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Quando falo, descubro mais sobre me. E quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos. Olá a todos. Sejam bem-vindos a mais um episódio do Somos Todos Malucos, um podcast dedicado à saúde mental, um podcast dedicado ao autoconhecimento, a conversas que eu acho que vos podem acrescentar algo mais, a vocês e a mim, com alguns convidados que são repetentes nesta casa, o que vai acontecer hoje. É um podcast Observador. Isto quer dizer o quê? Quer dizer que encontram este podcast nas plataformas do Observador, na página do Observador, têm lá os episódios todos, mas também podem escutá-lo no Spotify, iTunes, por aí fora e no YouTube, sendo que às quartas-feiras sai em áudio às 06:00, logo. Portanto, a partir das 06:00 há muita gente a ouvir o podcast, que eu já recebi mensagens, quando vai correr, quando está no ginásio ou a sair para o trabalho. E se quiserem ver o vídeo, por volta de 12:30, podem ter acesso ao episódio da semana. E obviamente têm todos os episódios lá para trás. Ora bem, como eu disse, há convidados que se repetem nesta casa, porque as conversas são boas, porque há sempre coisas que ficam por falar e é o caso da Catarina Lucas, que já esteve no Somos Todos Malucos na temporada passada. É psicóloga, trabalha sobretudo com casais e na área da sexualidade. Falámos na nossa primeira conversa sobre o que era a vida a dois, podem escutar. Mas já abordámos um bocadinho nesse tema, obviamente, a sexualidade. Curiosamente, os estudos mais recentes, fui confirmar e falei também com a Catarina, os estudos mais recentes indicam que o sexo é cada vez menos habitual em casais. Casais velhos, que já estão juntos há muito tempo, e casais novos. O que se passa com isto, Catarina? Olá, obrigado por teres vindo mais uma vez.

Olá, António, obrigada eu.

O que se passa? É a pergunta já, o que se passa?

Pronto, tu começas logo em grande.

O que se passa?

Olha, estamos todos um bocado malucos.

Mas isso podia dar-

Por isso é que eu estou cá uma segunda vez.

Se estamos todos malucos, podia dar tipo: "Olha, não há nada a perder, vamos procriar".

Bora lá procriar, exatamente.

E ter sexo desenfreado para esquecer as mágoas.

É verdade, António. E nós temos visto isso, realmente não são só os estudos que dizem, obviamente, quando trabalhamos com casais. Sabes, quando se está muitas horas em gabinete a ouvir, também vamos tendo esta perceção.

Sim.

Ouvimos muita coisa, como tu deves imaginar. Pronto, então vamos realmente percebendo que as dinâmicas dos casais, a sexualidade, de facto se tem vindo a alterar nos últimos tempos. E há algumas razões que acabam por ir explicando isso. Há uma coisa que nós já sabíamos há muito tempo, que os estudos já são consensuais há muito tempo, que tem a ver com o que estavas a dizer, que é os casais que estão juntos há muito tempo. Portanto, isto já está muito estudado.

Sim, no meu caso, eu já estou com a minha mulher há tempo demais. Desde 1783.

Queres falar sobre isso?

Não. Por acaso, a nossa vida sexual eu acho que nunca esteve muito mal, já esteve menos bem. Mas eu acho que o facto de nós falarmos sempre sobre isso facilita.

Exato.

Facilita um bocadinho a coisa.

Por exemplo, o que acontece nas relações longas? Acabaste por não dizer há quantos anos é que estás com ela. Mas é melhor não dizer, senão vais errar e depois quando chegares a casa.

Nós namoramos desde 99.

Pronto, eu também não sou muito boa a fazer contas. Façam as contas.

Há 26 anos, quase 27.

Pronto, não te enganes, porque as mulheres não gostam muito.

Ainda esta tua rapariga assistente que está aqui contigo não era nascida, já eu namorava com a Catarina.

Pois. Quando começas assim a pôr em perspetiva. Mas pronto, o que acontece quando se está junto assim há muito tempo, como tu estás?

Sim.

Ou seja, há alterações no desejo. Costuma-se dizer que há uma quebra no desejo, e os estudos, de facto, vão mostrando isso. Há uma quebra no desejo, há menos atividade sexual. Isso é uma coisa que está estudada e que está associada, no fundo, à novidade ou à falta dela.

É sempre arroz.

É sempre arroz, exatamente. Há aquela piada do frigorífico.

Não sei.

Eu também não sei muito bem como é, mas é aquela coisa, quando és solteiro, há assim uma piada, tens que desencantar essa. Quando és casado, chegas a casa e é sempre a mesma coisa. É assim uma coisa.

Mas a Catarina diz uma coisa muito curiosa, que eu acho que vai um bocadinho ao encontro de que a rotina não tem que ser necessariamente má. Que é: nós no espetáculo que fazíamos, a Catarina partilhava que muitas vezes as pessoas diziam: "Mas sempre namoraste com o teu marido, é sempre arroz". E a Catarina diz: "Sim, mas já viram de quantas maneiras dá para comer arroz?"

Exato. E tu já viste o desafio que é conquistares a mesma pessoa durante uma série de anos?

Sim.

Tu também podes ver a coisa dessa forma.

E tu podes descobrir coisas novas.

Exatamente. Esse é o desafio. Porque normalmente, o que alimenta o desejo? Os ingredientes do desejo. Acaba por ser a novidade, o imprevisível, o risco, o perigo.

O descobrir.

O descobrir. Que são ingredientes que, no fundo, quando estás há 26 anos com uma pessoa, onde é que está a novidade? Onde é que está a imprevisibilidade?

Sim.

É quase: "Eu já sei o que tu vais dizer ainda que tu não abriste a boca". Ou seja, os ingredientes que, no fundo, são os grandes impulsionadores do desejo, com o tempo deixam de estar presentes da mesma forma. Mas depois entra aquilo que tu estás a dizer, nós de alguma forma vamos ter que implementar aqui alguma novidade. Por isso é que se fala muito da quebra de rotina, que nós achamos que é uma coisa clichê Mas tem exatamente a ver com isto, porque com o passar do tempo, tu não tens sempre coisas novas a acontecer, não tens sempre o desconhecido. Isto são sempre grandes preditores do desejo. Tu vais ter que encontrar uma forma de quebrar essa rotina e trazer alguma coisa de novo para a tua relação.

Que tipo de coisas?

Ninguém diz para fazer zoofilia, não é isso.

Por que não? A pessoa pode experimentar.

Pode experimentar.

Se for uma cena que funcione.

Uma coisa que não fizeram, um local que não fizeram, um hotel, o que for. Nós às vezes pensamos que tem que ser uma coisa sexual, mas muitas vezes não é exatamente isso. A quebra de rotina pode ser uma coisa tão simples, António, como pensares em ti e na Catarina. Imagina que já há muito tempo vocês não vão para uma esplanada tomar um café e falar um pouco. Porque aí estamos a promover outra coisa que é importante, que é a intimidade. E lembra-te que quando estamos na rotina, muitas vezes estamos em piloto automático, estamos na rotina e depois são os filhos, e depois não sei o quê.

E nós notamos muito isso. São três filhas, é muito trabalho também.

Logística.

E eu sei o que é que tenho muitas vezes que fazer. E a Catarina também.

Não tens é energia.

Sim, não tenho a energia e às vezes é preguiça. É muito curioso. Tive um espetáculo há pouco tempo, no fim do ano passado, no Funchal, e a Catarina foi comigo, apesar de ser uma coisa muito rápida, porque eu fui num dia e voltei no outro. Fomos os dois. E depois tu notas ali essa questão de: "Olha-

Estás a fazer uma coisa diferente

..."E há quanto tempo é que não estávamos os dois aqui? Há quanto tempo é que não andávamos de mão dada a passear?"

Muitas vezes achamos que é: "Vou introduzir um brinquedo sexual", por exemplo. Nós às vezes estamos muito focados no sexo. Mas depois há exatamente isto que tu estás a dizer: há quanto tempo é que não sais só com a Catarina para tomar um café numa esplanada, 20 minutos, meia hora, e estás a promover essa intimidade num contexto que é diferente, que não é o teu contexto habitual, não é lá em casa, no meio da rotina, e isso às vezes tem um poder muito grande em termos de intimidade, proximidade e muitas vezes de sexualidade. É aquela coisa, uma coisa leva à outra.

É uma espécie de preliminares.

Exatamente, é uma espécie de preliminares. E nós às vezes valorizamos pouco, mas em casais que estão juntos há muito tempo, isto é importante, porque isto também se vai perdendo. Porque amanhã estás lá outra vez e depois estás lá outra vez. "Não vamos hoje, vamos amanhã." E o tempo vai passando e essas coisas não se fazem.

E depois não vais amanhã.

E o amanhã nunca chega. É exatamente isso que estás a dizer: "Olha, até vou só um dia, se calhar às vezes até é melhor, é só ir um dia. Dormimos aquela noite naquele hotel, voltamos para casa, estivemos só os dois este bocadinho, OK, e foi uma coisa gira."

É esse o principal problema que tu vês, em casais que estão há mais tempo, da falta de sexo estar muito relacionada com a rotina?

Está muito associado, sim, a essa perda de novidade. E depois há uma coisa, que no fundo ainda é cultivada, esta ideia, que é uma ideia que é errada e que de alguma forma temos que conseguir desconstruir, que é esta ideia de que o sexo tem que ser espontâneo. Esta ideia de que vai acontecer e tem que acontecer, se não for espontâneo, então não vale a pena, e se eu tiver que me obrigar, então não vale a pena. E nós vamos muito atrás desta ideia. E a verdade é que em relações longas, o desejo deixa de ser tão espontâneo. Por quê? Porque a espontaneidade vem daqueles ingredientes que nós estávamos a dizer há bocado, vem da novidade, do risco, da adrenalina, do perigo.

