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Volkswagen

Capitalistas de todo o mundo, uni-vos

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É moralmente legítimo pagar 60 milhões a um gestor que sai num momento em que a empresa perde valor em bolsa e está sujeita a multas na casa dos milhares de milhões de euros?

Caros accionistas de todas as empresas,

Há um montante a partir do qual o que pagam a um gestor se torna obsceno? Ou nesta matéria não há obscenidades e o céu é o limite? Têm que começar a fazer estas perguntas a vocês próprios porque o dinheiro em questão é, antes de mais, o vosso dinheiro. São vocês que investem nas empresas, que arriscam uma parte do vosso património à espera de uma boa rentabilidade, que colocam lá o capital necessário ao investimento e à operação.

São também vocês, nas assembleias gerais, que decidem directa ou indirectamente a fatia do vosso dinheiro que vai remunerar aqueles que escolhem para gerir a vossa empresa.

Bem sei que os processos nem sempre são directos e transparentes. Nessas assembleias gerais raramente são chamados a votar um número. Mas votam a criação de órgãos – comissões de vencimentos ou coisas semelhantes – que depois fazem umas contas e decidem os pacotes remuneratórios e as regalias e mordomias associadas.

Também sabemos todos que para essas comissões de remunerações são geralmente escolhidas pessoas totalmente alinhadas com o sistema. Idóneas, sem dúvida, mas por regra são também membros desse restrito mercado de gestores que das duas uma: ou já por lá passaram e beneficiaram da mesma generosidade ou então têm pretensões a serem, mais tarde, os eleitos. E sabemos como é: os amigos são para as ocasiões e uma mão lava a outra.

Mas, verdadeiramente, quanto vale um gestor? Um bom gestor, dos melhores, com capacidade para liderar uma grande empresa? Um CEO de um grande banco, de uma empresa de electricidade ou, por exemplo, da Volkswagen?

Sim, isto vem a propósito da demissão de Martin Winterkorn da VW na sequência do escândalo da falsificação das medições de emissões poluentes dos automóveis. O agora ex-CEO da empresa pode receber até 60 milhões de euros entre pensão de reforma e indemnização, perdendo o direito a uma parte se vier a provar-se que teve responsabilidade directa no caso.

Mas vamos assumir que não teve e que a sua demissão é, como é habitual dizer-se, motivada por responsabilidade indirecta ou política.

Bem sei que estas contas são as que resultam das regras em vigor na VW, que estão publicadas nos relatórios e contas da empresa e que foram devidamente aprovadas pelos tais órgãos e sancionadas pela assembleia-geral de accionistas.

Mas a questão não é legal nem formal. A questão é, tão só, moral. É moralmente legítimo pagar 60 milhões a um gestor que esteve menos de uma década à frente da empresa e que sai num momento em que a empresa perde valor em bolsa e está sujeita a multas na casa dos milhares de milhões de euros?

Winterkorn serve aqui de pretexto para o tema. Mas facilmente encontramos exemplos por esse mundo capitalista fora. Tambem por cá temos a reforma de Jardim Gonçalves, ou os 10% de lucros que, em tempos, os gestores do BCP tinham de prémio anual, ou ainda os milhões – foram quase seis? – que Zeinal Bava recebeu quando saiu da Oi depois de ter deixado um rombo de 900 milhões na PT.

Não está em causa a excepcionalidade das capacidades de cada um destes gestores em concreto. Todos têm competências de gestão, de liderança e de visão estratégica acima da média e fazem o que pouquíssimos conseguiriam fazer. Mas também não o fazem sozinhos e, sobretudo, nunca o fariam sem o capital dos capitalistas, os accionistas.

A questão é qual é o preço dessa excepcionalidade e o limite que ela pode ter. Ou deve ter.

É o mercado a funcionar, claro. O preço de qualquer coisa – seja um Van Gogh, o passe de Cristiano Ronaldo ou o cachet de Madonna – é tão-só aquele que alguém está disposto a pagar por ela.

Mas é também nestas coisas que a irracionalidade dos mercados atinge todo o seu esplendor. Os verdadeiros e genuínos capitalistas, que são os accionistas que aceitam pagar aquelas somas, são os primeiros a cuidar pouco do seu próprio capital. Batem-se por reestruturações e curas de emagrecimento para poupar 10 milhões aqui, mais cinco milhões ali. Para poupar na água e no papel da fotocopiadora. Para implementar um novo processo que vai poupar mais uns milhares. E depois, de uma assentada, passam um cheque de dezenas de milhões a um gestor que se vai embora. Para um sistema que é tido como racional e pragmático não está nada mal.

Meritocracia? Sem dúvida. Salários iguais para todos? Nem pensar. Um gestor a ganhar um ou dois milhões por ano porque faz os accionistas ganhar muitos mais milhões? Sim, faz sentido.

Todos estes princípios são saudáveis e fazem, não tenho a melhor dúvida, mais bem do que mal à sociedade. Mas tudo tem os seus limites, da mesma forma que até o alimento mais saudável provoca a doença quando comido em excesso. E os pornográficos pagamentos a gestores já ultrapassaram há muito a razoabilidade.

Caros capitalistas, cuidem melhor do vosso dinheiro. E, acima de tudo, cuidem melhor do capitalismo. Se ele acabar são vocês quem mais tem a perder, certo?

PS: No artigo da semana passada cometi um infantil erro de lógica quando apontei os números de alegados cortes que estão nos planos da coligação PaF e do PS. A comparação correcta não é entre 600 milhões de euros de cortes na despesa ou aumento da receita da Segurança Social propostos pelo PSD/CDS e os 1020 milhões de euros de cortes nas prestações sociais não contributivas do PS. A comparação certa é de 2400 milhões com os mesmos 1020 milhões. Por uma razão simples: os 600 milhões da coligação são anuais e para serem aplicados logo no primeiro ano de legislatura, mantendo-se a partir daí. Já os 1020 milhões do PS são o somatório dos quatro anos da legislatura. Por isso, para comparar o que é comparável, temos de fazer a multiplicação dos 600 milhões anuais por quatro. Está reposta a aritmética correcta, com as devidas desculpas aos leitores.

Jornalista, pauloferreira1967@gmail.com

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