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Então à nossa. Muito obrigada por teres vindo. Francisco, por que trouxeste este tinto Quinta do Monte d'Oiro Reserva 2021?

Ana Sofia, é sempre uma escolha difícil. Nós andamos nisso há 30 e tal anos, já temos um portfólio, para um produtor pequeno, bastante alargado e, portanto, a escolha é sempre difícil, é escolher um filho entre muitos. Mas eu acho que o Quinta do Monte d'Oiro Reserva Tinto é o nosso porta-estandarte. É o primeiro vinho que fizemos quando começámos em 97. É sempre o grande referencial da casa, o vinho mais emblemático, o lote mais representativo do terroir, porque apesar de ser um monocasta, no sentido que é feito exclusivamente com a casta Syrah, é um lote de várias parcelas e é, de facto, o vinho que mais nos representa e que ao longo dos anos vem transportando a história da Quinta do Monte d'Oiro.

Bem-vindos ao Tinto no Branco, um podcast observador. Todas as semanas brindamos com um convidado diferente, sempre uma história de vida, uma vida com história. E ainda algumas dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. O mundo do vinho português, Tinto no Branco. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e comigo está Francisco Bento dos Santos. Aos 45 anos é diretor-geral da Quinta do Monte de Oiro, produtor ou capitão de equipa, como prefere ser chamado. Nascido e criado em Lisboa, herdou do pai, o conhecido gastrónomo José Bento dos Santos, o gosto pelo vinho e pelo rugby. Francisco, a cozinha ou a adega?

A adega, eu acho que a adega. Eu gosto muito de comer, já vivi muito tempo, sobretudo em miúdo e mesmo hoje em dia, dentro de uma cozinha e a ajudar, e gosto desse ambiente, mas eu não tenho nada a veia de cozinheiro. Se estiver sozinho em casa, é o que houver no frigorífico, no microondas e não me aventuro a cozinhar praticamente nada. Portanto, apesar de não ser enólogo, na adega sempre arregaço as mangas e sujo um bocadinho as mãos.

Como é que o vinho entra na tua vida?

Sempre entrou, desde pequenino que me habituei. Primeiro só cheirar, depois já podia começar a provar, mas o vinho era um elemento central na refeição. E apesar de o meu pai ser um grande apaixonado pela cozinha, e ele próprio cozinhar, de forma regular e enfim, todos os almoços e jantares eram preparados prato a prato. Durante não sei quantos dias, eu não ia à praia como os outros. Alguns dias para preparar um determinado jantar e ajudar em casa.

Não iam à praia para preparar uma refeição?

O meu pai não faz praia, mas eu, se houvesse um jantar, nos dois dias anteriores, também não dava direito a ir à praia. Eu também não sou grande fã de praia, não é que me importasse, mas estava toda a família e todas as pessoas lá em casa a preparar essa refeição. E o vinho sempre foi muito central. Hoje em dia é tudo muito imediato e online, na altura não era. Eu ia buscar o calhamaço do Parker para estudar uma determinada nota de prova daquele vinho em concreto, para decidir, estar na dúvida se abriríamos um ou outro. Hoje em dia, se calhar, o Parker ou o guia, que são muitos provadores, está um bocadinho banalizado, mas na altura era de facto, e então em vinhos estrangeiros, que nós não podíamos provar todos os dias, era uma ajuda importante.

Era uma bíblia.

Era uma bíblia. E eu lia, e depois lia as notas de prova, depois tentava perceber porque é que o vinho cheirava a isto ou cheirava àquilo, porque é difícil para uma criança identificar os descritores aromáticos. A produção aparece muito mais tarde, embora o meu pai, como apreciador e como colecionador, gostasse de visitar algumas propriedades e algumas produções. Não posso dizer que era uma coisa regular e, portanto, cai quase assim no colo com o projeto vitivinícola da Quinta do Monte d'Oiro.

Que é algo que acontece já um bocadinho mais tarde.

Acontece muito mais tarde.

Mas achei muita graça o facto de leres notas de provas, o Parker, em miúdo. Ninguém faz isso.

Eu não lia como livro de cabeceira, mas no fundo um vinho que viesse para a mesa, íamos estudar. Era lido, era lido em voz alta, as notas. E as notas do Parker eram, na altura, hoje em dia talvez também sejam, mas muito descritivas e comparava várias colheitas. Não era só a pontuação. A pontuação, que é aquilo que é mais instagramável, não é? E que é mais rápido. "Olha, o vinho teve não sei quantos pontos" e que nós nos habituamos a dar pontos à conta do Parker, a dar pontos a vinhos, quando não damos pontos a quadros, não damos pontos a canções. E no entanto temos que dizer que este vinho vale 95, então é melhor que o outro que vale 94. Isto é um crime, dizer uma coisa destas.