Pois é.

Enfim, como é que nós vamos sentir esse desejo espontâneo no dia a dia, no meio das filhas, dessa rotina? Estás a ver a ideia.

Sim.

Então tens que ir por outro caminho. Só que nós continuamos a achar que se eu não tenho vontade, aliás, os casais verbalizam isto, se eu não tenho vontade, não tenho que estar com ele, se eu não tenho vontade, não vamos fazer.

Mas a vontade também se cria.

Ora, aí está.

Por quê? Porque eu às vezes também não tenho vontade, mas eu sei que a minha falta de vontade é pela preguiça.

Sim, é pela preguiça, é pelo cansaço, é porque amanhã ela vai continuar a estar lá, não é hoje é amanhã, só que o amanhã nunca chega, já sabemos disso.

E às vezes, lá está, eu sou muito preguiçoso.

Já percebi.

Mas nós falamos muito sobre essas coisas todas. Ao mesmo tempo, acaba por ser engraçado, porque às vezes eu sinto desejo, mas depois-

Mas tens preguiça

...mas tenho preguiça, porque está quentinho e estou a dormir.

Sim.

Mas olha, ainda há pouco tempo aconteceu isso, eu estava com esse desejo, mas ao mesmo tempo: "Está um frio do caraças."

Agora vou tirar a roupa e não sei o que é que se passa.

"Estava tão quentinho aqui." Mas pensei: "Deixa-te de tretas." E pronto.

É para isso que está a vida, não é?

E a partir desse momento em que há o desejo, tomar a iniciativa, mesmo que parece que não há vontade, porque a vontade está muito associada a isso.

Vai surgir, sim.

É essa coisa da rotina, de todos os dias a mesma coisa.

Mas aí fizeste uma coisa, que é no fundo aquilo que nós precisamos fazer para quebrar este ciclo, que é o envolvermos conscientemente e de forma intencional. Ou seja, esta ideia, o sexo pode não ser espontâneo, mas passa a ser intencional. E não há problema nenhum com isso.

Às vezes nós marcamos.

Exatamente, é aquilo que nós corriqueiramente dizemos, ter hora para o sexo ou agendar o sexo. Há uns tempos tinha uma senhora que vinha da ginecologista e acho que a ginecologista lhe disse qualquer coisa, como: "Então, mas ponha na sua agenda, é uma pessoa tão organizada, põe tudo na sua agenda, ponha também na sua agenda." Ela saiu de lá muito chateada com a ginecologista. E eu disse: "OK, ela pode não ter usado a terminologia mais correta, mas ela tem razão, essa médica tem razão naquilo que está a dizer", que é no fundo: torne isto consciente. Deliberadamente decidir, consciente e deliberadamente é como se fosse uma decisão que nós tomamos. Como tu disseste há bocadinho: "Está aqui quentinho agora, mas olha, eu vou me envolver sexualmente, neste caso, com a Catarina." OK, tu tomaste essa decisão e a partir daí, não vou falar por ti, mas muito provavelmente as coisas desenrolam-se. É um bocadinho este impulso inicial, este levantar do sofá e fazer alguma coisa, ter iniciativa, porque a partir daí o desejo surge. E nas relações longas, nós achamos que começa no desejo.

E eu acho que muitas vezes também, não sei se isto é verdade ou não, mas que pode haver aqueles sítios pré Aqueles horários e os sítios para se fazer as coisas, ou à noite e na cama ou no quarto. Isso também vai logo limitar uma data de coisas.

Certo.

Porque à noite tens o cansaço, é o fim do dia.

À noite tem esse problema.

Depois tens a cena que associar sempre só o quarto, também não traz coisas novas.

Não traz essa dita novidade. Porque tu estavas a perguntar: "Mas o que é que pode ser diferente?" Pode ser efetivamente outro local, outro horário. Se pensarmos mesmo em coisas sexuais, porque há coisas que podemos levar um pouco mais para a intimidade. A noite é um bocado tramada, porque normalmente é quando nós temos mais disponibilidade, é quando já chegamos do trabalho, os miúdos já estão na cama, temos agora um bocadinho para nós. Problema: já estamos cansadas. Quando estamos mais exaustas e já só queremos dormir, é quando temos que fazer sexo. Que chatice. E depois dá origem a um vídeo que eu gravei há uns tempos, "Prefiro dormir a fazer sexo". Quer dizer, deixa-me em paz.

Porque depois uma pessoa começa a fazer contas: "Eu vou ter que acordar às 22h. Se eu vou ter sexo agora, só vou adormecer às 22h05".

Eu estava a pensar nisso, que depende de quanto tempo é que tu demoras.

Demoro a despachar e a adormecer.

Mas também é verdade, ainda bem que estás a tocar nisso, porque é uma coisa que realmente também está no cognitivo das pessoas.

Eu sei, porque é o que eu penso, às vezes.

Exatamente. Agora todo este ritual, teres sexo, já vou perder aqui nem que mais não seja meia hora de sono. Ou cinco minutos.

Se forem cinco minutos bons.

Exatamente. Eu estou a pensar já no ritual todo. Até depois voltares a deitar-te, puseres o lençol, já passou meia hora.

Mas ao mesmo tempo, é isso. Se tu não estiveres também disposto a ceder nessas pequenas coisinhas, é normal que fique mais difícil.

Exatamente.

Ceder nessas coisinhas de marcar na agenda. Porque marcar na agenda até acaba também por ser-

Pode ser interessante. "Olha, está a chegar sexta-feira, sair tarde. Bora lá, vamos pegar uns no outro de casa".

Introduz também uma cena nova.

Sim, exatamente. Imagina que até durante o dia vais falando sobre isso. Então como é que é? Já estás a preparar-te. Até pode ser uma coisa bem interessante. Aliás, há casais para quem isso funciona lindamente. Eu tinha um casal que em tempos eu atendia, eles trabalhavam aqui no meio da rádio, tinham uns horários um bocado desfasados. Nós sabemos. E então eles combinavam sempre num hotel, ali acho que era ao meio-dia, lá iam os dois e aquilo funcionou durante muitos anos. O problema foi quando ele deixou de fazer aquele horário, passa a estar em casa e aquilo deixa de funcionar da mesma forma. Porque no fundo já tinham esse ritual, que era no fundo uma rotina, aquilo era sempre no mesmo dia, na mesma hora e no mesmo sítio. Só que aquilo funcionava.

Eu também já marquei num hotel, mas a minha mulher não sabia.

Pensei que ias dizer: "Mas a minha mulher não apareceu".

Não, por acaso também gostamos em hotéis, porque não gosto de motéis.

Sim. Já é uma coisa muito-

Já entra a perturbação psicanalítica.

Ok. Já te estou a imaginar.

Não, contaminação.

Exato. Quem já esteve aqui.

Tinha que ir enrolado em celofane.

Exato.

Não é a minha cena. Mas hotéis normais é fixe, porque estás literalmente num sítio diferente.

Estás num sítio diferente, exatamente. Imagina que até foste jantar fora, porque quando estás em casa, até isso é chato. Tiveste que fazer o jantar, Tiveste que arrumar a cozinha. Vais ter que fazer ou fazer a cama, não interessa, vais ter que arrumar alguma coisa. Quando vais para o hotel, não tens que te preocupar com nada disso. Vamos só jantar. Enquanto estamos a jantar e alguém está a fazer o jantar para nós, nós estamos aqui a conversar. No dia seguinte, não tenho que me preocupar se o quarto ficou desarrumado ou não ficou. Vê como isto muda a nossa disponibilidade e o nosso mindset. Para voltar ao início do que tu estavas a dizer, em casais que estão juntos há muitos anos, e isto é um tema por causa destas coisas que nós estamos a falar. E temos que encontrar estas estratégias para ir contornando, mas é importante que percebamos uma coisa, António, isto é normal, também não és tu, não sou eu, não é aquele casal X ou Y, que são anormais e que têm pouco sexo ou que têm pouco desejo, ou que passam muitos dias sem acontecer. Isto é comum. Isto é o mais comum e o mais normal. Não há nenhum problema com isso. Temos é que perceber por que acontece. Por exemplo, as mulheres têm muito esta questão e chegam muitas vezes à consulta a achar que têm um problema, que é: "Mas eu gosto do meu marido, mas não sinto vontade". Isto acontece imensas vezes. Quando nós vamos perceber, tem exatamente a ver com isto. Depois, obviamente, no caso das mulheres, também há questões hormonais que podem estar associadas, como é lógico. Mas muitas vezes está associado a isto que nós estamos aqui a falar, a esta rotina, obviamente associada a esta falta de novidade, portanto tem a ver com o sentimento.

E depois, provavelmente, tem aquela coisa de não falarem. Depois, se calhar, não falam sobre as coisas.

Claro, e depois vão-se criando ressentimentos e há uma coisa, António, que é verdade. O sexo também, de alguma forma, por norma, aproxima os casais. Depois isto é um ciclo, que é: não há sexo, não há intimidade. Por intimidade, entenda-se proximidade, afinidade do casal. Que às vezes intimidade e sexualidade não são a mesma coisa. Depois o casal vai-se começando a distanciar, também quanto mais distante está, menos conversa sobre isso, portanto menos sexo, e depois a determinada altura temos uma bola de neve. Mais irritados, mais mal-dispostos.

