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Imre Kertész, actor de uma peça insensata

Após a morte do Nobel Imre Kertész, Nuno Costa Santos escreve sobre “Sem Destino”, o romance que traduz em ficção a sua experiência nos campos de concentração nazi.

Kertész na Berlinale, em 2005, quando foi apresentado o filme "Sem Destino", baseado no seu livro

Getty Images

Autor
  • Nuno Costa Santos

“Sem mais delongas, virou-se para os guardas e ordenou-lhes, num vozeirão que ecoou por toda a praça, que levassem ‘toda a escumalha de judeus’ para o sítio que, em sua opinião, dizia melhor com eles – para a cavalariça –, e aí os fechassem durante a noite”. No final do terceiro capítulo de “Sem Destino”, descreve-se o momento no qual um militar imponente, de botas de cano alto, ordena a detenção de um grupo de homens, entre os quais está um adolescente húngaro de 15 anos, György Köves, protagonista e narrador de Sem Destino (Presença, 2003). Qual a reacção do rapaz? Gritar, chorar, congelar? “Só me ocorre que, durante esse tempo, me apetecia rir um pouco, por um lado, devido ao espanto e à confusão de me ver no meio de uma peça insensata, em que desconhecia o meu papel”.

sem destino

Kertész, nascido em 9 de Novembro de 1929, recusou mais tarde que Sem Destino, publicado em 1975, fosse um livro autobiográfico mas a verdade é que as rimas entre o que é contado e um certo período da vida do escritor são demasiado evidentes para não serem valoradas. Ernesto Rodrigues, tradutor para português deste livro que vendeu 8 mil exemplares em Portugal (e de outros quatro livros do autor), também acha que a distância entre a ficção e a realidade é frágil. “Ele também foi para os campos de concentração em idade juvenil e teve experiências semelhantes às que são narradas”.

Ainda no início do livro, o protagonista não é cumprimentado pelo padeiro nas ruas da sua cidade, Budapeste. “Pois sabem todos no bairro que ele não gosta de judeus.” A antipatia ainda se manifesta num pormenor decisivo: “Também por isso, cortou-me uns bons gramas a menos.” É nesse instante que o rapaz percebe porque é que o homem não podia gostar de judeus: “É que teria a desagradável sensação de que os vigarizava.”

Um tio, durante uma visita à casa de família, antes de o pai seguir para um “campo de trabalho”, diz ao adolescente: “Tu partilhas também o destino dos judeus”, um destino de perseguição que deveria ser aceite “com paciência e resignação”. Segundo esse tio, Lajos, essa aceitação de um estatuto de perseguido devia ser pacífica porque trazia fundamento divino. “Deus enviou-lhes esse castigo por pecados antigos, e, por isso, só d’Ele se pode esperar a misericórdia.” E ao rapaz caberia a partir daquele momento o papel de “chefe de família”. O rapaz e o tio acabam a rezar pelo pai que se vai embora. Só que o rapaz nada entende do hebraico que repete (“não conheço essa língua”). O fundo de absurdo instala-se na narrativa.

Uma linha e meia

Ernesto Rodrigues, que foi leitor de português na Hungria entre 1981 e 1986, conta que quando o livro saiu não teve impacto algum e que nos anos em que viveu no país ocupado pelos nazis em 1944, e depois liderado por uma ditadura comunista, percebeu que o autor e a obra eram pouco considerados. Os dicionários literários oficiais do país só lhe dedicavam “uma linha e meia”. Só mais tarde é que veio o reconhecimento – que lhe chegou de uma atenção que teve na Alemanha, país que o acolheu e que se interessou pela sua voz.

Depois de ter saído dos campos de concentração, a vida de Imre não foi fácil. “Ele nunca foi bem aceite”, refere o tradutor de Kertész e de outro húngaro maior, Sándor Márai, autor da obra-prima As Velas Ardem Até ao Fim (Dom Quixote, 2006). Após uma breve experiência no jornalismo, dedicou-se a, entre outras actividades, traduções e ao teatro.

Isso é contado nos seus diários: Sem Destino, sendo um livro relativamente pequeno, sem ganga, começou a ser escrito nos anos 60. O seu tom é de uma sobriedade surpreendente para quem viveu uma experiência tão extrema nos campos de concentração de Auschwitz, Buchenwald e Zeitz (lugares por onde passa o protagonista). As descrições de humilhações, de enxovalhos, de fome são várias mas há passagens no livro que desconsertam por irem além do óbvio. Esta, por exemplo, do quinto capítulo:

No início, senti-me, posso dizer, como um convidado na prisão, o que é compreensível e, na minha opinião, pode corresponder aos hábitos enganadores que são, em última análise, os da condição humana”

Na descrição que faz da vivência em Zeitz, György deixa cair uma nota de quem já mastigou a experiência, remetendo para um ambiente que poderia ser descrito em termos semelhantes por Franz Kafka: “Só em Zeitz percebi que mesmo o cativeiro tem a sua rotina, que o verdadeiro cativeiro não passa, no fundo, de um quotidiano cinzento”. Na altura da libertação, vestindo umas calças verdes do exército americano, as marcas do sofrimento são reveladas nestes termos: “Quando mergulhava o dedo num qualquer sítio da minha carne, aí ficava durante muito tempo a marca, como se eu tivesse mergulhado numa espécie de matéria sem vida, sem elasticidade, em queijo ou cera, digamos.” O seu rosto, ao olhar-se ao espelho, surpreendeu-o porque mantinha a lembrança de um outro rosto. “Eu tinha na memória um olhar mais amável, que inspirava mais confiança, diria”.

Nova vida antiga

No regresso a casa, onde não encontra ninguém, está consciente de que não tem de procurar uma nova vida mas sim retomar uma vida antiga. E experimenta o sentimento de aceitação, não necessariamente relacionado com as palavras de aviso do tio, Lajos. Uma aceitação de outro tipo.

Não há absurdo que não se possa viver naturalmente, e, no meu caminho, já sei, espreita-me, qual armadilha inelutável, a felicidade”

Ernesto Rodrigues toca nesse ponto surpreendente: em vez de uma mágoa absoluta e inultrapassável, o rapaz tem saudades dos tempos de convívio nos campos de concentração, do companheirismo de gentes de várias nacionalidades a respirar o mesmo instante medonho.

Escreveu 15 livros. O seu tradutor português assume a sua preferência por A Recusa (Presença, 2007), no qual Imre se demora sobre o trabalho de escritor. Aqui e ali vão-se apagando os sinais de luminosidade. Ernesto Rodrigues relembra: “Chega a escrever que depois da experiência dos campos de concentração não vale a pena ter filhos” – e de facto não os teve. Sentença que, sim, faz lembrar a inesquecível frase de Adorno: “Escrever um poema depois de Auschwitz é bárbaro.” A certa altura, começa a interessar-se por Fernando Pessoa e usa como epígrafe de um livro uma frase de Bernardo Soares. Em “Um Outro, Crónica de uma Metamorfose” escreve: “Tudo, em mim, adormece, imóvel e profundamente. Vou remexendo os sentimentos, e os meus pensamentos, como num tambor de alcatrão tépido.” Esta quinta-feira morreu um homem que, de forma solitária, pausada e elegante, procurou um sentido dentro da brutalidade de um desassossego histórico.

Nuno Costa Santos, 41 anos, escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.

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