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Pelo referendo, a Catalunha reclama o Dia Nacional mais reivindicativo de sempre

Passaram 300 anos desde que a Catalunha deixou de ser independente, às mãos de Felipe V. Muitos catalães querem mais no reinado de Felipe VI e foram para a rua pedir o referendo.

As principais artérias de Barcelona começaram ao início da tarde a encher-se de pessoas que exigem a realização do referendo à independência da Catalunha, previsto para o próximo dia 9 de novembro. Assinala-se esta quinta-feira o Dia Nacional daquela região autónoma (Diada, em catalão), uma jornada fortemente marcada pelas aspirações independentistas, ainda mais porque se cumpre este ano o tricentenário da tomada da Catalunha pelo exército da coroa espanhola.

Sob o lema “Está na hora” (“Ara és l’hora”, em catalão), as pessoas que enchem Barcelona – e que chegaram à cidade em centenas de autocarros provenientes de toda a Catalunha e não só – organizar-se-ão para formar um enorme V – de voto – em duas das mais simbólicas ruas da cidade: a Avenida Diagonal e a Gran Via.

Pode ser a Diada com o maior pendor independentista de sempre. Depois de, em 2012, um milhão e meio de pessoas ter estado nas ruas e de, em 2013, se ter feito um cordão humano em toda a Catalunha que uniu cerca de 350 mil protestantes, este ano a Assembleia Nacional da Catalunha (ANC), que luta pela independência da região, aguarda a participação de pelo menos 500 mil pessoas e afirma mesmo que será a maior manifestação de sempre na Europa.

Esta manhã, antes das cerimónias protocolares de homenagem aos soldados catalães mortos na tomada de Barcelona, em 1714, o presidente da Generalitat, Artur Mas, reforçou a ideia de que “está tudo pronto” para a realização do referendo.

Todos os esforços estão postos no 9N, as energias também”, disse Mas, que garantiu: “Daqui não nos moveremos, porque temos de concentrar todos os esforços no 9N. Temos tudo pronto”.

A resposta de Madrid não se fez esperar e veio na mesma moeda. “Tudo está preparado” para que a lei se cumpra e o referendo não se realize, afirmou Alfonso Alonso, do Partido Popular, ao El Periódico, pedindo ainda a Mas que “reflita” sobre se quer, no próximo ano, uma Catalunha partida ou “que esteja unida, na qual haja uma melhor convivência (…) e se trabalhe para resolver os problemas diários dos catalães”.

Também o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, apelou à “unidade” do país, mas não se referiu diretamente às reivindicações catalãs. Falando aos jornalistas junto a uma organização nacional de transplantes de órgãos, Rajoy afirmou que “a solidariedade é a melhor manifestação da identidade espanhola”.

Por seu turno, o presidente da câmara de Barcelona, Xavier Trias, publicou um artigo de opinião no Guardian em que defende o direito à realização do referendo e compara a situação da Catalunha com a da Escócia.

Os nossos desejos na Catalunha devem ser respeitados, tal como o Governo do Reino Unido respeitou os da Escócia. Mas o Governo de Madrid, ao contrário do de Londres, ignorou completamente as nossas aspirações, recusando-se a discutir como elas poderiam ser atendidas”, escreve Trias.

Lembrando que nas últimas eleições regionais, em 2012, 70% dos catalães votaram em partidos favoráveis à independência, Xavier Trias acrescenta que “imediatamente ao referendo da Escócia, o presidente da Catalunha assinará um decreto a convocar” o plebiscito na região. “Tal como na Escócia, o nosso processo será pacífico, democrático e legal, respeitando o direito do povo catalão de expressar a sua opinião nas urnas”, afirma.

Mas nem todos os catalães são a favor da independência ou sequer do referendo. Alguns formam grupos muito particulares: esta quinta, uma manifestação convocada pela Aliança Nacional, um grupo de inspiração extrema-direita, reuniu algumas centenas de pessoas em dois bairros de Barcelona. Em resposta, cerca de 200 pessoas fizeram uma manifestação anti-facista na mesma zona. A polícia esteve fortemente representada no local, mas não houve incidentes para além de insultos entre as duas fações, relata a Barcelona Televisió.

Há trezentos anos, as tropas de Felipe V, rei de Espanha, puseram fim a um cerco de 14 meses à cidade de Barcelona, iniciando a invasão que marcaria também o ponto final de um curto período em que a Catalunha foi, de facto, independente. Para assinalar a data, ao longo de todo o ano de 2014 a Generalitat tem promovido dezenas de eventos culturais.

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