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Olá, bem-vindos à Vixi Suave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Desta vez, e com muita pena minha, não tenho ao meu lado o Miguel Viteiro Dias, que decidiu tirar folga em plena crise política. Vá-se lá perceber como. Mas tenho as omnipresentes, omniscientes e omnipotentes Rita Tavares e Mariana Lima Cunha. É este duo dinâmico que me vai ajudar a explicar a primeira semana do resto das nossas vidas. Entre a espada e a parede, eleições antecipadas ou ser cozido em lume brando, Luís Montenegro preferiu ir a votos e tentar enterrar de vez Pedro Nuno Santos e a Spinonviva. O líder socialista, que andava a planear estados gerais e as próximas eleições autárquicas para relançar o PS, vai a votos antes do tempo e num cenário altamente imprevisível. E ainda existe André Ventura. Há duas semanas, todos diziam que o Chega tinha entrado numa rampa deslizante e agora ninguém sabe de nada. Mas vamos fazer aquilo em que somos realmente bons: adivinhar o futuro. Venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Mariana Lima Cunha, desafio-te a comentar esta semana. Como é que hei de adjetivar? Abacadabrante? Não.
Surpreendeste-me. A pergunta é esta?
É.
Ok, vamos a isso. Miguel, eu ainda estou um bocadinho abananada. Eu que faço parte da famosa bolha mediática, tal como tu e a Rita, e a bolha mediática tem preocupações de estabilidade nas suas vidas também, vidas profissionais, que estão constantemente a ser abaladas nos últimos anos e portanto ainda me estou a refazer do susto. Mas parece-me que vamos mesmo para eleições. Se calhar vou pegar aqui por um lado que nós temos estado a analisar, que é a estratégia que o governo vai levar agora que, como tu dizias, Luís Montenegro escolheu a espada e escolheu abreviar o que já parecia que ia ser um caminho um bocadinho penoso que ia trilhar nos próximos meses e que era o plano do PS ir desgastando a pouco e pouco o primeiro-ministro, e ele decidiu dar o grande salto à frente e arriscar. Nós hoje, quinta-feira, tivemos a apresentação da moção de confiança, já soubemos em três partes: no debate parlamentar, nas entrevistas em que os ministros se distribuíram pelas televisões e na moção de confiança, percebemos o argumentário que o PSD começa a construir e que eu acho que tem alguns pontos interessantes e outros muito frágeis. Quando comecei a ler, por exemplo, o texto da moção de confiança, começa com uma enumeração das boas obras do governo. Acho que estamos um bocadinho parados no tempo naquelas discussões dos aumentos de certas carreiras da função pública, mas também a decisão do local do novo aeroporto, o plano hídrico para o Algarve, uma série de exemplos que são sempre dados, o controle da imigração. Aliás, Luís Montenegro quando anunciou que ia avançar com a moção de confiança, nós ainda nem tínhamos tido tempo para recuperarmos do susto, ele já estava a enumerar uma série de indicadores positivos para o país e de medidas tidas como positivas do governo. Portanto, essa parte da campanha começou logo a ser disparada e a moção de confiança diz que o governo empreendeu uma verdadeira transformação. Paulo Rangel também dizia aqui no Observador que já transformou, por exemplo, a vida dos jovens portugueses, seja nos preços da habitação, seja na tributação dos impostos. A minha questão é se o governo teve tempo de provar que esta transformação toda de que está a falar estava de facto a acontecer. Não tenho a certeza de que isso tenha acontecido. Eu, como não sou política, não costumo usar expressões como o que os portugueses sentem ou o que os portugueses acham. Não sei o que os portugueses acham. Eles provavelmente também ainda não sabem, porque é um bocadinho cedo para dizer, aguardando ansiosamente as próximas sondagens, mas acho difícil deduzir neste momento que, ponto um, os portugueses perceberam quem é que provocou a crise e já tiraram conclusões disso e, ponto dois, que perceberam que a sua vida estava a passar por uma verdadeira transformação e que por isso vão premiar o governo. E isto serve para os dois lados. Serve para o governo, que de facto não teve tempo, acho eu, e tal como nenhum governo tem tido nos últimos anos, de concluir um projeto verdadeiramente. Tal como o PS não teve tempo de fazer os seus estados gerais. E eu duvido também que se formos por um eixo qualquer, pode ser Portugal e a Santini como presidente da República ou outro qualquer, e perguntarmos o que é que Pedro Nuno Santos quer para o país, o que é que propõe, o que é que o PS vai trazer de diferente, também não sei dizer se alguém sabe. Não estou a dizer que é porque o PS não tem essas posições, mas porque passou tão pouco tempo, tem sido um ano tão acidentado.
Desculpa só interromper. Também não parece que seja esta campanha que vai permitir saber, porque essa não vai ser de todo uma campanha de ideias, vai ser uma campanha de ataques políticos e muito pessoais até, o que vai fazer disto uma espécie de bolha à parte de tudo, em que não é aqui que se vai destrinçar quem é quer o que para o país, é só uma batalha de poder direto.
Sim, tendo em conta que a situação não passou por alterações assim tão significativas desde as últimas eleições, a não ser que este caso, para um lado ou para o outro, tenha consequências inimagináveis junto do eleitorado, que eu agora não consigo dizer, não vejo exatamente o que é que estas eleições vão trazer. Como dizia a Rita, acho que não trazem grandes argumentos de mudança do país que os partidos não tenham explorado há um ano.
Então na tua opinião, tudo ficará na mesma?
Não sei se tudo ficará na mesma, porque para já não tenho grandes capacidades para interpretar o eleitorado.
Estás a fugir ao exercício proposto, que é tentar adivinhar o que vai acontecer.