Depois não falam sobre as coisas, depois acham que a culpa é delas, e o outro, se calhar-

Às vezes brinco com os casais e penso: "Olha, se tiver quadros para pôr lá em casa, já sabe o que tem que fazer ontem à noite, que ela amanhã vai acordar tão bem-disposta que ele põe os quadros todos que estão lá em casa." Enquanto tiver alguma coisa para lhe pedir . Já sabe o que tem que fazer. Estou a brincar, como é óbvio, é uma ironia. Mas no fundo, para dizer como isto também interfere com o nosso estado de humor. Aquela coisa de no dia a seguir as pessoas acordam mais bem dispostas, até estão mais tolerantes. " Até deixaste ali os sapatos, mas pronto, ok. Até nem vou implicar contigo".

E isso é uma questão-

E também é biológico

É isso. É físico

É fisiológico. É emocional e é fisiológico. Portanto, é um pouco este inverter a tendência, mas lá está, é o que tu dizes, não se conversa sobre isto, começa-se a achar que há um problema, depois o outro começa a pensar que existe uma terceira pessoa. Depois começam a entrar muitas vezes este tipo de pensamentos, ou que "já não gosta de mim, já não me procura". E depois é aquela coisa, começamos quase a ser desconhecidos e a determinada altura, parece que já nem sabemos como abordar o outro. Nós já nem sabemos como nos aproximar, como tocar.

Estás só a gerir coisas.

Exatamente. E depois, a determinada altura, parece que o outro é um estranho. Eu já não sei muito bem como é que agora quebro esta barreira.

E muitas vezes as coisas continuam lá. Estão adormecidas.

Adormecidas. Se calhar, na maioria das vezes, António, as coisas continuam lá e os sentimentos continuam lá. Só que estamos tão distantes. Depois, a determinada altura, parece que não sabemos como inverter o ciclo. "Ok, como é que agora chego até ele?"

E acho que há uma coisa importante, porque eu também já vivenciei isso de alguma maneira. Quando tu estás muito tempo nessa rotina e não tens esses hábitos de alterar a rotina, também não é por alterares uma vez que as coisas vão ficar espetaculares.

Certo, que às vezes as pessoas têm esta ideia.

Ou acham tipo: "Vou fazer isto uma ou duas vezes e pronto, já está tudo bem".

As coisas têm que ser com consistência. E às vezes acham que vamos passar aquele fim de semana fora e vai ficar tudo bem. Não vai. Claro que esse fim de semana vai ser o gatilho que nós precisamos, mas depois temos que continuar a cultivar isso. E esse cultivar-se com coisas mesmo muito pequenas. Há uns tempos tinha um casal e eu também lhe perguntava que momentos é que eles tinham só os dois, de intimidade, aquelas pequenas coisas. António, eu acredito que eles não conseguiram, estiveram não sei quanto tempo na consulta e não conseguiram enumerar. "Mas aquele momento em que vão ali à varanda e tomam um café os dois, na vossa varanda da vossa casa?" "Não." "Ou em que abrem uma garrafa de vinho e estão os dois a beber?" "Também não." Pode ser coisas muito simples, mas às vezes estamos a tentar procurar estas pequenas coisas e elas não existem naquele casal. E às vezes não tem que ser um fim de semana fora, até porque, como eu disse, é muito difícil, portanto às vezes estamos só a falar-

Melhor é não ter filhos.

Quem nos ouvir diz que o problema... António, acabei de arranjar uma filha, tu não dizes isso, está bem?

Já não vamos a tempo.

Já não vamos a tempo. Já destruí tudo.

Não, é isso, mas é adaptar-se.

Estou nesse processo, agora estou nesse processo, mas pronto, daqui a uns tempos falamos sobre isso. Enfim, depois nos casais jovens, que também estávamos nós a dizer há bocadinho, é outra questão.

Pois, os casais jovens, porque-

Diríamos nós, adrenalina não lhes falta

Será que falta? Eu acho que se calhar falta.

Ou então têm adrenalina a mais, só que estão a usar ela para outras coisas.

Pois.

Mas realmente essa é a tendência. Ou seja, enquanto que esta coisa dos casais que já estão juntos há muito tempo, já está muito estudada, é um fenómeno que não é novo. Não é novo para quem trabalha na área, mas se calhar as pessoas em geral muitas vezes não têm esta noção, porque continuam a insistir um bocadinho nesta ideia de que as coisas têm que ser espontâneas, e já sabemos que não são, têm que ser trabalhadas, temos que investir para que as coisas, de facto, não se percam. Mas nos casais jovens é diferente. E de facto estão menos disponíveis para o sexo. E depois é engraçado porque é numa fase, numa altura em que têm acesso a tudo. Está tudo à sua disposição e depois isso, de alguma forma, joga contra eles. Têm acesso a toda a informação, têm acesso a todos os conteúdos. É um pouco a ideia do: fala-se muito sobre sexo, mas faz-se pouco sexo. Falam muito de sexo, mas fazem pouco sexo.

Porque eu acho que no meu tempo.

No meu tempo. Aí quando se cala. Ó António, quando se diz isto.

Mas é verdade. Olha, no espetáculo que eu tenho, eu bordo um bocadinho essa questão, porque eu digo que no meu tempo, quando eu era puto, tu até para a masturbação, tinhas que criar todo um planeamento, porque tu não tinhas acesso a nada.

Pois, eu estava a pensar, até tinhas que arranjar uma forma de arranjar uma revista.

Isso, tu tinhas que arranjar uma revista ou tu fantasiavas. Eu fantasiava com a revista, com a Playboy, que eu via na papelaria, que eu olhava, mas não podia comprar. Exato. E depois: "Como é que aquilo é lá dentro?" Ou fantasiavas.

Mas olha que a fantasia tem um poder brutal. Hoje em dia o que nos falta é mais fantasia.

Mas é isso.

Imaginar.

Para a masturbação, enquanto jovem adolescente, tu tinhas que planear todo um cenário.

Pois é.

Porque eu ainda por cima sou-

E depois eu tinhas que esconder as revistas.

Exato. Eu era o supervisual. Portanto, imaginação para mim não me dava muito jeito, porque eu começava a pensar em porcarias. Em tudo menos nisso. E na culpa católica: "Estás a fazer isto, a tua família vai estar a morrer".

Pois é. E o Deus que tudo vê.

Ora bem, e o que é um bocado também kinky, ter Deus, eu a masturbar-me e estar Deus a observar.

É o Nietzsche que diz isso. Ou seja, para o homem ser feliz, o Deus omnipresente tem que morrer. É aquela coisa, o Deus onipotente, aquele que tudo pode, também não me interessa muito. Aquele omnisciente, aquele que tudo sabe, também não me faz grande diferença. Agora, aquele que tudo vê.

Calma, não vais ver tudo.

Era, então o Nietzsche dizia isso. Para nós sermos felizes, Deus omnipresente tinha que morrer.

Tu fantasiavas e sabias pouco sobre o sexo e fantasiavas mais. E agora, realmente, acho que acontece muito isso, que é: tu sabes muito, vês muito, mas isso acaba também por ter influência na libido, ou não?

Sim. O que é curioso. Numa altura em que vemos muita coisa, temos acesso a tudo, não temos essa dificuldade, tu estavas a dizer, mas depois ao mesmo tempo, nós temos pouco sexo, efetivamente. E os jovens estão a ter pouco sexo, porque lembra também de uma coisa, para termos sexo, ou pelo menos sexo de uma forma partilhada, porque tu podes ter a tua sexualidade individual, como estás aí a descrever. Isso também é sexualidade. É uma sexualidade individual, portanto, é a nossa própria exploração e que faz falta, até para conseguires depois ter uma sexualidade partilhada, também mais gratificante. Mas depois pensa uma coisa: ok, nós vemos muita coisa, lemos muita coisa, sabemos muita coisa, mas onde é que nós estamos também a falhar? Depois nas relações interpessoais. Muitos destes jovens nem sequer sabem como abordar outra pessoa. E muito menos como se comportar com essa outra pessoa. E depois, nós temos jovens com muita ansiedade de desempenho, muito medo de falhar. Aliás, porque muitas vezes já viram uma série de coisas. Já viram uma data de vídeos, eles aprendem a própria sexualidade muitas vezes de uma forma disfuncional.

Sim, a pornografia.

Claro, obviamente no nosso tempo também existia, como é lógico, mas é como tu dizes, acho que era mais difícil.

Mesmo a pornografia em si era diferente.

E hoje em dia, ela circula muito facilmente nos grupos do WhatsApp, coisas muito curtas também. Às vezes 30 segundos, um vídeo muito curto.

A pornografia eu acho que tem duas ideias: uma, pode ajudar em termos sexuais, mas também pode dar uma visão irreal da sexualidade.

Esses são os riscos, exatamente.

Que é o que tu estás a dizer. Mas eu acho que a pornografia dos anos 80 e 90 tinha menos esse risco.

Sim, concordo.

Porque era mais simples, menos perversa.

Um bocadinho mais real, apesar de tudo.

Sim, um bocadinho mais real.

Mais próxima.

Os filmes tinham história.

Essa é fantástica. É o que eu estava a dizer há bocadinho, neste momento tens vídeos de 30 segundos. Qual história? Não há história, nós passamos diretos.

Sim, eu lembro-me. É engraçado que eu lembro de ver filmes pornográficos.

Agora os mais jovens a pensar: "Pornografia com história?"

Eu lembro-me de filmes pela história!

Pois.

Eu lembro da história de um filme, não sei que idade é que eu devia ter, mas suponho devia ter para aí 13, 14.

Ias dizer 10, não é?

Não, 10 ainda não, mas foi por volta dos 12.

Mas atenção, que os miúdos hoje em dia estão a receber pornografia nos telemóveis muito cedo.

Mas estão a receber e depois o que é que fazem com ela? Não sabem.

Não sabem, exatamente. Nem sequer conseguem interpretar, nem sabem muito bem o que aquilo significa. E nós temos aí já um problema. Mas isso é outra história.