O teu pai uma vez disse-me: "O vinho não se fez para ser provado. Quando vemos um quadro, não interessa nada dissecar que amarelo é aquele. O importante é a emoção que transmite. Com o vinho é igual." Estou a ver que também fazes fé neste lema.

É exatamente a mesma coisa. De facto, o vinho e quando bebemos um vinho à refeição, tiramos o prazer dele e elevamos a refeição como um todo. Não é para discutir se tem mais um ponto ou menos um ponto. É evidente que o trabalho da crítica é fundamental e orienta os consumidores e, portanto, as pontuações fazem parte do mundo em que vivemos. Mas depois o consumidor reduzir o vinho à pontuação é não entender o mistério e aquilo que é magnífico no mundo do vinho. Se me permites, há uma frase muito conhecida do Michael Broadbent, que foi diretor da Christie's durante muitos anos, que dizia: "A grande diferença entre os amadores e os profissionais é que os amadores bebem o vinho para lhe encontrar as qualidades e os profissionais bebem o vinho para lhe encontrar os defeitos." Nós, como produtores Estamos a falar da crítica, mas nós como produtores, quando estamos uma manhã inteira a provar 60 vinhos para decidir lotes e para tomar decisões de produção, estamos a ser profissionais. Vou fazer o gesto das aspas, estamos a encontrar-lhes os defeitos, porque é importante nessa fase discutir os pormenores até elaborar. O consumidor, graças a Deus, não tem que estar a encontrar os defeitos, nem a fazer este trabalho profissional que não tem graça nenhuma. Estar horas a provar, a tomar notas e a discutir não tem graça nenhuma. A graça é depois beber o vinho ao almoço ou ao jantar. Ora, o que os consumidores a querer dar notas, a querer provar um copo e siga para o próximo, quantos mais provar melhor, o que estão a ser? Estão a querer ser profissionais, quando o que é giro é exatamente ser amador. E é esse lado de descobrir o prazer do vinho sem ter que o fazer ou sem ter que o classificar, que tem toda a magia.

Cresceste numa casa com uma biblioteca com alguns 12 mil livros de gastronomia. O teu pai, em tempos, chegou a dizer-me que tinha lido todos ou quase. Era homem de ler histórias aos filhos ou apenas de se perder nas suas leituras?

Eu lembro-me que eu ainda não sabia ler, ou então talvez não soubesse ler com rapidez, e ele contava-me deitados na cama, lia-me o "Blake and Mortimer", lia-me "O Mistério da Grande Pirâmide", "A Câmara de Hórus", "A Marca Amarela". Apesar de serem banda desenhada, se aquilo fosse lido a um ritmo de uma criança, perde-se a história. Portanto, ele lia-me, de facto, muitas histórias. O meu avô, pai dele, também me contava inúmeras histórias, mas depois tinha os seus momentos, um sábado ou um domingo à tarde em que ele acabava de almoçar e sentava-se e ficava a ouvir ou a ver na televisão, que havia na RTP2, ou então a ouvir um disco de música clássica, de ópera, a fumar um charuto e que ficava uma nuvem na sala que não se conseguia entrar. Eu convivi com isso, eu entrava, estava um bocadinho, se calhar não estava as duas horas e meia da ópera ali sentado, não deixava de ser criança e de querer também brincar, mas esta realidade quando é regular e permanente, vai entrando e a pessoa vai descobrindo esse gosto.

É verdade que a tua especialidade é mesmo fazer ceralac?

É verdade. Eu acho que tenho um talento secreto e na altura não se dizia, mas eu acho que se hoje em dia abrisse uma ceralacaria, seria um sucesso. Acho que fica um sonho para algum investidor louco que um dia queira fazer isso comigo, mas eu passese por muitas fases de comer ceralac com grumos, sem grumos, com pó, sem pó, grossa, fina, e depois com os meus filhos desenvolvi esse talento de fazer para os outros. Ou seja, de um gostar de uma maneira, o outro gostar de outra, e "Pai, eu hoje quero desta maneira, hoje quero de outra". Então o meu talento secreto é fazer ceralac. Eu até há muito pouco tempo comia uma ceralac todos os dias antes de me deitar e por isso mantive a prática. Acho que ainda tenho mão para abrir esse restaurante.