Vou especular. Sabes que eu, por acaso, ontem até estranhei quando estava no debate da moção de censura, os meus grupos de WhatsApp, que é a minha forma de fazer sondagens junto do eleitorado, estavam completamente quietos. Os que incluem jornalistas, não, mas os das outras pessoas que estão nas suas vidas, que estavam no trabalho e que não tinham a mínima noção de que isto podia acontecer, porque ainda nem tinham percebido bem que havia o risco de haver crise política, continuaram na mesma. Portanto, é uma pequeníssima amostra, mas eu não sei, de facto, se as pessoas já se aperceberam do que é que vai acontecer. Acho que há várias dúvidas aí. Por exemplo, no governo existe uma tese de que os portugueses estariam prestes a cansar-se do caso, que não têm paciência para ouvir falar sobre os contornos disto, que só querem saber se Luís Montenegro roubou alguma coisa ou não e se não, siga em frente. Eu não sei se isto é assim, tenho dúvidas que seja assim tão linear, sobretudo num país que já teve o passado. Não estou a comprar Luís Montenegro com José Sócrates, atenção, estou a falar daqueles traumas que ficam, das referências à Avences, coisas do gênero. Não sei se é assim tão linear que o eleitorado simplesmente vai concluir que como não há a ver nenhum tipo de ilícito criminal sugerido, nem nada do género, que se pode passar à frente e que não fica nenhuma desconfiança em relação a Luís Montenegro. E também falta perceber, nós até aqui tínhamos estado todos a comentar como a sucessão de casos no Chega, mesmo que não atingisse diretamente André Ventura, podia acabar por atrapalhar um pouco a vida e a campanha do Chega. Neste momento, com a arte que André Ventura tem, salvo seja, em aproveitar casos destes, também não sei dizer qual é o impacto possível disto na campanha. Ou seja, eu não digo que fique tudo na mesma, digo é que é tão difícil prever neste momento, citando o Presidente da República, foi tudo tão curto e tão rápido, que é difícil vermos já as consequências e como é que isto se vai espelhar em cada eleitorado. Até pode mudar alguma coisa. Agora, quem é que favorece, eu não consigo arriscar com tanta certeza como se arrisca, por exemplo, no PSD.
E pegando na nota da Mariana Rita Tavares, que dizia não saber exatamente que impacto terá este caso junto do eleitorado e fazendo aqui contraprova, é certo que falaste em José Sócrates, mas José Sócrates venceu umas eleições já depois de estar envolvido em muitos dos escândalos que viriam.
Portanto, por isso é que eu falava no trauma. Estamos já no after Sócrates.
Isaltino Morais foi eleito depois de cumprir pena de prisão. Fátima Felgueiras foi eleita depois de se ter envolvido num caso muito difícil de explicar. Os eleitores já deram um e outro sinal. No caso, Rita Tavares, do ponto de vista do Partido Socialista e de Pedro Nuno Santos, como é que se pode preparar uma campanha neste contexto e há ou não algum tipo de convicção de que desta vez será diferente e de que o Partido Socialista pode vencer estas eleições? Convicção, naturalmente existirá, mas há dados que o indicam?
Sim, nesta altura do campeonato, ninguém no PS vai dizer que não há essa convicção. Era partir em desvantagem se assumissem que podiam perder. Mas com que argumento é que estão a partir? Para já, em sacudir totalmente a responsabilidade desta crise. O que está a acontecer dos dois lados, não é só do lado do PS, é do lado do governo também. Há essa tentativa de empurrar para o Partido Socialista a responsabilidade de haver uma crise. Já se sabe, os partidos acham que historicamente são penalizados nas urnas se forem eles os responsáveis pelo desencadear de crises políticas, porque as pessoas não estarão-
Citando Luís Montenegro, não temos agitadores.
Sim. Não têm vontade de estar sempre a ir para eleições, portanto o discurso do Partido Socialista acho que não sairá muito aqui nessa parte, mas depois acho que se prepara para ser uma coisa muito agressiva e focada no primeiro-ministro, mais do que propriamente em ideias, uma coisa muito focada nestas últimas semanas de Luís Montenegro. E isto, quanto a mim, traz um problema para o futuro. Há bocado tu estavas a pedir à Mariana previsões. Eu arrisco uma, que é: isto vai ficar muito pior. Eu sou irritantemente pessimista nisto, porque acho que isto vai ficar pior.
Pior do ponto de vista do regime ou do fator de bloqueio de negociação?
Não, não faço avaliações a esse nível do regime, faço é avaliações do ponto de vista de funcionamento político e de capacidade destes elementos que estão agora em jogo conseguirem concertar o que quer que seja no dia a seguir às eleições, e há uma grande probabilidade que tenham de o fazer, porque nós vemos como o Parlamento está hoje fragmentado. É difícil estarmos a arriscar isto, mas eu diria com alguma segurança que não é provável que agora, de repente, o Parlamento fique muito menos fragmentado. É natural que continue a existir esta fragmentação, isto exige negociação, exige diálogo, e as condições que estão criadas são tudo, menos condições propícias ao diálogo, e esta campanha pode afundar ainda mais isso. Se Pedro Nuno Santos ainda podia ser um elemento com quem Montenegro podia contar, se Pedro Nuno Santos noutros tempos poderia ainda pensar que conseguiria ali algumas coisas com o PSD, agora é muito difícil. São líderes de costas voltadas e que ainda vão ficar de costas mais voltadas e mais distantes depois de uma campanha que seja de ataques pessoais Não sei até que ponto isto não fragiliza esse dia seguinte. Não sei até que ponto a intervenção do Presidente da República nesta altura também não deveria ser nesse sentido, de tentar apaziguar um bocadinho ânimos e de alertar os partidos para o caminho que vão trilhar durante esta campanha eleitoral, mas também não sei se não é inevitável que assim seja, tendo em conta o quadro em que estamos hoje e não sei se alguém consegue fugir disso.
A visão dos mais otimistas é de que as próximas eleições legislativas, e citando o ex-selecionador de futebol Luís Felipe Scolari, que são eleições mata-mata. Portanto, quem perder terá de sair e terá de deixar o outro governar. Vou fazer a mesma pergunta à Mariana Lima Cunha, mas se Pedro Nuno Santos perder as próximas eleições, tem condições políticas para ser um obstáculo no futuro à governação de Luís Montenegro?
Acho que aí vão ser utilizados todo o tipo de argumentos do lado de Pedro Nuno Santos para se manter, nomeadamente ser um líder que está em apenas um ano em funções, que estas eleições não foi ele que escolheu. Há uma série de argumentos que podem ser utilizados e, na sua oposição interna, resta saber se vai ter força para furar a parte da estrutura partidária que está com Pedro Nuno Santos. Até onde é que pode ir uma derrota de Pedro Nuno Santos para que essa estrutura do PS comece a deslaçar? Essa estrutura que hoje está com ele, comece a deslaçar e possa pôr em risco a sua continuidade à frente do partido. Acho que isso depende da vontade dele, sim, é um fato, porque pode bem acontecer ele perder as eleições e dizer adeus, boa tarde. Mas se ele quiser continuar, também não depende só dele continuar, depende também das condições dentro do partido e eu diria que o resultado eleitoral, a derrota eleitoral, o tamanho dessa derrota vai ser importante também para perceber quanto tempo é que o partido vai querer estar à espera com um líder que, se isso acontecer, se calhar o partido vai começar a pensar: será que com este nunca vamos chegar lá?
