas também eleitorais. E o que aconteceu no votômetro foi que fizemos a seleção de 21 perguntas, que são uma mistura de perguntas clássicas que permitem captar as duas dimensões de competição partidária, a dimensão esquerda-direita e a dimensão autoritário-libertário, cosmopolita e nacionalista. E na escolha dessas perguntas, o critério que presidiu a essa escolha foi, no fundo, uma tentativa de mistura de perguntas clássicas que aparecem sempre neste tipo de ferramentas e que já tinham sido usadas recorrentemente. E, por outro lado, também um conjunto de perguntas que são mais tópicas, isto é, perguntas que têm que ver mais com a situação e com a conjuntura atual de Portugal. Por exemplo, a pergunta sobre as liberdades fundamentais e a Covid-19 ou a pergunta sobre a nacionalização da TAP e os gastos públicos envolvidos nessa nacionalização.

Quais foram os principais desafios para este trabalho?

Os desafios principais, em primeiro lugar, foi a questão das fontes. Na medida em que isto foram eleições antecipadas, alguns partidos atrasaram-se na feitura dos programas eleitorais. Primeiro trabalhamos com programas eleitorais anteriores e depois o que aconteceu é que tivemos que atualizar, em alguns casos, as posições dos partidos à medida que os programas eleitorais iam saindo. Isso deu-nos algum trabalho redobrado porque tivemos essa contingência de as eleições virem a ser antecipadas e não serem eleições que estavam de alguma maneira programadas e para as quais os próprios partidos se iam preparando ao longo do tempo. Por outro lado, como é normal em todas as eleições, há situações em que os partidos políticos são difíceis de classificar, porque há posições, por exemplo, heterogêneas dentro do partido. O líder diz uma coisa, temos alguns deputados às vezes a dizer outra coisa. Portanto, às vezes há determinado tipo de questões que são difíceis de nós conseguirmos perceber exatamente qual é a posição do partido e qual é a posição oficial do partido. E às vezes até há questões sobre as quais o partido é omisso em relação a algumas situações. Isso coloca-nos sempre desafios sobre como classificar o partido.

E a propósito dos partidos, dizia-me há pouco que ainda não há reação por parte dos partidos a este trabalho, mas pergunto-lhe, Jorge Fernandes, espera que nas próximas horas ou dias essas reações comecem a surgir?

Eu espero que os partidos tenham uma reação democrática. Vamos ver, isto é um instrumento que não pretende influenciar o voto de ninguém. Isto acima de tudo pretende ser uma heurística e pretende ser uma ajuda aos cidadãos. Isto é, nenhum cidadão vai ler 600 páginas do programa, que é o programa da Iniciativa Liberal, nem mesmo 200 ou 300, que é o tamanho mais ou menos comum dos partidos, do PS e do PSD. Aquilo que nós pretendemos, acima de tudo, é digerir esta informação e torná-la mais rapidamente acessível aos cidadãos. Eu honestamente espero que numa sociedade democrática madura não haja qualquer tipo de reação por parte dos partidos políticos, nem boa, nem má. Os partidos políticos têm que aceitar, numa sociedade pluralista, que exista este tipo de ferramentas e, acima de tudo, que os cidadãos tenham a maturidade democrática para olhar para esta ferramenta e tomá-la por aquilo que ela é, que é meramente um exercício de classificação dos partidos, baseado, de resto, em fontes puramente públicas. A nossa classificação para cada uma das questões tem fontes públicas, sejam os programas eleitorais, sejam, por outro lado, entrevistas dos líderes ou intervenções no Parlamento. Os partidos políticos podem eventualmente até discordar de algumas das classificações que nós fizemos, isso é perfeitamente lícito. No entanto, eu espero que tomem isto pelo exercício que é, que no fundo é até um apelo à mobilização eleitoral e ao interesse dos cidadãos pela política.