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Primeira edição desta semana do Semáforo Político, aqui na Rádio Observador, sempre com a Judite França e com o Bruno Vieira Amaral. Pensávamos que íamos deixar de andar de avião com o fim da comissão de inquérito à TAP, eis senão quando, afinal, apanha o sinal verde do semáforo político, o Falcon, o avião do Estado português com destino a Budapeste. É o primeiro sinal que trazes aqui hoje, Judite França, para o que consideras ser mais uma trapalhada de António Costa e de Marcelo Rebelo de Sousa com esta viagem para o primeiro-ministro ir ver um jogo de futebol.

Porque mais uma vez não há nada que seja fácil neste governo, que seja simples de explicar. Tudo se transforma em casos com vários episódios, com vários protagonistas. E dessa viagem do primeiro-ministro à Moldávia, com essa paragem em Budapeste, já tivemos várias versões. Curiosamente, as primeiras nem sequer foram feitas pelo próprio primeiro-ministro. Primeiro, António Costa queria dar um abraço a José Mourinho, numa viagem que fez de Falcon. Depois, porque era preciso fazer uma paragem técnica para abastecer na viagem até à Moldávia, então escolhe-se Budapeste para dar o tal abraço a José Mourinho. Ainda haverá outra versão, mas depois de ter saído a notícia no Observador, foi o presidente da República que veio dar explicações sobre isto tudo. E isto tudo tem como pano de fundo uma fotografia de António Costa ao lado de um populista de extrema-direita, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán. E sim, foi o presidente da República que decidiu vir justificar a presença do primeiro-ministro num jogo de futebol, que foi a final da Liga Europa. Portanto, António Costa avisou o presidente da República, ficamos a saber pelo próprio presidente da República, mas não incluiu o evento na agenda oficial. E isso tudo aconteceu no final de maio e nós soubemos mais de 15 dias depois, e soubemos porque o Observador noticiou, senão, provavelmente hoje ainda não saberíamos. Entretanto, depois das perguntas que o Observador fez, não obteve resposta da parte do gabinete do primeiro-ministro. Depois do caso ter começado a ganhar proporções mediáticas com a oposição a fazer barulho, hoje então o gabinete do primeiro-ministro decidiu enviar um comunicado à comunicação social a explicar que foi ao jogo a convite da UEFA e por razões protocolares, então estava sentado ao lado de Viktor Orbán. Se era assim tão simples e fácil de explicar-

Por que não foi dito logo?

Exatamente. Por que não foi respondido imediatamente? E depois, podia estar na agenda do primeiro-ministro, porque era uma coisa aparentemente simples. E era preciso esconder, por que era preciso esconder? Por estar sentado ao lado de Viktor Orbán? Bom, e isso não era o objetivo da viagem. O objetivo era responder afirmativamente a um convite da UEFA? Mas é preciso responder afirmativamente a um convite da UEFA? E de novo, se era para responder afirmativamente ao convite da UEFA, então devia estar na agenda oficial. Estar sentado ao lado de Viktor Orbán tem vários problemas, nomeadamente o facto de António Costa ter dito que com ele André Ventura e o Chega não passarão. Portanto, o populista, como António Costa lhe chama, e o Chega não passarão por ele, mas se o populismo for húngaro, já passa. E é até possível confraternizar e irem ver a bola juntos. E, portanto, problemas de convivência com o regime, no mínimo, pouco democrático, de extrema-direita, ponto final. Pode ser se for na Hungria. Tudo certo. E isto é no mínimo incoerente. Nós sabemos que a Hungria faz parte da União Europeia, também sabemos que não é possível antagonizar, mas sabendo que indo a Budapeste estaria com Orbán, era fácil de evitar. Podia ter escolhido outra paragem. A não ser que António Costa queira fazer opções de charme junto de líderes europeus.

Por causa dos voos, já que começamos com voos, para um cargo europeu. Essa é a minha impressão.

Sim, para presidente do Conselho Europeu, e eu acho que Orbán não é decisivo para uma eleição, mas é sempre bom ter quantos mais, melhor. Quantos mais apoios, melhor.

Para ti, Bruno Vieira Amaral, isto é António Costa ter um antipopulismo seletivo, um vermelho também.