Porque parece que foi noutra vida, mas há umas semanas estávamos a falar a propósito daquela célebre entrevista de Pedro Nuno Santos ao Expresso, em que criticou a estratégia do governo anterior em relação à imigração e todas as reações que isso provocou. Lembro-me, por exemplo, das críticas muito duras da Ana Catarina Mendes, mas também de Eurico Brilhante Dias, por exemplo, do Zé Luís Carneiro, enfim, figuras com algum peso no Partido Socialista, mas também todo o processo da escolha do candidato presidencial já vinha a motivar muitas críticas internas a Pedro Nuno Santos. Portanto, há um desconforto, pelo menos latente, no Partido Socialista.
É um partido na oposição. Isso aí acho que um partido na oposição é sempre diferente de um partido no poder e tem sempre essas vozes críticas muito mais ativas. Não estou a desvalorizá-las de maneira nenhuma.
E uma derrota nas eleições legislativas.
Mas acho que uma derrota de eleições legislativas pode criar essa dinâmica interna. Veremos qual é a resistência da frente de Pedro Nuno e se o próprio resiste a mais uma derrota em legislativas, sendo que ele pelo meio teve uma vitória nas europeias.
Mariana Lima Cunha, faço-te a mesma pergunta, mas aqui mudo ligeiramente o cenário. Não há uma oposição, nem sequer uma amostra de oposição no PSD a Luís Montenegro. Há sempre o mito do passismo, mas tanto quanto sabemos, Pedro Passos Coelho não tem intenção nenhuma de voltar tão cedo à liderança do PSD e a candidatar-se a primeiro-ministro. Portanto, o mito está sem a figura.
Mitificado.
Mas ainda assim, há um cenário que se pode colocar, porque pode colocar-se sempre, o PSD ficar em segundo nas eleições e haver uma maioria à direita, nomeadamente contando com o Chega. Luís Montenegro sempre disse que não seria primeiro-ministro se ficasse em segundo. Também disse sempre não é não ao Chega, admitindo que o mantém, que mantém esse não é não e que mantém a convicção de não ser primeiro-ministro caso fique em segundo lugar. O PSD permitirá ver-se arredado do poder pela convicção de um líder como Luís Montenegro?
Serei cética. Nem sequer é ser cética, porque na verdade, os partidos são meios, enfim, instrumentos de poder e o objetivo é chegar ao poder. Faz parte da sua definição. Porque eu ia dizer que ia ser cética em relação à natureza dos partidos, mas na verdade, não. Estou só mesmo a constatar que acho difícil que quando um partido vê que tem hipóteses, se tiver de fato hipóteses reais, se tiver de fato um cenário em que há claramente um caminho. E atenção que eu acho que isso não é assim tão linear, porque olhando para o Chega, por exemplo, já havia obviamente muita gente no PSD que não achava que fosse possível fazer acordos com o Chega ou entender-se com o Chega. Acho que depois desta legislatura, se agora acabar, depois do que foram os embates entre PSD e Chega, Luís Montenegro chegou a fazer, aliás, de André Ventura, por vezes quase o principal opositor quando debatia no Parlamento, por exemplo, parece-me que há ainda menos condições para fantasiar com cenários desses. Mas se houvesse, de fato, condições para formar uma maioria estilo geringonça, acho difícil de acreditar que o partido simplesmente descartasse essa hipótese. Enfim, por muita lealdade que tenha a Luís Montenegro, não me parece que a hipótese não fosse pelo menos equacionada, só ver se há alguém disposto a corporizá-la. Luís Montenegro também tem este seu tempo, tem este seu ciclo, tenho bastante certeza de que o PSD, num cenário em que se viu afastado do poder, dirá que por culpa da oposição, isso são avaliações diferentes que as duas partes fazem, mas muito cedo, antes de cumprir um ano de governação, se tivesse alguma hipótese de continuar o seu projeto de governação, acho difícil que pelo menos a hipótese fosse afastada de forma completamente liminar só por causa do critério Luís Montenegro.
Acaba por aqui a minha especulação.
Muito bem. Nós vamos ter a oportunidade para especular muito mais em próximas edições da Vixi Suave. A nossa primeira parte tem de ficar por aqui, mas voltamos dentro de momentos com a entrevista a Francisco César. Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Temos conosco Francisco César, deputado e dirigente do Partido Socialista. Acho que não cometo nenhuma inconfidência em dizer que é muito próximo também de Pedro Nuno Santos, portanto, será uma fonte muitíssimo bem informada nesta altura do campeonato.
Sou amigo.
O Partido Socialista acusou o primeiro-ministro de ser responsável pela antecipação de eleições, mas avançar com uma inédita comissão parlamentar de inquérito a um primeiro-ministro não é um empurrão nesse sentido, não é um precedente grave que se abre?
Não, antes de mais, boa tarde. Não, vamos ver. O Partido Socialista não avança com comissão de inquérito por gosto, nem tem especial prazer em ter que fazer um escrutínio à vida do primeiro-ministro, que nós percebemos que terá necessariamente um grau de exposição que não nos satisfaz do ponto de vista daquilo que deve ser o debate público sobre a vida de uma pessoa. Mas o fato é que nós fomos obrigados a isto e a sequência é muito lógica e tem a ver com o seguinte: tem a ver que o senhor primeiro-ministro é que começou com este problema. Nós, aliás, ninguém, julgo, nenhum dos jornalistas que aqui estão e o Partido Socialista sabiam que o primeiro-ministro era empresário, sabiam que ele tinha um conjunto de negócios. Aliás, a primeira afirmação que é feita pelo primeiro-ministro na Assembleia da República, quando sai uma notícia, é que a empresa que ele tinha, tinha interesse imobiliários. E o primeiro-ministro esclarece, inclusive dizendo que a empresa que existe é uma empresa para gerir o patrimônio imobiliário da família. E, portanto, esta foi a primeira parte. E nós todos os dias, sucessivamente, fomos percebendo que o que estava ali em causa era mais do que o primeiro-ministro foi revelando. E nós, aos poucos, fomos percebendo que havia mais algo a ser esclarecido, mais algo por esclarecer.