Saber muita coisa sobre a alquimia da cozinha e a natureza dos produtos deve tornar-te muito exigente. Quando vais a um restaurante, és o terror dos chefs?

Não. Até porque em termos de cozinha, não tenho esse conhecimento e essa prática de execução, a não ser de ter passado por muita coisa e sobretudo ter provado em miúdo, hoje é mais normal, mas uma criança com seis, sete, oito anos ter provado à época, nos anos 80, escargot, pernas de rã, trufa, caviar, foie gras, eram ingredientes que não havia aqui. Não digo isto no sentido elitista do termo, mas no sentido de poder, de facto, ter acesso a um mundo que não era normal, como hoje em dia muitos destes ingredientes se banalizaram. Nós na quinta organizamos eventos e portanto também produzimos e servimos refeições. Eu não consigo estar sentado num restaurante sem estar a olhar para a cozinha, sem estar a olhar para o serviço, não no sentido crítico, mas de imaginar a operação do lado de lá. Mas isso já tem a ver com o meu feitio e um gosto analítico. Eu, por exemplo, gosto muito de espetáculo, de luz, câmara, ação. Eu não consigo estar num concerto ou num teatro que não esteja a olhar para as luzes, para as pessoas a correr lá atrás do palco. Esqueço-me da música ou esqueço-me da peça e estou a reparar na produção, porque gosto. Não acho que seja por outra razão.

É nos anos 90 que compram a Quinta do Monte d'Oiro. Acompanhaste este processo?

Veio um pouquinho mais cedo, em 87, portanto eu tinha oito anos. Não acompanhei o processo da compra, mas acompanhei o processo de começar a usufruir enquanto lazer e casa de férias, no fundo, desde o princípio. Na altura não tínhamos nada a ver com produção de vinho, ou melhor, havia vinha na quinta, mas não era o projeto que é hoje. E de facto, há ali um hiato de 87 a 97, em que depois o meu pai planta a primeira vinha e começa a pensar nisso, em que isso me passa praticamente tudo ao lado. Mas a vindima de 97, que é o primeiro vinho, é este reserva que estamos a provar agora, não 2021, mas 97, nessa vindima eu tinha 17 anos. Já participei, porque até à primeira vindima e numa vinha muito pequena, há pouca coisa para a pessoa se envolver. E sobretudo à noite e ao fim de semana. Numa vindima que se trabalha até às tantas da noite, fins de semana, e por aí fora. Nós estávamos na quinta, eu estava com meu pai na quinta, viemos para Lisboa, nós sempre moramos em Lisboa. Eu lembro-me que provei, era uma couve de 7000 ou 7500 litros, talvez, e eu provei o mosto acabado de espremer e eu apesar de ter 17 anos e já beber álcool, disse: "Ó pai, eu bebo isto tudo, mas não vamos fermentar". Eu nunca tinha provado um sumo de uva tão bom. Eu já provava vinho, mas não era uma bebida que me desse um enorme prazer beber, como miúdo de 17 anos, mas eu dizia: "Isto, tal e qual está, engarrafado tal e qual, eu bebo isto tudo". E dali fomos à reitoria ver as pautas para ver se tinha entrado no curso que tinha escolhido. Isto começa na primeira vindima, desde a primeira vez que há ação a sério, eu estou completamente envolvido.

Entraste no curso que tinhas escolhido?

Entrei, felizmente ou infelizmente. Entrei no técnico para seis anos de terror, mas sobrevivi. Eu acho que isso fez de mim uma pessoa mais forte e mais resiliente.

Em Engenharia?

Engenharia Biológica, que parece um nome muito moderno, mas no fundo é o curso dos meus pais. Meus pais são os dois engenheiros químicos. Engenharia Química é um dos cinco cursos base da engenharia, portanto eletrotécnica, minas, civil, mecânica e química. Acontece que dentro da engenharia química, o ramo biotecnologia, a certa altura, tornou-se independente. Um ano antes eu teria sido um belíssimo engenheiro químico, com uma especialização que ninguém perguntaria. No ano em que eu entrei, o ramo tornou-se independente. Eu tenho um nome mais moderno, que é ser engenheiro biológico.

Entraste no curso, fizeste a primeira vindima, ou seja, correu tudo muito bem nesse ano. E o vosso primeiro vinho ganha logo prêmios e reconhecimento. A fasquia ficou muito alta.

