Igualdade de Género

A natureza manda os homens usar saias

Autor
500

Confesso alguma dificuldade em perceber por que é este assunto tão difícil. É assim tão complicado de perceber que a biologia implica diferenciação, mas não discriminação?

Na semana passada, recebemos a notícia de que a Porto Editora iria repor no mercado os seus livros de actividades para meninos e raparigas. Saúdo essa decisão. Até esse momento, enquanto pairava a sombra de ter havido censura, sentia-me moralmente impedido de criticar estes cadernos de actividades. Como criticar um livro censurado pelo poder político? Censurado talvez seja uma palavra demasiado forte, como se veio a constatar, mas é um facto que tinha sido retirado do mercado por pressão política. E considero isso inadmissível. Recomendações da Comissão para a Igualdade de Género são bem-vindas, orientações de ministros para retirar livros são inaceitáveis. Agora, com a circulação reposta, posso dizer o que penso sobre os livros.

Um aspecto pouco referido é que os cadernos são estupidamente fáceis, não representam qualquer tipo de desafio para uma criança de 5 ou 6 anos. De certa forma, são quase fraudulentos: fica um pai convencido de que a sua criança de 3 anos é um génio, por resolver com a maior das facilidades exercícios de um livro “adequado” para petizes de 6 anos. E um livro, mesmo que de actividades, deve fazer-nos mais inteligentes e não mais burros.

A polémica sobre estes livros começou com uma foto de dois exercícios similares, mas que no livro dos meninos era bastante mais difícil que no das raparigas. A polémica começou mal porque começou com algo perfeitamente acessório e casual. É evidente que ninguém (excepto um completo javardo) iria fazer livros com graus de dificuldade muito diferentes para meninos e raparigas. Obviamente que isso apenas podia resultar de um acaso, de uma descoordenação entre autores ou de algo que seria compensado com outros exercícios em que a dificuldade relativa se invertesse. E, reafirmo, falo em dificuldade relativa, porque tudo aquilo é estupidificante de tão fácil.

Apesar de mal focada, a polémica teve um efeito engraçado, se bem que um pouco previsível, que foi o de muita gente reagir dizendo que as raparigas são muito mais espertas e inteligentes do que os meninos e que portanto deveriam ser elas a fazer os exercícios mais difíceis. Aliás, para muita gente só existe um problema se forem as raparigas a ser maltratadas. Interpretam a discriminação de género como algo que apenas é relevante se prejudicar as raparigas. Isso mesmo podemos perceber na defesa que a Porto editora fez do livro, argumentando que as autoras eram todas mulheres, e no relatório que escreveu e que passo a citar: “- Na atividade 3, enquanto a Sara vai a um museu, o Pedro está simplesmente na rua a olhar para um prédio. – Na atividade 4, a Marta gosta de ler (atividade mais complexa), enquanto o Guilherme brinca com carrinhos.” E, já que tanta gente defendeu a Porto Editora com base no que disse o Ricardo Araújo Pereira no Governo Sombra, permito-me citá-lo também: “Há estereótipos de género nos cadernos? Há. De facto, o universo das meninas é tendencialmente o das princesas, o dos rapazes o dos piratas (…) as meninas fazem bastantes vezes actividades domésticas e os meninos actividades de ar livre (…). Há estereótipos de género nocivos para ambos os lados.”

(O vídeo pode ser visto aqui.)

E esta é a questão fundamental. Uma das coisas que mais me diverte quando explico a alguém por que defendo políticas de igualdade de género é explicar que o faço por motivos puramente egoístas e não para ser bonzinho. Como homem, e só por ser homem, sei que, se me divorciar, a probabilidade de ficar eu com as minhas filhas é severamente reduzida. Isto é assim independentemente de tudo o que eu possa alegar a meu favor em tribunal de família — e isto apesar de começar a ser comum o princípio da guarda partilhada dos filhos. Também sei que, se tiver um filho, em vez de uma filha, a probabilidade de ele se envolver em rixas de rua e acabar espancado ou morto é maior, ou de se envolver em gangs, ou de ir parar à prisão, ou de ser mau aluno, porque estudar é coisa de rapariga, e por aí fora. Quanto às mulheres, são prejudicadas no mercado de trabalho, são as cuidadoras preferenciais, são mais vítimas de assédio (e de violações), metem-lhes na cabeça que valem sobretudo pelo aspecto, etc.

Como professor universitário, há uma estatística que salta à minha vista praticamente todos os dias: a percentagem de raparigas que entra no ensino superior por contraponto aos meninos. Nas minhas aulas de economia, tipicamente, a proporção é de duas para um. E vejo muito pouca gente preocupada com isso. O abandono escolar entre meninos é muito maior do que entre raparigas. Seja porque o ensino secundário está muito feminizado (há muito mais professoras do que professores, por exemplo), seja porque os meninos têm melhores alternativas de emprego cá fora, seja porque não é cool os meninos estudarem, seja porque os pais têm expectativas diferentes, seja porque os cérebros são diferentes, ou porque as raparigas amadureçam emocionalmente mais cedo, a verdade é que até aos 18 anos são crianças e nós, enquanto sociedade, estamos a falhar para com eles. Este falhanço é ainda mais grave porque é cada vez mais provável que as profissões do futuro exijam pessoas academicamente bem preparadas. Mas, como muita gente confunde discriminação de género com as raparigas serem discriminadas, discute-se muito mais o facto de haver menos raparigas nos cursos de engenharia do que meninos nos cursos de medicina ou no ensino superior em geral.