É isso que tu estás a dizer, estão a ver aquilo, mas não estão a perceber como é que se aborda uma mulher, como é que se explora a sexualidade.

Sim, até mesmo em termos de desenvolvimento físico, o próprio corpo ainda não acompanha aquilo que estão a ver. Ainda não sabem muito bem como chegar àquilo. E depois, ao mesmo tempo, nós vamos tendo o desenvolvimento das relações interpessoais, que nós sabemos, na fase em que nós estamos, temos sérias lacunas. Socializamos muito no digital, mas relações ao vivo, interpessoais, nós estamos com muitas dificuldades, e os jovens neste momento chegam até nós, aos nossos consultórios, com muita dificuldade. Por exemplo, há uma coisa que é muito comum, que é: "Como é que eu vou encontrar alguém? Como é que eu abordo alguém?" Às vezes quase que temos que estar a fazer este trabalho em gabinete, de alguma forma, explicar, simular ou treinar como é que vamos abordar alguém. Porque são competências que hoje em dia não estão a ser desenvolvidas, não estão a ser aprendidas.

São substituídas nas redes sociais.

Exatamente.

E nos WhatsApps.

Tal e qual.

Tudo o que se diz, não se diz na cara.

Tal e qual. E tu não aprendes esta coisa da relação direta de um para um, ou em grupo, ou o que seja.

E a frustração.

E a frustração. E depois, para ter sexo com alguém, de alguma forma vais ter que passar por isso, vais ter que te relacionar com essa pessoa. Ou tens aqui uma coisa que também acontece, que é: "Ok, vamos nos encontrar". Até combinas no WhatsApp, a hora X para termos sexo. E que mesmo assim, o problema é que depois muitas vezes também não funciona, porque temos aqui uma ansiedade de desempenho, de 1001 coisas que nós vimos na pornografia, muitas vezes.

Sim, eu não sei como é que era quando eu era puto, mas hoje em dia, se calhar, entre a malta mais nova, há muito só sexo pelo sexo, sem qualquer nível de intimidade.

Sim, essa é outra coisa.

Seja muita ou pouca, não há intimidade.

Essa é outra coisa, António. E nós podemos ter sexo por sexo, ponto final. Ou seja, nós para ter sexo com alguém, não temos que ter sentimentos por essa pessoa. E não há problema nenhum.

Mas parece que há uma necessidade de não criar vínculo.

Exatamente, essa que é a questão. Nós não queremos nem oito, nem 80. Antes tínhamos uma coisa que é: ter sexo com desconhecidos é mau, ou ter sexo casual era mau. Hoje em dia, ok, também temos aqui uma liberdade sexual maior e isso é bom, tanto para homens como para mulheres, sobretudo para a mulher, isto era uma coisa muito mal vista. Felizmente, hoje em dia a mulher também alcançou essa liberdade sexual e também se pode divertir à vontade, sem vínculo e sem compromisso. Qual é a questão, e particularmente o que estamos a falar dos nossos jovens, é no fundo, imagina, se calhar quando tu eras adolescente, isto se calhar para as raparigas até era vivido de uma forma diferente, o sexo era especial, era uma coisa que era especial, querias que a tua primeira vez fosse especial, que fosse com alguém especial, este tipo de coisas, que hoje em dia se perdeu. E não é que tenha que ser exatamente assim, não é isso, mas é a questão de muitas vezes passamos do oito para 80. É um bocadinho a banalização, que hoje em dia também se faz sexo. Parece que também não tem importância além do sexo. E muitas vezes do provarmos coisas através do sexo. Ou seja, nós já não usamos sexo como forma de nos ligarmos ao outro. Não temos que o fazer.

Sim, mas é isso que tu estás a dizer. Ou seja, nem oito, nem 80. E neste momento, pelo menos a ideia que eu tenho, é que é sexo pelo sexo e nem é por uma questão, muitas vezes, se calhar, do prazer, é só porque sim.

Ou muitas vezes é o sexo até para-

Desligar de outras coisas?

Sim, às vezes é uma checklist. "Ok, sim, feito, ok, já estive com aquele, ok, já estive com outro". E nós temos que considerar que muitas vezes o sexo, não sendo obrigatório, não quero de todo passar essa mensagem, mas é também uma forma de nos conectarmos ao outro, de nos ligarmos emocionalmente ao outro, também tem uma função que não é só o prazer físico. Obviamente, nós não temos que ter ligação emocional com as pessoas que nos envolvemos, mas ao mesmo tempo também é interessante envolvermos sexualmente com alguém por quem temos uma ligação emocional, que não tem que ser de amor. Quando eu digo ligação emocional, não tem que ser de amor, não tem que ser para casar.

Exato, mas pode ser só tesão.

Pronto, exatamente, mas tens ali alguma química, alguma ligação. Aquela pessoa está interessante, está engraçada. E é uma forma de te relacionares com aquela pessoa. Não é uma coisa mecânica, era aí que eu queria chegar. No fundo, tu estares ali, estares com esta pessoa, aquilo tem um sentido para ti, tem um significado, não quer dizer que vais casar com aquela pessoa.

Claro.

Mas não é puramente uma coisa mecânica que está ali a acontecer. Tu estás a relacionar-te com aquela pessoa também através do sexo, mesmo que seja sexo casual, mas não estás ali mecanicamente.

E tu achas que as redes sociais Dificultam essa maneira dos rapazes se relacionarem com as raparigas, mas também das raparigas com os rapazes.

Sim. Acho que é das duas partes.

Porque depois, infelizmente, as redes sociais têm cada vez mais discursos misóginos, machistas, de homens ou rapazes que sabem que aquilo vai de alguma maneira vender, que dão uma imagem que provavelmente às vezes nem sequer é totalmente real da parte deles e faz com que os rapazes que veem aquilo tenham muito essas atitudes de: "A mulher só serve pra isto". Mas eu também vou vendo cada vez mais o discurso de muitas raparigas novas de: "O homem é que manda, temos que estar disponíveis, temos que fazer isto."

E essa coisa de termos que estar disponíveis era uma coisa que a minha avó dizia. E nós lutamos tanto para esta nós mesmas.

O casamento é pra vida. Parece que está a voltar um bocadinho o discurso de ou o casamento é pra vida ou não há sequer casamento e não há ligação.

Ou não vale a pena. Estamos sempre a funcionar nesta coisa do oito ou 80. E obviamente, eu percebo que de alguma forma também nós tínhamos alguma necessidade de voltar um bocadinho atrás, voltar a ter outro tipo de relação. Ok. Não vamos voltar tão atrás ao tempo das nossas avós, em que estávamos aqui disponíveis quando o homem queria e eu não tinha voto na matéria. E temos efetivamente que ter cuidado com este tipo de coisa. Imagina, até esta coisa muitas vezes de deixarmos de trabalhar, ficarmos em casa, até pra cuidar dos filhos, muitas vezes é visto hoje em dia como uma coisa bonita. Eu acabei de ser mãe e percebo, obviamente, a necessidade de estar em casa com os filhos. Mas se não temos algum cuidado, daqui a um bocado voltamos àquele tempo em que efetivamente a mulher estava resignada a estar em casa, a cuidar dos filhos e disponível pro marido. Até porque financeiramente vamos passar outra vez a depender. Esta coisa dos oito ou 80. Temos sempre que ter muito cuidado com estas coisas. E de fato, os jovens têm muita literacia sexual. E fala-se muito de educação sexual, até nas escolas.

Mas agora parece que vai deixar de haver outra vez.

No fundo, eu acho que ela está diluída noutras coisas. Aqui a questão da educação sexual é: os nossos miúdos nem sequer precisam particularmente que a gente lhes ensine a parte sexual. O que eles precisam é que os ensinemos a relacionarem-se, que lhes ensinemos emoções. Um bocadinho isto que estávamos a dizer aqui. Qual é o significado do sexo, pra que ele pode servir. Porque a parte anatómica, a parte da contraceção, no fundo, eles têm acesso a esta informação muito antes daquilo que nós imaginamos, como é óbvio. Nós estamos na geração da informação. O nosso problema não é falta de informação, António, claramente. E o problema dos jovens neste momento não é falta de informação. Muitas vezes temos a informação em excesso sem saber o que fazer com ela.

É a falta de relacionamento.

Certo.

E de gestão emocional.

De gestão emocional. Portanto, acho que em vez de educação sexual, devíamos ter alguma coisa como educação relacional.

Ou emocional.

Ou emocional, alguma coisa deste gênero.

É verdade, porque dá uma ideia que há muitos miúdos que simplesmente não falam sobre as emoções, não sabem reagir.

Não as conseguem interpretar.

Não as conseguem interpretar, não reagem bem às frustrações ou não entendem as frustrações. E isso eu acho que vamos parar sempre ao mesmo, que é à questão da digitalização do mundo. Eu lembro quantas vezes levei tampas na cara.

Pois, mas sabes outra coisa muito curiosa? Os jovens hoje em dia nem sabem levar tampas. Como é que se leva uma tampa de alguém?

É o ghosting, não é?

É, exatamente.

É o ghosting. Dantes, eu acho que não existia sequer o conceito, porque não se fazia.

Pois não existia.

Tu não desaparecias.

Exatamente. Chegavas lá e no limite mandavas um amigo dizer-lhe que já não querias nada com ela.

Uma carta ou qualquer coisa. Mas ainda assim...

Mas não desaparecias.

Não desaparecias.

Sim. Mas lá está, o digital traz-nos este fenômeno. Que é o desaparecer simplesmente, não tens que dar justificações, não tens que falar com outra pessoa, desapareces simplesmente.

E para não ter que enfrentar a realidade.