A fasquia ficou muito alta e é a razão de estar hoje aqui neste estúdio do Observador a gravarmos este podcast, porque quando se começa, foi quase uma brincadeira, eram dois hectares e meio, era uma coisa pequena. E tentou-se fazer tudo e meu pai aconselhou-se e tentou fazer tudo o mais bem feito possível, mas não deixava de ser um hobby. E portanto, quando se faz uma brincadeira, está-se à espera de experimentar, ver como é que corre. Não se está à espera de fazer o melhor vinho português de casta estrangeira, o melhor Syrah da Península Ibérica. É um sucesso inesperado.

Que vocês não imaginavam.

Não, é impossível. Mais uma vez, mesmo fazendo tudo by the book, ninguém imagina que assim à primeira, ainda por cima sendo de fora do setor, ache que vai ter esse sucesso. Isso elevou muito a fasquia e de facto, primeiro fez-nos perceber-

Foi uma festa lá em casa quando começaram a surgir os prêmios.

Não, porque não é tudo uma vez. Mas de repente, há uma sensação de que andamos a estudar e tínhamos registros da quinta desde o tempo dos viscondes de Chanceleiros e andamos a estudar o solo e o clima e uma série de coisas e podia ser tudo meio teórico. Mas este sucesso primeiro confirma que alguma base de verdade nos estudos e nos registros que havia, existia, em primeiro lugar. E motiva a continuar. E daí passamos dois hectares e meio progressivamente para os atuais 30 hectares, passamos de zero equipa para as 15 pessoas atualmente. E para um projeto que continua a ser pequeno, mas que hoje é uma empresa, é um negócio e que está a funcionar. Passamos de um hobby para uma empresa ou negócio. E, por outro lado, não tivemos aquilo que os restaurantes gostam muito, que é o soft opening, ou seja, abrir a porta, não dizer nada a ninguém, para olear a máquina, para testar, para ver se há um cliente chato que pede um café de uma determinada maneira. "Bolas, não temos essa maneira de fazer, então vamos melhorar". E ao fim de uns meses anunciam que estão abertos. Nós não tivemos direito a isso, porque de repente os holofotes estavam todos virados para nós e nós não tivemos remédio senão manter esse nível, porque cair lá de cima é muito mais fácil do que ir subindo devagarinho. Não tivemos direito a falhar desde a primeira hora.

E assim chegamos ao final da primeira parte. Regressamos já de seguida para continuar a conversar com Francisco Bento dos Santos, diretor-geral da Quinta do Monte D'Oiro, em Alenquer, na região dos Vinhos de Lisboa. Ainda o espaço Saca-Dúvidas, momento certo para descobrir algumas dicas úteis na hora de sacar a rolha. Até já.

Até já.

Bem-vindos de volta ao Tinto no Branco, um podcast Observador. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e aqui comigo está Francisco Bento dos Santos, diretor-geral da Quinta do Monte D'Oiro, em Alenquer, ou melhor, capitão de equipa. Daqui a pouco teremos Saca-Dúvidas, um momento de partilha de dicas úteis. Mas antes, vamos começar pelo vinho que o Francisco nos trouxe hoje. Francisco, com o que é que gostas de acompanhar este vinho?

Este vinho, Quinta do Monte D'Oiro Reserve, é um vinho muito completo e também muito complexo. Naturalmente que evolui ao longo da vida e vai ficando mais velho, mas ele pede pratos também muito completos. Eu gosto, se for, por exemplo, com caça, seja a caça grossa, o veado ou a caça fina, uma perdiz, lebre, um arroz de lebre, por exemplo, uma feijoada de lebre. Gosto muito, um prato que a minha mulher faz em casa, que é ossobuco à la napolitana, aquela carne a desfazer-se, cozinhada durante muitas horas.

Este vinho aconselhas a beber a partir de quando? Que idade?

Ele já está bebível, ou seja, nós já lançamos os nossos vinhos um bocadinho mais tarde para o mercado que a maioria da concorrência, dos outros produtores, e portanto, ele está perfeitamente bebível à data de hoje. Agora, sabemos que o 97, a primeira edição destes vinhos, está ótimo. É um vinho que se alguém tiver a paciência e gostar de um vinho velho, porque se não gostar, não vale a pena ter essa desilusão de esperar tantos anos para depois ter uma desilusão. Mas gostar de um vinho velho, ainda com saúde, poder esperar cinco, 10, 15, 20 anos por ele, ele vai entregar muito daqui a esse tempo. Mas à data de hoje está perfeitamente bebível e nós, em geral, não lançamos no mercado nenhum vinho que não possa ser bebido no momento, embora possa ser naturalmente guardado em casa.