Sim, e já preocupado com outros voos. Deixe-me dizer que nós já não temos um primeiro-ministro. Quanto a mim, temos um holograma ou um espantalho, porque na comissão de inquérito à TAP, praticamente não se ouviu falar de António Costa. Parece que o país era governado por Pedro Nuno Santos, por Fernando Medina, por João Galamba. António Costa não existe, é um primeiro-ministro que não existe. E depois, sim, é um primeiro-ministro que não existindo, tem este antipopulismo seletivo. Erguem-se cá cercas sanitárias em relação ao Chega, parece que aquilo é intocável. Não é eleito o vice-presidente do Chega para o Parlamento, porque aquilo toca-se no Chega e a democracia deriva logo para uma ditadura fascista, mas andar de braço dado ou encostadinho a Viktor Orbán, que não me parece que seja muito diferente, aliás, se for diferente, é para pior do que André Ventura, aí já não há problema nenhum, porque é na Europa. É aquelas velhas questões de António Costa, quando passa a fronteira, fala de umas coisas, não fala de outras. Deve também haver outras regras de convívio político com forças populistas e potencialmente antidemocráticas, assim que se passa a fronteira. Não sei. António Costa, melhor do que ninguém, poderia explicar isto. Mas isto para dizer também que a última vez que me lembro de termos tido primeiro-ministro, foi naquela manifestação no Peso da Régua. Aí tivemos primeiro-ministro para se queixar dos cartazes e dos protestos dos professores. Do resto, parece que não temos, e agora voltámos a ter um primeiro-ministro que O que eu penso é que parece que não quer ser primeiro-ministro. Quando foram as eleições e o PS ganhou a maioria absoluta, eu lembro-me de dizer que aquilo terá surpreendido negativamente António Costa, mas mais do que a maioria absoluta, o que parece ter desagradado foi aquela condição que Marcelo Rebelo de Sousa lhe impôs, que é: agora o meu amigo tem de ficar cá os quatro anos, porque se não ficar os quatro anos, vamos para eleições. O que é que António Costa na altura terá pensado quando conquista a maioria absoluta? Neste caso, eu posso sair e ir para a Europa, que o governo do PS está sustentado numa maioria parlamentar, uma maioria absoluta, e não há problema, não haverá questões nenhumas se eu passar o testemunho diretamente a Fernando Medina, por exemplo. Com essa condição imposta pelo presidente, as coisas mudam de figura, porque António Costa sabe que saindo, vai haver eleições. Não há legitimidade, esta é a consideração do presidente, não há legitimidade para um futuro líder do PS assumir diretamente a chefia do governo. Mas António Costa tem um objetivo claro, que é ir pra Europa, é sair daqui. Ele não está contente com isto, está cansado disto. E realmente, se é pra continuar assim, um primeiro-ministro que não é primeiro-ministro, que não aparece nas dificuldades, que não assume responsabilidades de nada do que se passa no seu governo, eu acho melhor libertá-lo, é melhor ir pra Europa de uma vez por todas e poupar-nos a termos de levar com um governo que falta claramente uma liderança, uma chefia. António Costa tem todo o direito de ter outros objetivos políticos, tem o direito de fazer as operações de charme que entender junto dos outros líderes políticos. Agora, também poupe-nos, por favor, àquela retórica do antipopulismo e é preciso salvar a democracia, e não vamos permitir que o Chega franqueie os portões da democracia, porque isso já não engana ninguém.

Mas sendo que politicamente Marcelo Rebelo de Sousa não vê um problema nesta viagem à Hungria.

Pois, eu não sei se vê ou não um problema. Eu fiquei um bocadinho espantado com a necessidade de Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República, justificar. Parecia o assessor de imprensa de António Costa. Ele começou a justificar, a dizer que aquilo foi uma viagem, não sei o quê. Eu não percebo por que Marcelo Rebelo de Sousa às vezes se sente compelido a isso.

Pode ser aquele problema de não aguentar o silêncio, ter que preencher um silêncio. Pode ser esse o problema.

Mas depois de tudo o que se passou e daquela tensão que houve, e que eu acho que ainda existe, de repente pôr-se à frente de António Costa a receber as balas, pareceu-me um pouco estranho. A não ser que haja aqui um outro objetivo maquiavélico de Marcelo Rebelo de Sousa e saiba de coisas que nós não sabemos. Eu achei estranho ele servir de colete à prova de bala do primeiro-ministro, mas poderá acontecer que ele tenha ali uma informação que nós ainda não temos e que venha a ser revelada brevemente.

É possível que este episódio ainda venha a ter novos desenvolvimentos, tendo em conta que António Costa ainda só falou através do gabinete dele. Portanto, teve hoje agenda pública, mas acabou por não falar de viva voz.

Devemos ter uma comissão parlamentar de inquérito pra apurar isso.

Não queremos isso, certamente.

Não, não queremos.

Mas é isso. Depois da TAP, continuam os voos, desta vez com o Falcon 2 vermelhos, hoje no Semáforo Político.