Sim, porque não sei lidar com ela. É como a história do desgosto de amor, que também sempre fez parte. O teu primeiro amor, o teu primeiro desgosto de amor. E hoje em dia isso fazia parte mesmo do nosso desenvolvimento, do nosso amadurecimento. E hoje em dia, um desgosto de amor, como é que se lida com isso? Porque nós estamos muito pouco treinados pra isso.

Tu conheces lá miúdos com desgostos de amor?

Claro que sim.

No sentido de não saberem entrar em depressão.

Sim, é quase como esta ideia que no fundo a questão não é a intensidade como é vivida. Nós também vivíamos. Um dia ia acabar, e pra eles também vai acabar. A questão é depois a capacidade que temos de gerir e aquilo que fazíamos com isso. Hoje em dia, se for preciso, acaba-se um namoro e a seguir eu ameaço que me vou suicidar, por exemplo. Ou efetivamente tenha comportamentos autolesivos, coisa que se calhar antes não existia com a prevalência que nós hoje em dia temos. O que está a mudar é a forma como lidamos e como gerimos essas coisas. E se tu pensares, imagina, quando tu estás a relacionar num WhatsApp, até pões lá uns emojis, é verdade. Mas tu não estás a ouvir o tom de voz. Por isso é que hoje em dia se começa a falar que tu estás a falar com um jovem e parece que ele não tem uma expressão, que a expressão deles é sempre igual.

É verdade.

Quando estás a falar, até pões lá um emoji a dizer que estás a rir, mas tu verdadeiramente não estás a rir. Tu estás a escrever, mas tu não te estás a rir. Enquanto que se estiveres com a pessoa a falar diretamente, tu vais-te rir. Estás com a pessoa, estás-te a rir.

É verdade, pois é. Nunca tinha pensado nisso dessa maneira.

Vendo as coisas nesta perspectiva. Agora, obviamente, o problema não é uma vez ou outra, todos nós fazemos, nós também comunicamos por WhatsApp, como é lógico. Mas é pensarmos nisto de uma forma continuada. Nós tivemos a oportunidade de aprender a relacionar-nos com outros numa outra altura, nos anos 80 e 90. E os jovens hoje em dia não têm essa oportunidade. Ou têm essa oportunidade de uma forma mais reduzida. Ainda por cima passamos por uma pandemia.

Exato, que também veio piorar.

Também veio piorar, pôs toda a gente em casa, tudo aquilo que nós sabemos. Se nós já vínhamos nesta rota, isto ficou tudo intensificado e depois já não se voltou ao que éramos antes disso.

E depois, se calhar, tu também tens aí outra coisa que contribui Que acaba por ir dar ao início da conversa, que é quando há esse distanciamento dos pais e depois os filhos adolescentes veem isso em casa.

Pois é.

No sentido de também-

Os padrões que observam, um tipo de relação.

Exato, também acaba por ser normalizado.

Sim, é verdade.

Se não veem afeto.

Proximidade, comunicação.

Se veem o pai e a mãe se calhar a discutir ou sem falar, não estão em conjunto a fazer coisas, de alguma maneira, de forma subconsciente ou de forma inconsciente, isso também acaba por ser-

É um pouco aquela ideia dos modelos de relação que nós temos. E daí ser tão importante. Como aquela ideia de quando crescemos em ambientes de violência, aquilo a que estamos constantemente expostos é a violência. Se estamos expostos à discussão, é esse modelo de relação que nós vamos aprender. Nós também sabemos que as relações, de alguma forma, e o amor também está em crise.

Sim.

Os padrões que estão a ser observados, é verdade que também são diferentes, e também se alteraram e também têm impacto. E depois ainda há outra coisa, que eu acho que faz diferença, que se calhar antes também não existia desta forma, que é a quantidade de coisas que neste momento tens, que vão suprir a tua necessidade, por exemplo, de prazer. Eu posso estar efetivamente numa rede social duas horas, eu estou a obter recompensa daquilo, até estou entretido, até estou distraído, estou a satisfazer as minhas necessidades de gratificação. Portanto, não vou ter sexo, por exemplo.

Sim.

Ou estou a jogar um jogo. Temos acesso a tanta coisa.

Exato.

Para que é que eu me vou dar ao trabalho?

Sim, a dopamina, essas coisas todas estão a ser recompensadas de uma maneira que tu nem sequer percebes que depois vai faltar o resto.

Exatamente. Porque a tua necessidade já está a ser suprida por 1001 outra coisas, pelos conteúdos que recebemos.

Há uma coisa que eu ainda não te disse, estava a falar com um amigo meu sobre isso. E esse meu amigo não tem namorada e tem apps de encontros.

Certo.

E ele disse uma cena que eu nunca tinha pensado, e é verdade. Ele diz: o fato de não ter uma relação, e ele tem uma profissão que lhe exige um foco grande, ele diz que não ter namorada e ter apps é um gasto de energia completamente desnecessário. E eu assim: "Mas por quê?" E ele diz: "Porque tu estás à procura de uma pessoa, tens que estar a fazer swipe. Sim ou não. Tens que meter conversa com essa pessoa. Tens que perceber se será ou não, e marcar um encontro, e não sei o quê, e tudo de uma forma digital. E eu dou por mim, em vez de estar focado no meu trabalho, estou às vezes a alimentar aquilo que me faz também distanciar do mundo real e de uma possível mulher que eu poderia encontrar".

Verdade, mas quando falamos deste digital, também falamos disto, das apps de encontros. Eu não tenho nada contra as apps e ainda bem que elas existem.

Sim.

Eu conheço casais que resultaram das apps e maravilhosos, e confios, e tudo espetacular. Mas, mais uma vez, é esta forma de nos relacionarmos. Se isto não tiver equilíbrio depois com o relacionamento interpessoal ao vivo. Mas eu por acaso não tinha ouvido essa forma em termos de gasto de energia, mas se calhar isso de outra forma que vai dar ao mesmo, que é: quando eu passo por esse processo todo, gasto essa energia toda, chego ao fim, vou me encontrar com a pessoa, a coisa não fez clique, e depois tenho que recomeçar tudo.

Sim.

E tenho que recomeçar tudo não sei quantas vezes. Outra vez, alguém, não sei o quê, olá, de onde é que és, o que é que fazes.

Se calhar, por isso é que depois tem jovens que é só sexo, que é tipo: "Bora? Bora, está feito".

Certo. Ou seja, que é esse gasto de energia e depois é a repetição, que depois leva as pessoas a cansarem-se também. Não sei se também já tinhas percebido, mas algumas pessoas também já estão a fazer o desinstalar das aplicações de encontro. Exatamente porque já estão cansadas.

Não sei, eu nunca usei nenhuma. É verdade.

Não precisa. Se calhar eu uso porque tenho um contexto.

Eu acho que eu uma vez instalei o Tinder há muitos anos para perceber o que aquilo era.

Como é que é.

Mas depois também pensei: "Ei, mas eu não posso criar um perfil meu". Se eu queria um bio meu todo armado.

Pois é.

Mesmo que avise a minha mulher, mesmo que eu diga: "Olha, Catarina, eu tenho aqui o meu perfil, que eu tenho curiosidade de ver como é que isto é." Mas a malta que bate: "Ei, este é o..." Não, tá, não.

Eu vou dizer, eu também não tenho, mas também já disse: "Ó Paulo", que é o meu marido, "eu tenho que instalar, porque eu preciso saber como é que funciona. Senão depois as pessoas vêm ter comigo: 'Fala-me disto'. Eu tenho que saber como é que funciona."

Mas eu digo-te outra coisa que eu já pensei, que é, eu, por exemplo, o meu algoritmo do Instagram está completamente marado. Por quê?

Estás a ver coisas que não deves.

Não, porque eu ando a ver coisas que não devo, que é as coisas com que eu gozo. Se tu fores ver a minha página, tu vês aquelas gajas com as mamas à mostra e que parece que estão a trabalhar em qualquer coisa, mas é clickbait.

Sim, exatamente.

Essas idiotices. Então, o meu algoritmo só me aparece gajas boas, mamas grandes. E às vezes eu dou por mim a ver as gajas pelas gajas. Mas eu juro que eu no outro dia pensei assim: "Eu tenho que parar com isto, porque isto também me tira a vontade de estar com a minha mulher".

Percebo.

Eu estou a ver isto.

Estás sempre exposto a isto.

Sim, estou sempre exposto a isto. Para além de já estar me a tirar o interesse, porque é sempre a mesma coisa.

Certo.

Ao mesmo tempo, estou a desligar-me da minha mulher.

E voltamos àquela história. Poderás estar a suprir as tuas necessidades desta forma. Então, para que eu me vou envolver? Enfim, e é isto tudo que realmente também nos deve fazer pensar, tanto nos jovens como nos Um pouco jovens como nós. Que nos deve fazer pensar, de fato. Só que a grande diferença entre nós e os mais jovens é que nós ainda temos algum termo de comparação.

Ainda nos lembramos como é que era.

Ainda nos lembramos como é que era. Como a história dos telemóveis quando entramos, que estávamos ali os dois, estava aquele lote de telemóveis antigos e estivemos quase a fazer um exercício de como é que era na altura. Usávamos os telemóveis para dar um toque e o outro já sabia. Um call. Passávamos a tempo à espera da resposta àquela mensagem. Mas no fundo é isto tudo que também temos que analisar, porque os jovens não têm esse referencial. Têm outros, não vamos ser também hipócritas, achar que no nosso tempo é que era. Senão caímos nesta coisa de "no nosso tempo é que era".

Eu acho que cada tempo é o seu tempo.

Cada tempo é o seu tempo, que tem as suas coisas boas.

E as suas coisas más.

Obviamente, esta questão das redes sociais tem mil e uma coisas boas. Mas depois tem este reverso da medalha que está a trazer-nos algumas limitações na forma de interagir.