E o desfecho da Comissão Parlamentar de Inquérito acabou por ser inevitável, é isso?
Acontece uma razão muito simples: é que há um momento em que o senhor primeiro-ministro resolve fazer uma conferência de imprensa ou uma declaração ao país. Aliás, não sujeito a escrutínio pela parte dos jornalistas, porque se furtou exatamente a não responder a qualquer pergunta de jornalista, em que diz: "Ou estão satisfeitos com a explicação que eu vos dou, ou não estão, azar, porque eu não falo mais sobre o assunto." Quais são os mecanismos que o Partido Socialista tinha para poder ultrapassar isso? A única forma que nós tínhamos disponível era de utilizar, como disse e bem o senhor presidente da República, os mecanismos institucionais disponíveis ao nível parlamentar e aquele que é derradeiro e que obriga o primeiro-ministro a responder a esta situação é uma comissão parlamentar de inquérito. Longe de nós pensar o que, na verdade, o governo tinha era um roteiro, devidamente aliás explicitado em fotografias das redes sociais.
Então foi o presidente da República que empurrou o PS para esta comissão de inquérito, é isso?
Não, o que eu estou a dizer é que quem empurrou o PS para esta comissão de inquérito foi a ausência de esclarecimentos do primeiro-ministro.
Como referiu o presidente Marcelo Rebelo de Sousa na argumentação, pensei que a dada altura que era essa a justificação que o PS ia utilizar a partir de agora.
Não, o que nós percebemos do senhor presidente da República é que ele percebeu perfeitamente que existem mecanismos institucionais, neste caso parlamentares, que permitem um escrutínio do governo, sem que para isso nós tenhamos que ir para eleições.
Mas vamos imaginar, até porque fez referência ao tal plano que entretanto foi conhecido de forma inadvertida e para que os nossos ouvintes estejam a par.
Chamemos de um roteiro para eleições antecipadas.
Isso são palavras suas, mas de fato houve um episódio no debate de moção de censura em que António Leitão Amaro, ministro da Presidência, segurava uma folha. Entretanto, um fotojornalista captou o conteúdo dessa mesma folha e lá percebia-se algumas etapas que o governo pretende ou pretenderia seguir até a moção de confiança. Numa dessas etapas estava precisamente respostas aos partidos, às perguntas que ainda não foram esclarecidas. Imaginando que Luís Montenegro, de facto, responda a essas perguntas.
Qual era o ponto? Era o terceiro ou quarto, salvo erro, não era?
Porventura, agora de memória não tenho presente. Imaginando que Luís Montenegro responde, de facto, a essas perguntas, o PS ponderaria o seu sentido de voto na moção de confiança?
Não, a questão não está... Aliás, vamos por duas fases. A primeira fase é muito clara, que é: por que é que nas prioridades de Leitão Amaro, entendamos, nas prioridades do governo, o esclarecimento às perguntas colocadas é colocado mais para o fim da lista do que em primeiro lugar da lista? Isto acontece porque o governo, na prática, tem uma estratégia montada para chegar a uma moção de confiança.
Mas essa teórica resposta aos partidos viria sempre antes da moção de confiança.
Bom, mas se ficar tudo esclarecido...
Então aí, o que é que o PS faz?
Se ficar tudo esclarecido, quer dizer que o governo pode retirar a sua moção de confiança. É que é algo que as pessoas não perceberam, a meu ver.
E o PS retiraria a sua comissão parlamentar de inquérito?
Vamos ver. Se tudo ficasse esclarecido, por que havia necessidade de fazer uma comissão parlamentar de inquérito? Mas nós devemos é colocar a questão ao contrário. É que o sentido de voto do Partido Socialista não está em nada relacionado com o fato de prestar ou não prestar esclarecimentos. Nós nunca falamos de moção de confiança no sentido de o governo a apresentar. Nós desafiamos, se o governo não está confortável, não se sente com capacidade para governar, que apresente essa moção de confiança. Mas isso pode fazer a qualquer momento, até porque o sentido do Partido Socialista em relação à moção de confiança, o sentido de voto, é dito no dia, salvo erro, das eleições. Se não foi no dia, foi no dia a seguir. Toda a gente sabe qual é a posição do Partido Socialista em relação a moções de censura e em relação a moções de confiança Votaremos contra ou não viabilizamos moções de censura, moções de confiança nós não iremos dar a chancela ao governo para que tenha essa confiança para governar. Isto em nada está relacionado com o problema que o governo tem neste momento com a verdade. Se nós não tivéssemos qualquer dúvida, não havia comissão parlamentar de inquérito. O governo é que introduziu nesta discussão a questão de eleições antecipadas. E por que introduz a questão de eleições antecipadas? A meu ver, e é a interpretação que faço, e é pessoal, a primeira é uma questão interna, ou seja, o governo percebeu que dentro do próprio PSD há movimentos para retirar Luís Montenegro de primeiro-ministro ou, se essa situação se degradar, como eu acho que esperam que se degrade, de ser substituído. E, por outro lado, rapidamente tentar evitar que haja um escrutínio mais aprofundado em relação a esta situação. E podem me fazer a pergunta, que acho mais do que justa, em que medida é que o escrutínio fica afetado com eleições antecipadas se o PS diz que a comissão de inquérito vai ocorrer depois das eleições? A questão está aí. É que o que este governo quer é que não haja escrutínio antes de haver qualquer tipo de eleições. E utilizar as eleições como uma chancela, como uma aprovação, da melhor forma trumpista, de que eu não tenho mais nada a esclarecer, porque o povo já te disse o que tinha a dizer sobre esta matéria.
Mas deixe-me só insistir. Se o problema do PS é relativo à falta de respostas por parte do primeiro-ministro e se as respostas entretanto chegarem, por que se mantém a intenção de derrubar o governo e ir pra eleições? Porque o que disse aqui foi que a moção de confiança, só se o governo a retirar, é que o governo não cai. O PS não muda nada aí.
Mas vamos ser claros. Se a moção de confiança fosse apresentada há três meses ou quatro meses atrás.
O PS teria o mesmo sentido de voto.