Embora tenha longevidade. Este foi o vosso primeiro vinho. A construção da vinha foi pensada ao pormenor. É verdade que trouxeram as cepas todas de França?

Hoje em dia há viveiristas em Portugal que criam todas as castas que quisermos e todos os clones. Na altura não havia, havia muito poucas vinhas de Syrah. Portanto, nós o Syrah, o Viognier, tivemos que ir buscar a viveiristas franceses. Não é que não houvesse, se calhar, em Portugal, mas não com a qualidade que queríamos. Mas depois, o Arinto, a Tinta Roriz, a Touriga Nacional, fomos buscar a quem percebe do assunto, que não são viveiristas franceses, são viveiristas nacionais, obviamente.

Quando é que começaste a trabalhar na empresa?

Desde o início. Do início não, desde a primeira vindima, desde 97. O meu pai pediu-me para fazer uma apresentação de PowerPoint para apresentar a alguns clientes e a alguns jornalistas o projeto. E ele deu-me guidelines, ele é que sabia o que é que queria dizer. Eu depois, na minha vida de estagiário a trabalhar, tive que fazer muitas coisas para os meus administradores e para os meus chefes, muitas apresentações para eles irem a congressos e a conferências. Mas isso foi a primeira experiência que tive e foi interessante porque tive que aprender a organizar, compilar e estruturar informação. O meu pai sabia o que queria dizer, mas o facto de pôr num PowerPoint obrigou-me a fazer isso.

E levou-te a conhecer a empresa?

A conhecer, pelo menos aquilo que nós queríamos comunicar. E foi precisamente pela comunicação e pela imagem que eu comecei, porque eu é que tratava dos rótulos. Os rótulos não era eu que desenhava, mas que falava com a equipa de design. Eu revia os textos todos e já fazia desde o tempo do Reid. Ainda hoje, qualquer artigo que o meu pai escreva, eu revejo. Eu sou o revisor oficial do meu pai, portanto revia os textos todos. A selecionar os textos, criei o primeiro site, criar os primeiros folhetos, as fichas técnicas, press releases. Comecei com toda essa parte, isto sempre em side job. E o primeiro foi durante o curso, depois comecei a trabalhar. Trabalhei no grupo Águas de Portugal durante 10 anos a tratar de lixo. E foi sempre um side job, de noite e de fim de semana. Passei da comunicação, da imagem, algumas relações públicas, até depois passar para o marketing e finalmente para a área comercial, que é a minha área principal na quinta, mesmo atualmente sendo responsável geral e não tendo eu formação técnica em viticultura ou enologia, onde eu dedico mais tempo, além da gestão da empresa toda, é de facto a área comercial.

Passaste do lixo para o vinho. Isso é que é uma viagem.

Ou fui estando sempre no vinho e dei uma perninha no lixo. O lixo é um mundo magnífico e trabalhar em empresas grandes e em projetos grandes e com fundos comunitários e muitos milhões de euros foi muito importante para a minha formação. Mas tenho que reconhecer que o vinho cheira um bocadinho melhor que o lixo.

Desde 2012, se não estou em erro, és o responsável pelo projeto Quinta do Monte D'Oiro. Qual é que tem sido o maior desafio?

Sim, foi 2012, porque em 2011 nasceu o meu primeiro filho e eu tomei a decisão de me dedicar full time à quinta. E o meu pai todo contente.

Aproveitaste a licença parental.

Foi, é verdade. Primeiro tive licença parental durante quase cinco meses e depois tomei a decisão de me dedicar full time. Meu pai ficou todo contente, passou a poder se dedicar às coisas, não à gestão quotidiana, mas a estudar, a cozinhar, a ouvir música, a ler, a tomar conta dos netos. Foi relativamente natural abraçar a gestão total da empresa e não só a área comercial, que numa empresa pequena há sempre. No fundo, já estava muito envolvido com tudo, só não estava era presente. Tinha que marcar reuniões para as 19h ou para o fim de semana, porque não tinha disponibilidade durante o dia, porque estava empregado.

Teu pai sempre usou muito a expressão vinho gastronômico. O que é isso exatamente?