Como é que se desconstrui isto então? Se na malta mais velha, que tem essas duas realidades, e nós já falamos que tem muito a ver com falar abertamente um com o outro, de promover os preliminares, seja o passear, e falar abertamente, criar momentos, etc. Valorizar esses pequenos momentos. Nesta malta mais nova, como é que nós conseguimos desconstruir esta mentalidade?

Eu acho que no fundo, isto começa desde muito cedo. Nós não conseguimos chegar agora a um jovem de 24 anos, e explicar-lhe que se calhar tem que largar o telemóvel, porque toda a vida dele já foi com telemóvel. Não existe vida sem telemóvel. Se calhar as tuas filhas vão olhar pra ti e pensar: "Mas como é que tu te relacionavas sem telemóvel?" Isto não é possível para eles.

Por acaso as minhas, eu vejo-as relacionar-se muito com as amigas e saem muito.

E é por aí.

Vão passear muito, dormem na casa umas das outras.

Exato.

Almoçam, e não sei o quê.

Mas há quanto tempo é que andas a trabalhar nisso? Ou há quanto tempo é que as andas a incentivar a isso?

Por acaso acho que o fato de nós termos um grupo de amigos grande e que temos muitos jantares, eu acho que as miúdas de todos-

Foram expostas a isso. Isto não tem que ser uma coisa que nós-

Lá está, pelo exemplo, também.

Exatamente, é isso mesmo. Quando eu te pergunto há quanto tempo é que andas a trabalhar isso, não quer dizer que tu estejas conscientemente, intencionalmente a fazer, mas se calhar, desde que elas são pequeninas, que tu as introduziste em grupos de pessoas que se calhar tinham outros amigos que tinham filhos, elas foram se relacionando. O que eu quero dizer no fundo é: temos que começar desde cedo a promover este tipo de relacionamento. Seja com grupos amigos, seja nos desportos que eventualmente os miúdos possam frequentar. Isto tem que ser uma coisa que nós vamos trabalhando desde sempre. Mostrar que há outra forma de socializar, que não apenas através do mundo digital.

Mas como é que tu dizes a um puto: "Agora vais ficar sem telemóvel e vais ter que sair com os teus amigos."

Se calhar pode sair com os amigos. A ideia não é ficar sem telemóvel e sair com os amigos, é sair com os amigos, levar o seu telemóvel, mas conseguir estar e aproveitar esse estar com os amigos. E há miúdos que o conseguem fazer, António. E é isto que eu acho que todos nós temos que trabalhar mais, para que as relações pessoais ao vivo sejam mais interessantes do que aquilo que se está a passar no mundo digital. Isto começa a se construir desde muito cedo, quando pegas nas tuas filhas e as levas ao parque, quando pegas nas tuas filhas, agora as tuas já são mais crescidas, mas te sentas ali a jogar um Monopólio com elas.

Mas eu às vezes sinto necessidade disso, e ontem estávamos a falar disso.

Tu estás a promover essas coisas mesmo sem perceber.

Porque muitas vezes, por exemplo, ontem estávamos a falar que elas têm que estudar, às vezes. Têm aulas até às tantas, têm que estudar ao fim do dia, mas nós estávamos: "Temos que fazer um dia de jogos."

Sim, por exemplo.

E chegamos a fazer.

O dia que fazem o jantar juntos.

Isso, jantamos sempre juntos.

Não, eu estava mesmo a dizer fazer. Pô-las também para-

Às vezes são elas que fazem.

Sim, porque pensa, tudo isto é estar em relação.

Pois é.

Mais uma vez, não precisamos de grandes coisas. Mas como se ensina os miúdos a viver sem telemóvel? No fundo, é isto. António, se tu pensares, até determinada idade, os miúdos não preferem o telemóvel à relação com os pais. Estamos aqui a falar ainda dos mais pequenos, até ali à entrada na adolescência. Os miúdos vão sempre preferir o sair pra andar de bicicleta com o pai.

Ou jogar.

O que seja, eles vão sempre preferir isto, mas lembra-te de uma coisa. E aqui os adultos também têm uma grande responsabilidade nisto.

Nós também estamos cansados.

Claro.

E eu também às vezes: "Ok, vou preferir ir jogar Monopólio."

Atenção, sem julgamento, António. Isto é mesmo sem julgamento, só estamos a constatar factos.

Mas é isso que me acontece. Às vezes eu penso: "O que eu prefiro, ir jogar Monopólio e depois estar a ouvi-las a refilar porque eu estou lhes a cobrar dinheiro do bairro, ou ir ver uma série que me apeteça?" Claro que eu vou preferir ir ver a série.

Eu até dou por mim a pensar: "Podias dormir, que era pra eu trabalhar."

Exato.

Já nem estou a dizer pra descansar, é: "Podias agora dormir uma sesta, porque eu tenho aqui uma data de e-mails pra responder."

Sim, mas isso faz parte. Acho que é preciso ter consciência disso.

E tentarmos equilibrar esta balança, porque até determinada altura, os filhos vão sempre preferir estar em relação. O ser humano ainda é um ser social. Há muitos que achamos que já não, mas o ser humano ainda é um ser social. Ele não traz isto

Eu dá uma ideia, não sei se é uma ideia da minha cabeça ou se isto é real, que muitos pais também, quando têm filhos que estão com estas dificuldades de gestão emocional e de relacionamento com os outros, também encaminham para o psicólogo no sentido de: "Resolva".

Sim, António. Tocaste agora num ponto chave.

Porque eles próprios também não falam sobre as emoções.

Sim. E muitas vezes nós queremos puxar os pais para estes processos e não conseguimos.

Eles também não falavam.

Exatamente. Nós sabíamos que isto tinha que ser trabalhado em família. Portanto: "Ok, estás a trabalhar com o miúdo, mas traz lá também essa mãe, vamos também trabalhar com a mãe, com o pai e fazer isto em família". E isto é muito difícil. E muitas vezes o que nós sentimos dificuldade de trabalhar com miúdos na área infantil é exatamente essa. É muitas vezes o trazermos os pais e dizermos: "Faz desta forma", porque os pais vão entender como crítica ou "quem é esta agora para me estar a dizer o que é que eu tenho que fazer com meu filho?" Porque às vezes é: "Levo ao psicólogo, mas eu não quero ouvir o que o psicólogo tem para me dizer. Eu levo ao psicólogo, faz, trata lá do meu filho, mas não me venhas agora chatear a mim". E eu percebo, às vezes é o psicólogo mais um a dizer o que as pessoas têm que fazer. Já pensaste também que estamos na era do "tens que". Redes sociais, o que nos dizem? Que tens que.

Tu tens os especialistas todos.

Exatamente.

Especialistas de tudo e mais alguma coisa.

Estresse.

"Não comas isto, não faças aquilo, tens que fazer não sei o quê".

Já viste a quantidade de "tens que". Para seres a pessoa, não digo perfeita, mas tens que seguir as recomendações daquela nutricionista, daquela psicóloga chata, daquela terapeuta de casal também. Tens que uma data de coisas. Então páginas de parentalidade, de pediatras. Pensa como tu estás sempre a sentir incompetente também. De tanta coisa que te dizem que tens que, ou tu consegues filtrar isto, ou então vais estar sempre numa sensação de "não estou a fazer o suficiente". E depois tens que fazer exercício também, não te esqueças. A sensação que temos é: estamos a ser bombardeados de "tens que". Isto para dizer, no fundo, o psicólogo é mais um que vem e diz: "Tens que". Pode não ser com estas palavras, como é óbvio, mas é: "Lá vem agora também a psicóloga dizer o que eu tenho que fazer com meu filho, que chato. Eu já tenho que o levar à natação, eu já tenho que ir às reuniões na escola, eu já tenho que tratar da alimentação dele. Agora vem a psicóloga chata, eu tenho que estar com meu filho." Não há quem aguente.

Mas a mim faz-me confusão, porque não é a minha realidade, como é óbvio. Os pais que não falam sobre as emoções.

Sim, mas pensa outra coisa, António.

Mas eu percebo, tem a ver com o enquadramento de cada um.

Sim, e muitos deles, isto é, tomaram ter com quem falar de emoções ou sequer ter sido treinados para as emoções.

Eu não fui treinado, eu treinei-me.

Exato. Mas também requer esforço, interesse.

Sim, porque eu também venho de uma família disfuncional. Aliás, é muito curioso, porque estávamos a falar da questão de os filhos replicarem aquilo que veem em casa. Não acontece muito.

Se fizeres o inverso.

Não, eu odeio. Odiava, porque isto não acontece muito. Acontecia mais quando elas eram mais pequeninas. Por exemplo, quando a Catarina gritava com as miúdas. Eu também grito, calma, não estou a culpá-la de nada.

Calma, todos os pais gritam.

Eu também gritava, hoje grito muito menos, mas às vezes ainda acontece um berro ou outro. Mas quando a Catarina gritava com as miúdas, vinha-me uma coisa de: "Eu não quero ouvir isto".

Sim.

E eu às tantas comecei a pensar: "Mas por que ela não está a fazer nada de outro mundo. Não está a ser má mãe". E eu faço isto. E eu: "Por que eu não gosto disto? Por que me faz confusão?" Depois, de repente, caiu uma ficha. Era o que eu ouvia em casa.

Pois é.

Eu ouvia os gritos em casa da minha avó ou da minha irmã.

A Catarina podia fazer 1% daquilo que tu ouvias, mas esse 1% é o trigger, é o gatilho.

Ouvir uma mulher a gritar, porque eu tenho muitas mulheres na minha educação. Ouvir uma mulher a gritar, a mim causava irritação. Eu não quero ouvir isto. E é muito curioso, mas isto obriga também, é isso que tu estás a dizer.