Claro que sim, todos sabem disso. Ou seja, uma moção de confiança não permite ao Partido Socialista derrubar o governo. Uma moção de confiança deste governo é um pedido de demissão deste governo, porque sabe a partir do sentido de voto. Por isso é que nós devemos separar os momentos. O Partido Socialista não pediu eleições antecipadas. O Partido Socialista não quer eleições antecipadas. O Partido Socialista não tem medo de eleições antecipadas. Agora, o Partido Socialista só pediu uma coisa muito simples: esclarecimentos. E o que é que custa, se é feita uma lista de prioridades, colocar em primeiro lugar das listas de prioridades o esclarecimento às pessoas? Por que não respondem aos jornalistas? Por que não há conferências de imprensa em que todos os jornalistas podem fazer perguntas?
Deixem-me então fazer aqui mais uma pergunta agora.
Deixa eu terminar. Das 37 perguntas que foram colocadas, eu tenho-as aqui. Trinta e sete perguntas foram colocadas por todos os partidos, 29 não foram respondidas. Não são apenas aquelas que entraram como requerimento parlamentar, entendamo-nos. Foram feitas 37 perguntas. Eu posso ver aqui se são 37 ou 39. Foram respondidas 27 ou 29. Posso estar a trocar em relação ao sete ou ao nove no final do número. Agora, por quê? E todos os dias vamos sabendo mais uma questão em relação ao primeiro-ministro. Não custa nada sentar-se.
Na verdade, essa lista nunca vai estar cumprida por parte do Partido Socialista, porque vão sempre existir novas dúvidas relativamente ao primeiro-ministro. É um bocadinho uma lista interminável, é isso?
Não, não é uma lista interminável.
Ou há uma maneira disso ser tudo respondido ou o PS vai estar sempre insatisfeito? A partir do momento em que este é o cenário político de eleições antecipadas.
Eu percebo a pergunta, até porque o PSD também a colocou de uma determinada forma. Vamos ver o seguinte: qual é o papel do Partido Socialista aqui? O papel do Partido Socialista é escrutinar a atuação do governo, neste caso do primeiro-ministro. O que era uma questão pessoal, passou a ser uma questão familiar, por obra do primeiro-ministro, e de um momento pro outro, passou a ser um problema do governo, quando o primeiro-ministro introduz todos os membros do governo numa conferência de imprensa. Nós colocamos um conjunto de perguntas. Eu tenho-as aqui, nas minhas cábulas. Posso até lê-las.
Não, é melhor não. Acho que é melhor.
Mas só pra dizer que elas estão aqui.
Até porque temos aqui mais perguntas pra lhe fazer. Não vamos ficar só na lista de perguntas.
E qualquer uma das pessoas que me está a ouvir poderá perceber. Se não havia qualquer problema, o que é que custava ao primeiro-ministro sentar-se, chamar a comunicação social com toda a documentação necessária, como fez em relação à Casa de Espinho, e só sair daquela conferência de imprensa quando todas as perguntas fossem respondidas? Como ele fez, não é inédito, uma vez. Aliás, nós podemos colocar o assunto ao contrário. Pedro Nuno Santos teve, a uma determinada altura, um escrutínio muito apertado em relação à sua declaração de rendimentos, em relação às empresas do seu pai, a uma empresa da qual ele era sócio, salvo erro, em 5% ou em 0,5%, já não me lembro do valor. E obviamente que é um escrutínio difícil, que ninguém gosta que a sua vida seja devassada, mas ele fê-lo e respondeu a tudo. O que é que custava ao primeiro-ministro fazer isso?
Deixa avançar aqui as minhas perguntas, até pra passarmos pra questão da governabilidade. Há apenas um ano, Pedro Nuno Santos disse que não criaria obstáculos à formação e ao início da atividade de um governo.
E não o fez, ajudou.
Se se repetirem os resultados eleitorais, essa palavra é pra cair. Ou seja, se o PS voltar a ficar em segundo, não aprovará um programa do governo da AD, liderado por Luís Montenegro.
Eu gostava que a pergunta fosse feita também ao contrário.
E vai ser.
Vamos ver.
Será? Quem está aqui é um dirigente do Partido Socialista.
O Partido Socialista tem sido um fator de estabilidade e tem nos momentos fundamentais para o país resolvido as trapalhadas do governo. Quando houve a necessidade na questão do programa do governo, o Partido Socialista esteve lá Quando houve a questão do presidente da Assembleia da República, em que ninguém falou conosco, à segunda ou terceira vez, nós tivemos que ir acudir o governo, neste caso, a maioria parlamentar, porque eles não conseguiam eleger um presidente da Assembleia da República. Quem é que garantiu a estabilidade? O Partido Socialista. Aquando do Orçamento do Estado, quando foi necessário garantir que houvesse Orçamento do Estado, nós impusemos um conjunto de condições, mas apesar de tudo-
Mas a questão é que se os eleitores quiserem. Mas é sempre ser direto.
Sim. O Partido Socialista resolveu, a bem do país, o Orçamento do Estado. O Partido Socialista será sempre um fator de estabilidade para o regime político e garantir que as forças moderadas têm o mínimo de condições para exercer o seu mandato. E foi o que fizemos até agora.
E é para manter essa palavra daqui para frente, mesmo que Luís Montenegro continue à frente do governo.
Agora, quando nós fazemos uma discussão de "ses", eu não sei qual é o programa que Luís Montenegro vai apresentar, se tiver a maioria. Eu não conheço o próximo Orçamento do Estado, que se por acaso, eventualmente, for o PSD a apresentá-lo, que irá apresentar, e portanto, será prematuro fazer este tipo de exercício. O que as pessoas podem contar da parte do Partido Socialista é um exercício de moderação e de responsabilidade. Ora, o exercício de moderação e de responsabilidade é naturalmente contrariado com o documento que nos é apresentado ou a estratégia que nos é apresentada.
E não tanto com a figura à frente do projeto. Se for Luís Montenegro, é mais difícil do PS fazer isso ou é indiferente?
Impossível responder essa pergunta, porque eu não sei quem seria a alternativa a Luís Montenegro.
Se os eleitores decidirem que Luís Montenegro continuasse a primeiro-ministro.
A pergunta que eu faço também é se, por acaso, o Partido Socialista for, como nós achamos, tendo em conta que este governo quer ir a eleições, se o Partido Socialista for a força política mais votada, se os outros partidos viabilizarão um governo do Partido Socialista, mesmo que ele seja minoritário.