Mas temos de obrigar os sexos a ser iguais? Não os podemos deixar ser diferentes? Não, não temos de os obrigar a ser iguais, mas também não temos de os obrigar a ser diferentes. Todos podemos concordar em ser a biologia um factor importante (basta olhar para as várias espécies de mamíferos), mas também é óbvio que a socialização é importante. Além disso, as sociedades humanas há muito que deixaram para trás o determinismo da biologia. Se assim não fosse, seriam os homens a usar saias, para arejar os seus órgãos genitais, que são externos precisamente para estarem a uma temperatura mais baixa do que o resto do corpo — razão têm os escoceses, portanto. Ou, usando outro exemplo, se, realmente, há razões biológicas para os homens serem mais criminosos do que as mulheres (justificando assim o facto de haver muito mais homens que mulheres nas prisões), não faz qualquer sentido não tentar contrariar a biologia por via da socialização e educação.

Mas voltamos ao mesmo, qual é o problema de haver livros de actividades para meninos e raparigas? É muito simples argumentar que lá por ler aqueles livros a rapariga não é impedida de ir, por exemplo, para astronomia. E é verdade que não é impedida, mas é condicionada. Quer a rapariga quer o menino. Negar isso é negar a ciência. Os adversários da igualdade de género gostam muito de citar estudos científicos que mostram que, desde tenra idade, os meninos e as raparigas têm gostos, interesses e comportamentos diferentes. E é verdade, esses estudos existem. Mas há também vários estudos, totalmente credíveis, publicados nas melhores revistas, a demonstrar que o lado da socialização é também importante e condicionador. Só para dar um exemplo, este ano foi publicado um estudo na mais prestigiada revista científica, a Science, intitulado “Gender stereotypes about intelectual ability emerge early and influence children’s interests”, no qual Lin Bian (University of Illinois), Sarah-Jane Leslie (New York University) e Andrei Cimpian (Princeton University) demostram que desde os 6 anos de idade as raparigas passam a evitar actividades que são para crianças brilhantes («really, really smart»), isto apesar de mais tarde terem consciência que são melhores alunas. Ou seja, ficam com a ideia sobre si próprias de que não são brilhantes, são aplicadinhas. Estes livrinhos da Porto Editora são mais uma peça na construção destes estereótipos que em vez de aumentarem a liberdade das crianças a condicionam. Enquanto livros educativos, falham rotundamente a missão de educar. Volto pois a dizer que acho muito bem que vendam estes livros; mas acho ainda melhor que ninguém os compre.

Confesso alguma dificuldade em perceber por que é este assunto tão difícil. É assim tão complicado de perceber que a biologia implica diferenciação, mas não discriminação? Como dizia Vera Gouveia Barros no Facebook, é normal, razoável e perfeitamente explicável que os anúncios de pensos higiénicos tenham mulheres e os de lâminas de barbear tenham homens. Do mesmo modo, se numa colónia de férias puser protector solar 50 aos meninos caucasianos e 30 aos meninos negros, não estarei a discriminar. Mas é racismo bastante evidente mandar os brancos nadar e os negros correr.

Quando se educa uma criança o objectivo deve ser aumentar-lhe a liberdade. Alargar os seus horizontes, ampliar as suas possibilidades de escolha. É um facto que os negros ganham muito mais medalhas do que os brancos no atletismo, tal como é um facto que os brancos ganham muito mais medalhas na natação. Seja por razões biológicas seja por razões culturais/sociais, espero que não passe pela cabeça de ninguém que nos livros de actividades estejam os brancos na piscina e os negros a correr à volta numa pista.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Drogas

Canábis, uma oportunidade a não perder

Luís Aguiar-Conraria
606

Os efeitos positivos são visíveis: aumenta-se a liberdade das pessoas, reconhecendo que são adultos capazes de tomar decisões, e aumentam-se as receitas fiscais em centenas de milhões de dólares.

Salário Mínimo Nacional

Quando os factos mudam

Luís Aguiar-Conraria
280

Para todos os efeitos relevantes no debate público, enganei-me. O desemprego desceu bastante, a redução do peso dos salários no rendimento nacional foi estancada. Ainda bem que não me deram ouvidos.

Igualdade

Os queixinhas

Maria João Marques
145

Nem todas as críticas às mulheres políticas são sexismo. E os homens terão de aceitar que o mundo mudou e têm de competir com quem é diferente (mas mais parecido com outros eleitores).

Igualdade

Lei da Paridade. O saleiro das quotas

Sofia Afonso Ferreira
766

Ou as empresas contratam mulheres até atingir a quota dos 33,3% ou despedem homens. Não percebo como contornar de outra forma esta barbaridade legislativa e qualquer uma das soluções será prejudicial.

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site