Fazer esse processo.

Fazer esse processo e pensar nas coisas e perceber que é normal sentirmos as coisas e isso tudo.

E querermos sentir essas coisas.

Eu acho que não é bem querer sentir, é permitir-se a sentir.

Permitir-se sentir.

Eu preferia não sentir.

Sim.

Mas faz parte da minha história, como é óbvio.

Às vezes a dificuldade, por exemplo, imagina, quando pensas a dificuldade em ir ao psicólogo, muitas vezes não tem a ver com o psicólogo.

Não, tem a ver que a gente está a dizer coisas.

Com certeza. E hoje em dia até já nem tem tanto a ver com aquele estigma do psicólogo é para malucos. Felizmente, essa ideia já se vai dissipando. Mas pensa que eu sei que no momento em que eu for ao psicólogo e me sentar naquela cadeira, eu vou ter que falar sobre isto. E depois há aquela coisa, e isto era uma coragem brutal.

E ele vai-me estar a julgar.

Também pode acontecer isso, mas o problema é: depois de eu dizer isto, não há volta a dar. E não há volta a dar para mim, António. Eu até posso saber que tive uma relação disfuncional com meu pai. Mas enquanto eu não me sentar na cadeira do psicólogo e verbalizar isto e dizer isto em voz alta, isto não se torna real. Eu nem sequer penso muito sobre isso. Eu sei que está aqui, no meu inconsciente, isso eu sei que está lá. Mas a partir do momento em que eu me sento, verbalizo, aquilo torna-se consciente, foi dito e não há forma de fugirmos a isso e a partir daí eu vou ter que lidar. E imagina a coragem que é preciso nós termos para fazer este exercício. Portanto, muitas vezes, nem é o problema do psicólogo que está do outro lado ou se me vai julgar, é: "Bolas, eu agora vou dizer isto em voz alta e a partir desse momento eu vou ter que lidar com isto". Eu. Portanto, eu sentei-me, disse e agora vou ter que lidar com isto.

E tu teres também os miúdos ou casais a dizerem essas coisas, ou seja, "eu não me sei relacionar com outras pessoas Ou "eu não aguento a frustração". Isso é sempre um ato de coragem.

Sabes uma coisa que um miúdo me disse? Isto já foi há muitos anos, quando eu comecei a trabalhar. Eu trabalhei muito também na área da infância, depois fui afunilando para os casais e para a sexualidade, mas já trabalhei muito na área infantil também. Houve uma vez um miúdo que me disse uma coisa tão simples e eu nunca mais me esqueci. Uma vez estávamos em consulta e eu acho que eu lhe disse: "O que é que gostavas que o teu pai fizesse contigo?" Porque ele tinha algumas coisas, que o pai não estava, que o pai era mais ausente, e era um miúdo pequeno. Ele disse uma coisa que é: "Eu só queria que o meu pai viesse andar de bicicleta comigo". Na altura, ele desarmou-me de tal forma. Eu achei que ele ia pedir uma coisa qualquer extraordinária. Ele disse: "Eu só queria que ele viesse andar de bicicleta comigo". E eu pensei: "Onde é que está o pai deste miúdo? Por favor, tragam-no cá, porque este pai tem que andar de bicicleta com este miúdo. O miúdo só está a pedir isto". E os miúdos hoje em dia não são diferentes.

É isso, é conexão.

Sim.

E muitas vezes-

É o estar

...essa conexão, ou seja, há a necessidade dessa conexão, mas essa conexão é mascarada através do digital, de relações disfuncionais.

Sim. E muitas vezes pouco presentes. Às vezes até estamos, mas não estamos genuinamente, verdadeiramente. Às vezes até estamos, mas estamos com o telemóvel ao lado e estamos a fazer outra coisa.

Sim. E há uma coisa que eu estava aqui a pensar, e também eu acho que isto será fruto deste mundo demasiado digital e presente, onde todos temos que ser visíveis.

Estamos tão presentes e estamos tão ausentes.

Exato, é isso.

É tudo uma série de contrassensos.

Essa conexão, tu queres te conectar com os outros e achas que essa conexão é feita, não é só a questão dos likes, mas de posse, de mostrar: "Tenho um grande carro, tenho um grande negócio, eu consegui não sei o quê".

E depois é esta ideia que tu vais construindo, que tu és mais gostado ou mais amado quanto mais tens e quanto mais mostras. E depois não é verdade. Eu costumo dizer que um dos sítios onde mais somos amados é na vulnerabilidade.

Claro. Acho que sim.

Porque é quando estamos vulneráveis que nós estamos a ser genuínos, que nós estamos ali verdadeiramente, que nós estamos a sentir coisas. E vamos lá ver uma coisa, António, nós ligamo-nos ao outro pelas emoções, não é por aquilo que ele tem. Nós conseguimo-nos conectar quando o outro é genuíno, quando é autêntico. E todos nós temos isto no nosso dia a dia, aquela pessoa que nós percebemos que é muito artificial ou que é superficial e que temos mais dificuldade em nos conectarmos. Depois aquela que, se calhar, tem mais pessoas a não gostar dela, mas ok, é genuína, é autêntica e eu consigo me conectar com isso. Uma das piores coisas para a conexão é as pessoas "nim". São as "nim". Ok, ninguém vai gostar de ti, mas também ninguém vai gostar assim tanto. São as pessoas "nim". Às vezes mais vale, de facto, sermos genuínos, sermos mais espontâneos. Sim, vais ter muitas pessoas que não vão gostar de ti, mas vais ter outras tantas que vão gostar. E aquelas que gostarem, tu vais te conseguir conectar de uma forma um bocadinho mais genuína e mais profunda.

Mais real.

Mais real. E é isso que nos interessa.

E é isso que também, apesar de nós termos começado no sexo.

Eu não sei onde é que nós já vamos, António.

Mas isto acaba todos por se relacionar.

Sim, no fundo, sim.

Porque isto vai bater naquilo que tu estavas a dizer. A conexão com as pessoas, a partilha das emoções, o ser sincero, seja um casal novo ou velho, seja o que for, isso tudo vai facilitar o outro processo da intimidade.

No fundo, se nós pudéssemos resumir isto, é exatamente por aí, António. É aprendermos a relacionar de uma forma direta, ao vivo, no real, desde muito pequeninos, porque depois não é com 20 anos que nós vamos mudar este jovem. E vamos aos 20 anos ensinar-lhe a relacionar-se com pessoas. Não, nós precisamos de começar quando tem dois ou três anos, ou menos. E isto é um processo que é contínuo. E é isso que nós temos que promover. Voltando àquela história, precisam de educação sexual? Se calhar precisam. Educação sexual eles têm muita. Eles têm muita informação sobre sexo.

É a educação emocional.

Não sabem é como fazer sexo. Eles sabem muito sobre sexo, não sabem é como fazer sexo.

Ou se sabem, até na parte física.

Sim, mas até mesmo na parte física, António, também é uma coisa muito curiosa, que é a ansiedade de desempenho também que existe.

Fazer bem.

Fazer bem. Fazer bem para mostrar.

Ou ir aos checkpoints.

Mas eu acho que isso acontece imenso.

"Já fiz isto, já fiz isto, já fiz isto".

Nós temos, inclusivamente, pessoas que têm um script, e que não tem a ver, atenção, com obsessões, nem com nada disso. Também pode ter.

É assim, os scripts podem vir da pornografia.

Sim.

Porque é sempre a mesma coisa na pornografia.

E há quase aquele script que eu tenho que cumprir, que é: "Agora tenho que fazer isso, tenho que tocar aqui, tenho que tocar ali, tenho que fazer assim", para ter a performance que eu acho que é a certa. Qual é o problema disto? Nós estamos em todo lado.

É mecânico.

É mecânico e não estamos ali.

Estás em todo lado e não estás em lado nenhum.

Não estás ali, exatamente. Porque estás a fazer um script mental, uma checklist mental. "Já fiz isto, já fiz isto, já sei que para ter sexo tenho que fazer assim, assim, assim, para ter ou dar prazer, tenho que fazer assim, assim." E estamos a fazer tudo, menos a estar ali genuinamente, verdadeiramente, com a pessoa, a ter prazer, mesmo que seja casual. Eu nem preciso de me conectar no sentido de depois ter uma relação com aquela pessoa, mas preciso me conectar naquele momento em que estou ali a usufruir desse prazer físico. Muitas vezes não estamos. Estamos cognitivamente a pensar no que é que temos que fazer.

A vantagem, às vezes, de ser casado há muito tempo, é que nós descobrimos, e ainda há tempo para descobrir sempre coisas novas, mas também sabemos o que um e o outro gosta e ficamos naquilo que gostamos mais tempo, se nos apetecer.

Certo. E ainda tens outra coisa, que eu acho que também é uma vantagem. E também se falhares, também não há problema.

Não, sim.

Não é que tu falhes. Estou a brincar.

Não, mas já aconteceram cenas tipo rirmos.

Imagino. Porque disseste 26 anos. Antônio, 26 anos dá para tudo acontecer.

Menos para cenas a três.

Pronto, exato. Isso é outra história.

Não.

Mas nem que fosse.

Sim, mas não me fascina, por acaso.

Não é a tua cena. Mas dá para tudo, no fundo, dá para uma distração.

Não é minha cena, calma. É porque queremos é cenas diferentes, eventualmente. Porque é sempre a tal história. Um homem que não quer com duas mulheres.

Pois é. Essa é daquelas fantasias topo. Exato.

Não, mas acho que não. Acho que ia ficar uma cena muito estranha.

Atenção.

Mas lá está, a gente fala sobre isto.