Paulo Rangel, hoje em entrevista ao Observador, disse que sim, embora fazendo crer e fazendo ver que era uma opinião pessoal. Portanto, não temos essa resposta por parte de Rangel.
Não é nenhuma opinião pessoal.
Até estou a reforçar a sua posição, no sentido em que ainda nem ouviu Luís Montenegro falar sobre esse cenário.
Sim. O que eu acho extraordinário é nós estarmos inevitavelmente a falar de eleições, quando o Partido Socialista fez tudo para que isso não acontecesse. É um exercício de alguma irresponsabilidade da parte deste governo para não responder a um conjunto de perguntas, ter colocado o país em eleições. Isso é um problema, a meu ver, mas o governo assumirá as suas responsabilidades. Aliás, com campanha, inclusive, nas redes sociais institucionais do governo, em que faz política através de posts com comentários políticos sobre outras forças políticas e sobre este processo, o que a meu ver é lamentável.
Falando agora destas eleições e do que pode acontecer também no PS, em caso de derrota eleitoral, Pedro Nuno Santos fica em causa, corre o risco de serem as últimas legislativas a que concorre?
Eu não coloco este cenário.
De o PS perder.
Nem do PS perder. E se eventualmente não tiver o melhor resultado, não sei porque é que o Pedro Nuno Santos terá que sair.
Acha que pode manter-se mesmo perdendo?
Isso tudo depende. Se ele tiver essa vontade, da minha parte terá o seu apoio.
Mas acha que um líder que perde duas legislativas seguidas, depois tem argumentos junto do partido para continuar? E terá apoio do partido?
Em primeiro lugar, o Partido Socialista, se houver eleições legislativas, o Partido Socialista poderá ganhar. Não faz sentido estar a comentar um cenário em que não o faça. Agora, eu acho que o Pedro Nuno Santos é um bom secretário-geral, é alguém que tem uma boa visão para o país, uma visão diferente desta, e, portanto, não faz sentido estar neste momento a ter essa discussão. Eu percebo a pergunta, mas eu também não quero responder mais do que isso.
Estou ainda nesse cenário só para lhe perguntar, sabemos que é próximo de Pedro Nuno Santos, mas nem toda a gente do PS é, e certamente num cenário desses o partido sairia partido, ou não?
Eu não faço esses comentários por ser próximo de Pedro Nuno Santos. Eu revelo a minha opinião em relação ao próprio, porque conheço Pedro Nuno Santos, o que é diferente.
Mas aqui dizemos próximo politicamente, não é?
E o fato de o conhecer permite fazer uma avaliação, talvez, com maior conhecimento do que outros. Eu acho que ele é um excelente secretário-geral e tem uma visão para o país que o país precisa.
Estava lhe a perguntar no sentido de ter um líder que perde duas eleições seguidas, não pode partir o partido.
Eu acho que o partido neste momento está unido à volta de Pedro Nuno Santos e eu acho que a questão não se coloca. O partido neste momento, aliás, está unido para ganhar as próximas eleições. Infelizmente, vamos ter que as ter.
E nós falaremos do cenário de vitória, e é a nossa promessa.
Eu aguardo.
Mas ainda, para insistir, se Pedro Nuno Santos perder as próximas eleições, o partido não entrará numa convulsão interna? Não haverá quem queira o lugar de Pedro Nuno Santos?
Não lhe consigo responder a essa pergunta.
Tivemos recentemente críticas tão abertas à estratégia de Pedro Nuno Santos, Ana Catarina Mendes, por exemplo.
O que eu lhe posso dizer em relação ao Partido Socialista é que, eventualmente, qualquer cenário, é bom que o Partido Socialista tenha mais que um candidato à sua liderança. Isso demonstra a vitalidade do partido, a força do partido. E o Partido Socialista, se há coisa que se orgulha, é não ter apenas uma corrente, tem várias correntes que, nos momentos certos, unem-se sempre em prol do país. E, portanto, a solução, neste momento, este problema não se coloca, o partido está unido e com vontade de trabalhar junto de Pedro Nuno Santos.
Vamos então para o cenário que naturalmente lhe agrada mais, a vitória nas eleições legislativas. É normal que assim seja. Ainda assim, imaginando que o PS de facto vença as eleições, sem uma maioria de esquerda, como é que governaria?
A graça é que todos os cenários que colocam são sempre os complicados, nunca são os fáceis. Faz parte do vosso trabalho, também faz parte do meu responder. Em relação ao Partido Socialista, o Partido Socialista deve, em primeiro lugar, procurar se há maioria à esquerda. Se não houver maioria à esquerda, o Partido Socialista deve se colocar numa posição em que outros possam viabilizar o seu governo. Atenção, nós temos um governo que neste momento não é majoritário. Este governo é um governo minoritário, não tem maioria absoluta. Portanto, aquilo que nós esperamos é que o PSD faça aquilo que o PS responsavelmente fez. Tão simples quanto isso. Aliás, é uma vantagem da nossa coerência política ter a legitimidade de exigir aos outros que façam aquilo que nós lhes fizemos. Sendo certo que nós não iremos ter trapalhadas como este governo teve, nomeadamente na eleição do senhor presidente da Assembleia da República.
Na quarta-feira, na CNN Portugal, Alexandra Leitão deixou a porta aberta a uma eventual coligação pré-eleitoral à esquerda. Para ser inteiramente justo, disse que era uma questão prematura, mas não a afastou por completo. Qual é a sua opinião?
Eu posso dizer que eu não entendi. Eu posso estar enganado. Eu não entendi as declarações de Alexandra Leitão relativamente às eleições legislativas. Eu percebi em relação à Câmara Municipal de Lisboa, mas posso estar enganado. Mas de qualquer forma, posso dar a minha opinião neste âmbito. Eu acho que o Partido Socialista deve ir sozinho a eleições.
Às legislativas, é esta, estamos a falar desta.
Destas. Deve ir sozinho. Por vários motivos, entre os quais um pela maximização daqueles que são os votos também à esquerda.
O PS tem vários deputados que sairão para ser candidatos autárquicos, mas entretanto o calendário inverteu-se. As legislativas serão antecipadas. Essas pessoas, o caso de Alexandra Leitão, de quem acabamos de falar, devem ser candidatas às legislativas para logo a seguir serem candidatos a autarcas?
Eu confesso que esta é uma discussão que nós temos que ter internamente no Partido Socialista, deve ser colocado nos órgãos certos, nos órgãos com responsabilidade nesta matéria e que exige reflexão, inclusive da minha parte.
Em 2009, por exemplo, José Sócrates definiu como regra que não houvesse uma candidatura nas duas listas. Por exemplo, o Pedro Nuno Santos até acabou por não ir na lista de deputados à conta dessa regra. É uma regra que ele poderia seguir depois de ter sido prejudicado por ela e na altura não a apoiou?
O que eu estava a dizer, eu não tenho opinião fechada sobre o assunto. Eu acho que essa reflexão deve ser feita tendo em conta as circunstâncias. Eu sei o que é que vou fazer nos Açores, no caso em particular, o que é que já foi decidido. No caso dos Açores, nós não teremos candidatos à Assembleia da República que sejam ao mesmo tempo candidatos a Câmaras Municipais. Acho que no caso dos Açores não faz sentido, mas o país é grande e os órgãos do partido devem fazer essa apreciação para perceber qual é a melhor solução. Eu, neste momento, confesso que em relação à estratégia nacional, ainda não fiz essa reflexão.
Não sei se já refletiu sobre isto. O PS vai apresentar o mesmo programa eleitoral ou era boa altura para uns ajustes?
Eu acho que um programa eleitoral tem que ser sempre ajustado, até porque a situação do país agora não é a mesma situação do país há cerca de um ano. Agora, a identidade é a mesma, a base deve ser a mesma.
Alguma questão que veja como urgente, tendo em conta o ano que passou, que precise de alterar.
Eu acho que, por exemplo, na área da saúde. Vamos a ver. Esta situação que o governo nos colocou e que paralisou o país, que paralisou a governação. Aliás, fez com que o governo, inclusive, não tivesse ido a algumas cimeiras, ou pelo menos uma, e que nós não conheçamos bem a opinião do primeiro-ministro sobre parte do que se passa no mundo, mas também permitiu ao governo, por exemplo, fazer sobreviver a ministra da Saúde, que noutra qualquer circunstância já não era ministra da Saúde. Uma ministra da Saúde que não avisa o INEM da greve.
Acha que foi salva pelo caso do primeiro-ministro?
Sim, neste momento, isto demonstra que o governo está paralisado. Isso também demonstra que a situação caótica que se vive na área da saúde obriga a que o nosso programa, por exemplo, nesta área, deva ser reforçado.
Deixe-me perguntar-lhe também a propósito do Presidente da República, da atuação que tem tido, se acha que um Presidente da República devia ser mais interventivo nesta fase e se seria importante exigir condições de governabilidade a quem ficar à frente nas próximas eleições para evitar que haja mais um minicíclo.
Eu acho que o Presidente da República deve cumprir as suas obrigações constitucionais.
Não mais do que isso?
Nem menos.
Ou depende como é que isso se concretiza?
Nem menos do que isso.
Fazer essas exigências faz parte do papel?
Um presidente da República, em primeiro lugar, deve cumprir aquilo que está na Constituição. Ou seja, nós temos um sistema político que é claro do ponto de vista daquilo que deve ser a governabilidade e daquelas que são as soluções do governo. Houve momentos em que eu acho que essa coerência, ou digamos, em que esse exercício ou interpretação daquilo que são as competências constitucionais, não foi levado à letra.
Está a falar de Marcelo ou está a falar ainda de Cavaco Silva em 2015?
Estou a falar de Marcelo Rebelo de Sousa.
É que Cavaco Silva em 2015, por exemplo, exigiu um acordo escrito. Isso está dentro dos poderes, do exercício dos seus poderes ou vai além?
Não estava na altura. E de tal forma que Marcelo Rebelo de Sousa a seguir não fez essa exigência. Da mesma forma que o nosso sistema não é um sistema que obrigatoriamente exija que seja o mesmo primeiro-ministro a estar em funções. Mas em boa verdade, a partir do momento em que o Presidente da República toma esta decisão Numa determinada altura, como fez com António Costa, quando decidiu não aceitar outro nome para além de António Costa, agora não pode ter dois pesos e duas medidas. Portanto, se não aceitou Mário Centeno, agora também não poderia aceitar outro primeiro-ministro. O erro, a meu ver, está quando toma a primeira decisão. Porque nós temos um sistema parlamentar, um sistema constitucional muito claro. A partir do momento que é tomada esta decisão, não tem outra hipótese. Tal como não é obrigatório, quando um governo não tem orçamento, que necessariamente este governo seja demitido ou a assembleia seja dissolvida. Mas a partir do momento que se toma essa decisão uma vez, por uma questão de coerência, tem que se continuar a tomá-la.
Estes casos do último mês, acha que podem criar algum tipo de problema, e o clima que têm criado, podem criar algum tipo de problema ao candidato presidencial que o PS parece preferir, António Vitorino?
Gosto imenso da pergunta, porque ela tem duas nuances. Bom, neste momento deixaram de falar de presidenciais. Aliás, calculo que no PSD Luís Marques Mendes deve estar bem arrependido de ter saído da SIC e de ter entrado na disputa presidencial, porque neste momento ninguém quer saber. O Partido Socialista tem uma posição oficial, é que vai apoiar um candidato, seja António Gedeão, seja António Vitorino, seja outro que se perfilhe dentro daquilo que tem a ver com candidatos naturais do próprio Partido Socialista. Eu não escondo que gosto do perfil de António Vitorino e que ele seria naturalmente um bom candidato. Aliás, vou tê-lo nos Açores daqui a duas semanas, não neste âmbito, mas noutro âmbito, numa academia socialista.
Espera que ele apresente a candidatura aí ou pelo menos dê um sinal?
Espero que ele faça aquilo que combinamos, que é dar uma aula junto de jovens do Partido Socialista sobre a importância da cidadania e da participação política. É isso que espero. Sobre a sua possibilidade de candidatura, se existir, será bem-vinda, pelo menos da minha parte, falo em meu nome. Não havendo a candidatura de António Vitorino, o que o Partido Socialista decidir será naturalmente aquilo que o PS dos Açores, a meu ver, deverá seguir.
Mas só insistindo na pergunta, que se António Vitorino já era uma figura que parecia estar hesitante na entrada da corrida.
Eu não sei se parecia, esta é uma opinião que eu não partilho.
Acha que poderá dar este passo depois de tudo isto estar a acontecer, quando até dentro do próprio Partido Socialista, por exemplo, Ana Gomes chama a atenção para o seu passado de advogado lobista, estou a citar.