Às vezes já tenho ouvido dizer que todos os vinhos são gastronômicos. Não é bem verdade. De facto, na nossa cultura europeia, o vinho faz parte integrante da refeição e não tem sentido fora. Não quer dizer que não possa todo o resto do mundo e nós próprios europeus bebermos vinho fora da refeição e termos prazer com isso. Agora, pretender elaborar vinhos que tenham esse sentido, que podem ser bebidos fora, mas que se expressam melhor Quando acompanham uma refeição e que ajudam a elevar o conjunto de uma refeição, é para nós isso fundamental. Falamos de vinhos que têm, no caso da Quinta do Montedor, que está a 20 km do mar em linha reta, que são muito frescos. O que nós chamamos frescura no vinho tem a ver com acidez. Em termos técnicos e químicos, é a acidez que traz frescura aos vinhos. As pessoas acham que acidez é uma coisa negativa de um vinho branco ou até de um vinho branco da região dos vinhos verdes, muito ácido, de climas muito frios, mas não. A acidez é essencial em qualquer vinho, incluindo num tinto. Todo o equilíbrio do vinho, a finesse, ser um vinho que é elegante, que permite que não abafa o prato, que não é uma coisa pesadona, que se calhar um copo sabe muito bem, mas que não se consegue passar para o segundo ou para o terceiro. A mineralidade é uma coisa muito importante. Nós temos o facto de estarmos próximos do mar, temos a salinidade do Atlântico muito presente nos nossos vinhos, mas a mineralidade, aquilo que vem do solo, que não é só fruta. O vinho não é só fruta. Apesar de serem só uvas, elas vêm do solo e nós conseguimos trazer para o copo de vinho muito esse lado mineral. Toda esta situação é importante para trazer esse tal sentido gastronômico que nós tanto prezamos.

Ainda jogas rugby?

Eu sou um bocadinho nerd com o rugby. Eu ainda há bocadinho vim para aqui e eu finto os sinais, os postes da sinalização vertical no passeio como se fosse um jogador da equipe contrária. Eu se estiver na praia e ver uns miúdos com uma bola a brincar, começo-me a chegar para perto deles para ver se eles me passam a bola e se me convidam para brincar com eles. É uma coisa de pele muito forte. Mas não, eu infelizmente tenho duas hérnias discais. Deixei de jogar aos 17 anos. Fui colega de equipe de produtores de vinho conhecidos como o António Maçãnita, como o Pedro Martins. Jogamos na mesma equipe.

Agora és o capitão de equipe da Quinta do Montedor. Também já foste capitão de equipe no rugby?

É, era um bocado isso. O meu pai era o meu treinador e eu era o capitão de equipe. E desenvolvemos uma relação muito engraçada na altura, eu tinha 13 anos quando isto aconteceu, 13, 14, 15, em que criamos uma relação profissional, além da nossa relação pessoal e familiar, naturalmente, pai e filho, uma relação profissional em que o treinador tem um papel e o capitão de equipe tem outro. O treinador não joga, não placa, não se suja, não anda para lá acabeçada como os outros. Já andou, no tempo dele. Cria uma filosofia de jogo, escolhe a equipe e a partir do momento em que apita, só o capitão de equipe é que manda dentro de campo. Mas o capitão de equipe não é mais que os outros. É um jogador como os outros, tem a sua posição dentro da equipe, mas é um jogador como os outros todos. Tem uma particularidade no rugby, é que o capitão de equipe é o único jogador que está autorizado a falar com o árbitro. Portanto, na nossa equipe, e nós somos precisamente 15 na Quinta do Montedeiro, é uma feliz coincidência, eu sou um como os outros, ando lá acabeçada a placar, a estar aos postes, a correr e a tentar marcar ensaio. A única diferença é que eu sou o único na equipe autorizado a falar com o árbitro.

Ou seja, no campo como na quinta.

É verdade.

Falamos do vinho e da gastronomia, do rugby, tudo prazeres que o teu pai te passou. A certa altura, o teu pai foi corretor de metais preciosos. Também te passou esse gosto?

Não, eu era muito miúdo durante essa fase. Ele trabalhou com brokers de metais. Essa empresa ainda existe, eu estou ativo nessa empresa, mas hoje em dia é uma empresa sem atividade de trading. O meu pai conta muitas histórias. O trading na altura, hoje em dia, são ecrãs de computador muito grandes onde se vê as cotações ao segundo. Na altura, não. Na altura era preciso viajar, ir passar um mês ao Cazaquistão ou ir para uma mina no Peru ou enfim, correr o mundo todo à mesa, com comida e com vinhos, e fazer negócios, e encontrar um comprador desesperado para comprar nalguma parte do mundo e um vendedor desesperado para vender noutra parte do mundo. Esse era o papel do trader ou do broker. Meu pai viajava muito, porque não havia reuniões on-line, nem havia Teams e Zoom por aí fora.

Trazia o mundo para casa.

Sim, ele trazia produtos. Hoje temos praticamente tudo no supermercado e ele viajava 20 dias por mês, ou assim uma coisa, e portanto trazia sempre de várias partes do mundo ingredientes, vinhos, coisas diferentes que claramente não havia cá.

Ter um pai com uma história tão forte traz mais vantagens ou mais responsabilidades?

Traz as duas, porque de facto é um enorme privilégio poder herdar. E eu digo herdar, não é no sentido literal do termo, mas herdar este projeto e todo um conceito e uma filosofia que o meu pai criou e que eu participei e ajudei também a criar, mas que ele concebeu tudo e foi tudo feito à sua imagem e semelhança. E portanto, é uma sorte muito grande isto estar tudo feito, não ter que começar do zero. Mas é de facto uma responsabilidade muito grande, porque também não dá para inventar e fazer uma coisa completamente maluca ou fora da caixa sem estar a pôr em causa aquilo que é o legado e aquilo que foi tudo o que o meu pai construiu. Portanto, é um bocadinho dos dois, sem dúvida.

Em 2006, vocês iniciaram a conversão da viticultura para o modo biológico. Como é que foi o processo?

Foi um processo longo, doloroso, com muitas dúvidas. Embora a nossa viticultura já estava numa fase bastante adiantada para o processo de conversão. Já tínhamos algumas operações culturais e alguns cuidados que facilitaram depois a conversão. Mas é uma incógnita. Hoje em dia está na moda e é giro, é cool dizer que somos bio, mas há 20 anos era quase crime de lesa-pátria. Mas foi uma opção tomada consciente e à medida que os anos vão passando, cada vez temos mais confiança de que foi uma opção correta, porque os vinhos expressam isso mesmo.

Enquanto diretor-geral de uma empresa de vinhos, como é que vês o futuro do vinho português?

Nunca mais lá chegamos. Tenho essa sensação, que todos nós, o setor todo diz: "Não, está quase, agora está muito melhor". Mas vivemos num mundo muito competitivo, ou seja, isto dava para um pause no resto do mundo, nós apanharmos o comboio e depois a seguir continuarmos a trabalhar e a fazer muito bem feito, como acho que todos temos vindo a fazer. Mas os outros não estão parados, é uma chatice. Os outros continuam e, portanto, as coisas estão muito melhores do que estavam. O reconhecimento do vinho português lá fora é muitíssimo superior hoje em dia do que era há 20 anos. No entanto, temos que reconhecer que continuamos uns ilustres desconhecidos do público em geral. Não estou a falar do especialista, do crítico, do sommelier, mas continuamos como país em que continuamos muito atrasados face aos outros países produtores mais conhecidos. Agora estamos a fazer esse trabalho e os resultados vão aparecendo, devagarinho.

Ainda há muito caminho para andar. Vocês hoje em dia produzem mais ou menos quantas garrafas por ano?

Entre as nossas marcas e as marcas que fazemos para parceiros e clientes, andamos nas cerca de 180, 200 mil garrafas. Quando eu digo parceiros clientes, digo amigos, como é o José Avillez, o Kiko Martins, que fazemos os vinhos que eles usam nos restaurantes deles, mas que são as marcas deles, portanto, não são marca Quinta do Monte D'Oiro.

Vocês têm uma relação muito próxima com alguns chefs de cozinha.

Sim.

Tem tudo a ver com a vossa génese também.

É relativamente natural. Claro que isto começa muito com o meu pai, pela personalidade que ele é no mundo da gastronomia. Eu conheci o Kiko muito antes de ele ser o chef de cozinha que é conhecido. O José Avillez começou a trabalhar conosco, mas quando eu jogava rugby também joguei contra ele. Ou seja, os chefs que estão hoje em dia na BR e no mercado atualmente, já são da minha idade, já não são da geração anterior, já não é o Vítor Sobral ou Joaquim Figueiredo. E nós sempre tivemos a cozinha que temos na Quinta, sempre tivemos muito esta relação próxima com o mundo da gastronomia, portanto eu diria que é natural, é quase inevitável.

Hoje, para ti, o que é que é um jantar perfeito?

Poucos vinhos. Não é um jantar com 15 vinhos em que eu não consigo dar atenção. Eu prefiro abrir três ou quatro, e eu tenho muitos jantares com muitos vinhos. Mas eu prefiro abrir três ou quatro garrafas do mesmo vinho, se formos muitas pessoas, se for só uma ou duas pessoas, basta uma. E aproveitar esse vinho à séria do que provar muitas coisas. E também poucos pratos. Um bom prato, um bom vinho, podemos ter alguma coisa antes ou depois, mas poder comer bastante daquele prato e beber bastante daquele vinho para não ser só uma impressão fugaz, para podermos, de facto, a cada copo, a cada garfada, ir descobrindo e ir aproveitando genuinamente o conjunto do prato e do vinho sem: "Estava a saber tão bem, agora passamos para o próximo".

Diz-se muita vez que quem faz vinho precisa ter paciência de chinês. Não tens pressa.

Não podemos ter. Quando se planta uma vinha, no nosso caso, que esperamos algum tempo para a primeira produção, mas mesmo para a vinha se formar, mais o tempo de crescimento da vinha, o tempo de fazer o vinho, estamos a falar de quase 10 anos. De uma decisão que foi tomada não sei quanto tempo antes. Não há outro remédio. O ciclo repete-se a cada ano, não se repete a cada dia. Ou a cada hora ou a cada mês. É mesmo um ciclo lento e portanto, naturalmente, temos que aprender a viver nessa realidade.

Consegues transportar essa lição para a tua vida pessoal?

Não é tão fácil, porque nós vivemos com muita rapidez e tudo acontece com muita rapidez, mas eu acho que sim. Acho que de alguma forma tento respirar com calma e nas alturas de maior tensão ou de maior estresse. Eu nunca fui um grande chutador, a minha perna não tem aquela capacidade que os grandes chutadores têm. Chutador no rugby. Mas eu admiro muito que num jogo em que está toda a gente acabeçada, numa intensidade enorme, de repente há um ensaio e há um chuto aos postes e o chutador está com uma calma desgraçada, um estádio inteiro em silêncio e depois de ter corrido e feito um sprint, está ali, respira, olha para os postes, olha para a bola. É quase como um jogador de golfe, está tudo em silêncio para ele conseguir fazer aquele shot, é a mesma coisa que um chutador no rugby. Portanto, tento, já que não tenho muito jeito para chutar no campo, tento na vida fazer um pouquinho esse papel de chutador. Não é fácil, mas esforço-me por isso.

O rugby é a tua grande escola.

É. O rugby é uma escola de vida e é uma escola de organização em sociedade, das várias valências, do gordo, do magro, do alto, do baixo, do rápido, do lento, do conjunto daqueles 15 elementos muito diferentes entre si, mas cada um na sua posição.

Todos importantes.

E todos a contribuir à sua maneira para o sucesso da equipa.

O tempo passa a correr e o nosso já chegou ao fim. A seguir, a rúbrica que nos ajuda a saber o que fazer na hora de sacar a rolha: Saca-Dúvidas. Francisco, qual é a regra de ouro para escolher o vinho certo para uma refeição?

Regra de ouro. Eu acho que não há uma regra de ouro e é exatamente aí que reside o busilis da questão, ou seja, um vinho é feito para dar prazer e uma refeição é feita para dar prazer. E há muita tendência a dizer: "Este é o vinho perfeito para este prato." E isso é uma mentira redonda, porque não há um vinho perfeito para um prato ou o contrário. Dois vinhos diferentes podem ligar bem com o mesmo prato, mas cada um dos vinhos vai fazer ressaltar partes diferentes do prato e a experiência como um todo é diferente. E vice-versa. Não há um prato perfeito para um determinado vinho. Eu vou perceber nuances deste vinho com um determinado prato e com outro prato vou perceber outras nuances do mesmo vinho. E isso é giro, é divertido perceber estas coisas sem ter dogmas e ter palas nos olhos e dizer: "Tem que ser assim e só assim é que funciona." Portanto, abertura de espírito, experimentar e conhecer por si próprio.

Vinho rima com sopa.

Para mim não rima nada. Não gosto nada de estar a comer líquido e a beber líquido, mas respeito que haja quem goste. E em função dos aromas da sopa, nós também podemos casá-la com os aromas do vinho. Eu é que me erro um bocadinho. Ou às vezes quando tenho isso, como a sopa e depois bebo o vinho ou vice-versa.

E assim chegamos ao fim deste "Tinto no Branco", com Francisco Bento dos Santos, diretor-geral da Quinta do Monte d'Oiro, em Alenquer. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e todas as semanas trago-vos uma pessoa, uma história do mundo do vinho. "Tinto no Branco" passa na Rádio Observador às quintas-feiras depois das 11 da noite e está sempre disponível em podcast. Siga, partilhe, esteja e brinde conosco. Obrigada, Francisco.

Obrigada, Ana Sofia.