Nostalgia

Come a papa, Joana come a papa. A Nestlé faz 150 anos

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Cerelac, Pensal ou Nestum não são apenas papas, são memórias. Cada um destes produtos constrói a história das nossas infâncias. Afinal, a Nestlé já cá anda há 150 anos, a dar-nos comida à boca.

Autor
  • Joana Emídio Marques

Se lhe perguntarem a que sabe a sua infância é bem provável que a sua memória gustativa e afetiva se lembre de imediato do Nestum com mel, da papa Cerelac, da farinha Pensal, do leite com Nesquik ou Suchard Express, ou dos pequenos-almoços de leite com Mokambo ou com os cereais Corn Flakes. Manhãs atribuladas a caminho da escola, lanches feitos a correr na pressa de ir brincar e, claro, os jingles dos anúncios de televisão entre os desenhos animados.

Mas se estas parecem ser memórias possíveis apenas para quem viveu no Portugal dos últimos 40 anos, isso não é verdade, porque os produtos da Nestlé fazem 150 anos e já estão em Portugal há 93. São muitas gerações ligadas pelo génio do senhor Henri Nestlé — que em 1886 inventou a primeira farinha láctea capaz de substituir o leite materno — e depois por Egas Moniz, o nosso Prémio Nobel da Medicina que trouxe os produtos da marca para Portugal em 1933.

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Henry Nestlé, farmacêutico da Suíça de língua alemã que em 1896 inventou a farinha láctea.

Os produtos foram um sucesso em Portugal e cá foi realizado um dos anúncios publicitários que fez história nesta marca que está presente em todo o mundo. O anúncio foi feito pelo suíço residente em Portugal Fred Kradolfer, um dos pioneiros do design gráfico no nosso país. A sua publicidade aos produtos Nestlé é uma pérola da arte modernista.

 Anúncio dos anos 30, às farinhas e ao leite condensado da Nestlé

Anúncio dos anos 30 às farinhas e ao leite condensado da Nestlé.

Se há uma marca alimentar associada ao universo da infância é a Nestlé. Desde logo com o leite em pó que salvou a vida de milhares de crianças que não podiam beber leite materno. Mas isto foi só o início, porque depois vieram as papas: a farinha Nestlé, a farinha Pensal (esta exclusivamente portuguesa, recebeu o nome do Lugar de Pensal, Estarreja, onde fica a fábrica), a Cerelac, o leite Nido, os Bledines, as bebidas achocolatadas como o mítico Milo, o Nesquik, o Suchard Express, e mais tarde os cereais de pequeno-almoço como os Corn Flakes, Chocapic e Estrelitas.

Mas a marca também está associada a guloseimas inesquecíveis (e inescapáveis) como o leite condensado, os Smarties, os famosos chocolates Nestlé — ainda consegue cantar o jingle do anúncio dos anos 80? “Chocolates Nestlé/ chocolate encanto/ chocolate sonho/ uma boa tentação” –, o KitKat, o Lion, o Crunch, os gelados Camy, o After-Eigth…

Desde a chegada dos produtos suíços à fábrica de Avanca, onde Egas Moniz, inspirado pelo farmacêutico Henri Nestlé, já tinha criado a sua própria fábrica de produtos lácteos destinados a diminuir as altas taxas de mortalidade infantil em Portugal, que os produtos, em especial o leite em pó e as papas, passaram a fazer parte da alimentação de milhares de crianças. E se muitos confessam que têm saudades dessas papas e por vezes surripiam uma colherada do prato dos filhos, outros há que nunca deixaram de comer Nestum com mel, ou Bledines de fruta. Porque, na verdade, a infância “é quando um homem quiser”.

Nestlé, a revolução da comida “basta juntar água”

Nestlé é uma palavra alemã que significa “pequeno ninho”, daí que o logótipo da marca seja uma réplica do brasão da família do senhor Nestlé: um ninho com três pequenos pássaros. Esta imagem passou a ser um dos símbolos do universo materno-infantil do século XX e está na origem de uma pequena revolução: a criação das refeições “basta juntar água”, ou as “refeições salva-vidas”.

As farinhas lacteas da Nestlé foram trazidas para Portugal pelo médico Egas moniz

As farinhas lácteas da Nestlé foram trazidas para Portugal pelo médico Egas Moniz, em 1933.

Se a farinha láctea salvou muitos bebés, o leite condensado (inventado pela Anglo Swiss Condensed Milk Company, que a Nestlé adquiriu em 1905) salvou muitos homens nas trincheiras da 1ª Guerra Mundial. As farinhas à base de cereais, ou as comidas fechadas a vácuo passíveis de serem conservadas durante muito tempo, adequavam-se perfeitamente ao estilo de vida moderno que florescia nas cidades. Entrava-se no mundo do “basta juntar água”, como os cubos Maggi ou as bebidas quentes à base de cereais torrados — Mokambo, Bolero, Tofina, Brasa, que sabiam a café mas eram mais baratas e mais alimentícias. Mas o rei destas bebidas é, claro, o Nescafé, o café solúvel que se tornou uma das bebidas com mais sucesso no mundo.

E se as papas no evocarão para sempre o mimo materno das mães e das avós, o ninho da infância, o Nescafé era outra história: representava emancipação. Beber um Nescafé (no tempo em que não havia máquinas Nespresso, claro), era todo um ritual que começava com o abrir do pacotinho em forma de pirâmide, juntar umas gotas de água e açúcar e mexer, mexer até fazer muita espuma. Só depois disto se enchia a chávena de água. Não conseguir fazer um Nescafé com espuma era um falhanço que qualquer um odiava.

Para os mais velhos o sonho era ter uma vida aventureira e uns aparelhos tipo MacGyver e fazer um café ao amanhecer, como neste anúncio que nos colocou a todos a cantar a música do Jimmy Cliff. Lembra-se?

Hoje, com o século XXI a avançar fulgurosamente, há tantos produtos diferentes, tantas marcas, tantos e tão diferentes paradigmas em relação à alimentação infantil, que é provável que as “papinhas”, as guloseimas e o leite em pó para crianças se tornem coisa do passado. Talvez o ninho da Nestlé esteja destinado a ser só mais um logótipo entre tantos outros. Por isso, vale a pena aproveitar os 150 anos desta marca, que se tornou um modo de vida da pós-modernidade, para recordar um pouco desse passado recente na fotogaleria no topo da página.

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