Não, eu acho que são declarações infelizes da Ana Gomes.
Acha que não vai haver nenhum problema para António Vitorino desse ponto de vista? Nem que possa desaconselhá-lo ou ele mesmo a ter menos vontade de entrar, voltar à carreira política.
O que eu lhe posso dizer é que o perfil do António Vitorino não é alguém que chegou agora à política. É alguém que nós conhecemos bem desde que foi ministro de António Guterres e que desempenhou funções de comissário europeu, que teve funções ao nível de instituições internacionais, que prestigiaram Portugal. Posso falar dele, como posso falar de outras pessoas que também foram ministras de António Guterres e que inclusive foram secretárias-gerais do Partido Socialista e que também prestigiaram o país. Agora, eu acho que qualquer destas duas personalidades, são duas personalidades que, antes pelo contrário, orgulham o Partido Socialista. O governo tem um problema, o governo cria um problema, e necessariamente cria um problema para o país quando vamos ter eleições. E a consequência que retiramos é achar que as candidaturas presidenciais do Partido Socialista estão afetadas? Não, acho que não.
A nossa pergunta vai no sentido do clima que está criado. Sabemos que António Vitorino teve até como advogado um percurso muito ligado às principais empresas deste país e, portanto, isso pode ser eventualmente usado como arma de arremesso político pela oposição.
Vamos ser claros. Ter ligações a empresas, sobretudo que não se exercia qualquer outro tipo de atividades. António Vitorino foi alguns anos ministro, eu não me lembro bem quantos foram, se foram três anos ou quatro anos. Acho que foram três.
E até acabou por se demitir por um caso...
Eu tinha 17 anos. Não, o que ele saiu foi por causa de um caso que se percebeu na prática, salvo erro, da sisa da sua habitação, que na prática não havia problema nenhum. Veio-se a saber anos mais tarde. Agora, também assumiu aquilo que é a obrigação de um governante. No momento em que há dúvidas, sai. Elas foram esclarecidas. Entretanto, esteve uma atividade também no privado. Isso é legítimo. Repare, o problema do primeiro-ministro
Aparentemente pra Ana Gomes, por exemplo, não é. Daí a nossa pergunta.
Eu acho que a Ana Gomes tem momentos que eu aprecio e tem muitos momentos que não aprecio. Inclusive, foi ao meu congresso nos Açores, coisa que agradeço. Neste caso em particular, acho que foi infeliz.
Se calhar já não volta a ir.
Não sei, eu apenas disse há momentos que aprecio, outros momentos que não. Em relação a António Vitorino, é preciso distingui-lo. Isto não pode ser tudo corrido exatamente como se diz na minha terra, a ethos. O caso do primeiro-ministro não tem nada a ver com o facto de ele ser um empresário. Tem a ver com o fato de nós não sabíamos que era um empresário e que pelos vistos continuou a ser empresário, mesmo que indiretamente, enquanto era primeiro-ministro. Isto é que é grave. Ter vida antes da política não faz mal nenhum. Ter vida depois da política também não faz mal nenhum, desde que cumprida a lei. Ter uma vida privada enquanto está na política e no exercício de funções de primeiro-ministro, isso sim, é um caso complicado e que deve ser questionado.
E pegando no seu mote, nós também temos vida para lá desta entrevista. No caso, Francisco César está com um calendário apertado e, portanto, temos que acelerar e entrar na segunda fase da nossa entrevista, o bloco Carne ou Peixe. Venha daí a trilha. Com quem preferia fazer dupla numa partida de Padel? Duarte Cordeiro ou Pedro Nuno Santos?
Depende do tempo que eu tiver para jogar. Geralmente costuma ser uma hora e meia. Eu podia fazer 45 minutos com o Duarte Cordeiro, 45 minutos com o Pedro Nuno Santos. Sou amigo dos dois e admiro os dois. E somos colegas de faculdade, os três.
Se tivesse o azar de trocar malas numa passadeira rolante no aeroporto, com quem é que teria menos problemas se isso acontecesse? José Luís Carneiro ou Fernando Medina?
Não tinha problema nenhum de trocar com nenhum. Sou amigo dos dois, inclusive.
Não consegue escolher um? Com quem teria menos problemas?
É que eu ando sempre de mochila. Eu não ando de malas. Ainda bem. Quando vou para os Açores nunca vou de mala. Isso safou-me provavelmente duas, três malas todas. Vou sempre de mochila.
Quem é que preferia receber nos Açores numa futura visita presidencial? António José Seguro ou António Vitorino?
Boa pergunta. Aquilo que o PS escolhesse.
Há pouco respondeu que teria preferência por António Vitorino.
Tenho uma preferência por António Vitorino, mas receberia com muito bom gosto alguém que fosse socialista e mesmo que não fosse socialista, receberia também de bom gosto.
Muito bem, Francisco César, como é hábito no nosso programa, o nosso convidado pode escolher uma sobremesa, no caso, uma música. Que música é que nos traz e por quê?
Há uma música que eu gosto muito, que se chama "Black", do Pearl Jam. É uma música geracional, mas intemporal ao mesmo tempo. É uma música que nos meus momentos mais particulares, eu canto. Pouca gente ouviu, um dos poucos que ouviu foi o meu filho. E no nosso alive do ano passado, eu levei o meu filho de 12 anos comigo para ver os Pearl Jam. E quando estávamos a ouvir esta música, ele olha para mim e disse: "Pai, tu cantas isto?" Eu disse: "Pois canto." Mas ele diz: "Eu canto melhor." E muito melhor. Apesar de já ter a sua idade, o Adivader já está num ciclo um pouco descendente. A música foi extraordinária e ele adorou. E foi um momento que eu partilhei com a minha família, com a minha mulher, e gostei. E quando me perguntaram uma música, eu lembrei-me dessa, porque traz-me boas recordações.
Pode acompanhar a cantar aqui também.
Eu não vou fazer isso.
Vamos tentar acabar.
As pessoas gostam das vossas audiências e não vou espantar.
E vamos acabar com uma nota bonita, em vez de um exercício um bocadinho arriscado. Francisco César, muito obrigado por ter vindo a esta Vixiçuas. Os nossos ouvintes já sabem, podem ouvir-nos na Rádio Observador e nas plataformas habituais, ou então lerem esta entrevista no site do Observador. Até à próxima.