Mas já viste que muitas vezes não é preciso fazer, basta falar sobre isto. "Como é que seria se não sei o quê". Tu já teu vontade.

Sim, dá vontade só com os dois, não é preciso estar a ir bater à porta da vizinha.

Mas o que tu fizeste? Usaste a fantasia para ativar o desejo.

Imagina, eu e a Noti estávamos a ver uma série e há uma cena de sexo no carro e eu estava a ver aquilo, e é um thriller.

E tu a pensar: "Onde é que está o nosso carro estacionado?"

E eu assim: "Isto está a me dar pica, a cena está a me dar pica. Ok, estou a fantasiar um bocadinho com a gaja, mas não tenho esta, vai a minha mulher".

Certo. Mas o poder das fantasias é esse.

Não, mas a fantasia acaba por ser isso. Tu fantasias com as pessoas, fantasias com as situações.

Atenção, há uma coisa que é: nem todas as fantasias são para concretizar. Essa pode ser uma delas. Eu até posso ter a fantasia das duas mulheres e até a uso para aumentar o desejo, até falo sobre ela, mas queres realizá-la? "Eu tenho aqui, queres fazer?" "Se calhar não". Depois isso é que é capaz de ser estranho e depois no dia a seguir. Ou seja, há muitas fantasias que têm essa função, usamos para isso, mas depois, no fundo, não as queremos realizar por N razões. Mas não há mal nenhum nisso. A fantasia já cumpriu o papel dela.

Sim. E lá está, a gente viu aquilo e ficou: "Olha, fixe".

E usaste aquilo em teu proveito, em teu benefício. Exatamente.

Porque eu acho que isso também é uma questão que acaba por ser interessante e tem a ver com falar também, e voltando aqui aos casais mais velhos, que é o achar que fantasiar com outras pessoas é crime.

Sim, também há muito essa ideia.

E não é.

Ou que é traição.

Ou que é traição.

E não é, porque faz parte do imaginário do ser humano.

E usares isso, imagina, tu estás a ver uma cena de sexo-

Ia falar disso, como tu fizeste, até falaste sobre isso

Eu não me importo que a minha mulher, por exemplo, imagina que a minha mulher vê uma cena de sexo de um cara com uma mulher e ela gosta daquele cara. E de repente ela tem vontade de fazer sexo, mesmo que tenha fantasiado com aquele cara, eu acho que é perfeitamente normal.

Sim, exatamente. E isso é muito comum, as pessoas é que verbalizam pouco isso. Mas isso é muito comum. E é importante perceber que toda a gente tem fantasias, nós não somos cegos, nós olhamos para o lado. Há muita gente interessante por aí. A questão depois é o que nós fazemos com isso. Pronto, é só isso. Agora, podemos ver, podemos fantasiar.

Imaginar?

Imaginar.

Isso eu não sou capaz, mas eu sei que há malta que consegue, durante o sexo, imaginar outras pessoas.

Há malta que consegue fazer isso.

Não consigo.

Agora, tudo tem a ver também conforme este casal comunica sobre isto.

Depois aparece-me a minha sogra.

Ok, então está quietinho. Não penses, não imagines.

Ela vai ver isso e vai dizer: "Caralho!"

Não imagines.

Não sou capaz, é curioso, mas sei que há pessoas que fazem.

Há pessoas que fazem.

E é natural, é normal.

É mais uma vez usares a fantasia em teu proveito. Depende de como é que isto é comunicado. Depois há aquela coisa de partilhas ou não partilhas as fantasias. Isto também não é consensual. Ou seja, se fizer sentido para o casal, se isto tiver um impacto positivo para o casal, partilhem, podem depois só falar sobre elas ou fazê-las. Embora já tínhamos visto que há fantasias que nós não queremos realizar. Até porque imagina, a partir do momento em que a realizares, ela vai perder esse... Lembra aquela história do desconhecido, que nós estamos a falar. É como a história dos telemóveis. Imagina, eu quero um telemóvel novo, este último telemóvel, último grito que saiu. Ok, quanto tempo dura o entusiasmo do novo telemóvel?

Exato.

Ok, já tens a tua fantasia suprida. Pronto, já compraste teu telemóvel, e agora?

Sim, realmente, enquanto tu fantasias em ter, demora mais tempo.

A grande questão das fantasias também é essa.

Pois é.

Ela está ali, enquanto não a realizares, não estou a dizer para não realizares as fantasias. Mas pensa nesta coisa também como função de apimentar, de impulsionar o desejo e não tanto como uma coisa que eventualmente queiras fazer, porque a partir do momento em que fizeste, ok, então já se dissipou. Muitas vezes, já está, eu já tenho o telemóvel. "Está bem, ok, era só isto". Pronto, já passou o entusiasmo com o telemóvel, já o tenho há uma semana. Ou melhor, já o tenho há um dia, hoje é mais assim.

Pois é.

Hoje é mais assim. Já o tenho há um dia.

Lá está, acaba por sempre bater no mesmo ponto.

Eu só desejo o que não tenho, lembra-te sempre disto. Eu desejo o que não tenho. A partir do momento que eu tenho, eu deixo de desejar, porque eu já o tenho.

Sim.

E uma das grandes questões no sexo também é esta. E das outras pessoas e das infidelidades, de não sei o quê, tudo isto que nós estamos aqui a falar. Eu desejo porque ainda não tenho ou enquanto eu não tenho.

É sim, mas do desejar à concretização vai muita coisa.

Pois vai, e muitas vezes nós desejamos e não queremos concretizar. Era o que nós estávamos a dizer.

Ou então também pode acontecer outra coisa, que é: para além de não querer concretizar, estava aqui a pensar como é que eu ia dizer isto, há a questão de o que tu podes perder com isso.

Exatamente. Mas aí já entra outra esfera, que é a parte racional, a parte da cognição. E entra também a parte emocional, imagina: "Ok, eu tenho como fantasia envolver-me com aquela vizinha ali do lado".

Até tu entendes que isso é uma fantasia.

Até ia ser fixe se acontecesse.

Imagina que ela era correspondida alguma razão, mas tu percebes: "Ok, mas é uma fantasia, o que eu vou ganhar?" É a cena da novidade. Depois disto, o que eu vou perder?

Exatamente. Atenção, Antônio, este é dos exercícios mais difíceis, e daí esta dificuldade das pessoas de fazerem.

Eu estou sempre a fazer este exercício. Sempre. Sempre, a toda a hora.

Então vamos a isto. Senão isto ia dizer uma coisa.

Não, por acaso não.

Mas no fundo, este é o nosso desafio. Quando temos relações longas, esse é o desafio que nós estamos sempre a fazer. Se eu quero preservar isto, porque sim, porque gosto, porque amo, porque é fixe, porque tenho filhos, porque tenho 26 anos de relação.

Lá está, é normal desejar as outras pessoas.

No fundo sabes conscientemente que vais ter que abdicar de outras coisas em prol de.

Faz sentido.

Ou então não abdicas e depois temos muitas vezes infidelidades. Hoje em dia, ok, já se tenta esta coisa do abrir a relação, por exemplo. Mas isso já é outro tema. Mas isto para dizer que nós estamos sempre a fazer este exercício. Por um lado, ok, aquilo até seria fixe, eram 10 minutos espetaculares, maravilhosos, mas são 10 minutos.

Eu tenho uma grande vantagem a meu favor, que é quando eu penso nisso, eu penso: "Isso dá bué trabalho".

Dá.

Antes queira ir dormir.

Também. E agora ainda por cima tenho que abordar a pessoa, depois tenho que ir às escondidas.

Isto ter que ir às escondidas.

Mas atenção, o ir às escondidas, o risco, a transgressão. O desejo também está muito associado à transgressão. Nós ainda não tínhamos colocado aqui este ingrediente, mas a transgressão também está aqui muito em cima da mesa.

Total.

Quando estás a ser infiel, estás a transgredir. E é essa transgressão, o escondido, o segredo.

Dá muito trabalho.

Que muitas vezes também apimenta e faz com que vás à procura. E muitas vezes nós quando traímos, por exemplo, não vamos à procura do que não temos em casa. Às vezes ouvimos isto: "Foi à procura do que não tem em casa." Não é isto. Muitas vezes a traição nem tem a ver com a outra pessoa com quem vamos estar, tem a ver com aquilo que nós sentimos.

E que nos falta.

A nós, mas não à pessoa que está. Falta-nos é sentir o quê? Essa novidade, essa adrenalina outra vez.

Exato, e não saber gerir.

Exatamente.

Não perceber que se pode conseguir isso de outras maneiras.

Muitas vezes vamos é à procura de sentir outra vez as borboletas na barriga. Isto não tem a ver com o outro, tem a ver conosco. Eu quero é sentir outra vez aquelas borboletas.

Isso é um ótimo tema para a próxima vez.

Pronto, as borboletas. Está certo. A transgressão.

A transgressão.

A transgressão. Anota aí.

Sim, vou anotar. Catarina, muito obrigado por teres vindo mais uma vez.

Obrigada, António. É sempre um gosto.

Eu acho que o próximo tema pode ser exatamente esse, a infidelidade e a transgressão. O que é isto na realidade?

Olha, belo tema.

Então vamos já gravar a seguir o outro. Muito obrigado, Catarina.

Obrigada, António.

Quanto a vocês, muito obrigado por estarem também desse lado. Espero que tenham gostado desta bela conversa que tivemos aqui com a Catarina sobre o que é isto do sexo e do desejo e de entender a importância de falarmos sobre as emoções. Acompanhem no YouTube, venham aos comentários, já sabem que eu venho aqui também aos comentários falar convosco. Spotify, iTunes, todas as plataformas áudio, no Observador. E até para a semana. Um abraço. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros, mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos.