Logo Observador
Crónica

O machismo carinhoso

Autor
4.177

Muitas vezes o machismo aparece de uma forma sutil- quase carinhosa- que pode não soar diretamente como agressão, mas que nos agride, nos fere e nos ameaça da mesma forma.

Quando o eurodeputado polaco Janusz Korwin-Mikkle afirmou aos gritos, num debate do parlamento, que as mulheres deveriam ganhar menos do que os homens por serem mais fracas e menos inteligentes, o mundo inteiro ficou incomodado. Mesmo as pessoas que não se julgam feministas ficaram incomodadas.

O discurso de Korwin-Mikkle é escancaradamente machista, misógino e estapafúrdio, a ponto de não deixar ninguém com qualquer dúvida sobre o seu comportamento. Não havia qualquer espaço para “porém”, “veja bem” ou “não foi bem isso que ele quis dizer”. Qualquer pessoa que lhe queira dar razão é obrigada a assumir-se como machista, conservadora e, acima de tudo, desinformada.

Ocorre que o machismo- nas suas tão variadas medidas- nos visita praticamente todos os dias. E ele não costuma, em 2017, aparecer da surreal forma gritante eleita pelo eurodeputado. Muitas vezes o machismo aparece de uma forma sutil- quase carinhosa- que pode não soar diretamente como agressão, mas que nos agride, nos fere e nos ameaça da mesma forma.

Tudo começa com a forma de tratamento utilizada para dirigir-se a uma mulher. Lembro-me de uma reunião com um cliente do meu escritório de advocacia, na qual fomos eu e meu sócio. Cada um tem 50% das cotas da sociedade. O cliente, um homem de cerca de 50 anos, chamava meu sócio de Doutor e me chamava de Meu Anjo. Meu Anjo, será possível? Será difícil perceber que isso é uma agressão para qualquer profissional?

Há muitas versões: meu anjo, minha linda, minha querida, mocinha, miúda. Todas elas têm a mesma intenção não declarada (e por vezes não intencional): a de nos desautorizar e a de nos colocar num posto inferior àquele que nós conquistamos e que é nosso por direito. Não consigo entender qual é a dificuldade de se tratar uma mulher no ambiente profissional com a mesma distância e respeito com os quais trata-se um homem.

Algumas vezes o machismo carinhoso é motivado por sarcasmo. Outras vezes, por uma certa ingenuidade. Em ambas as versões ele é grave. Muitas vezes o machismo carinhoso vem em forma de elogio. Dizer a uma médica, professora, empregada doméstica, farmacêutica, economista ou faxineira que elas são mulheres muito bonitas (ou fazer qualquer outra menção à sua aparência física) no ambiente profissional, não é um elogio bem vindo. No ambiente profissional nós queremos ser avaliadas apenas e tão somente pela nossa conduta profissional. Será pedir muito?

São pequenas farpas do dia a dia que nos desgastam. Comentários inoportunos sobre a maternidade, sobre a vida pessoal, sobre uma série de assuntos que não deveriam sair do nosso ambiente privado, mas frequentemente saem. É preciso rever comportamentos tidos como inofensivos. Porque o machismo carinhoso é machismo como qualquer outro. A sutileza do seu exercício não minimiza seus danos. E nós estamos cada vez mais cansadas disso.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

A estranha geração dos adultos mimados

Ruth Manus
30.502

O fato de termos sido criados com cuidado e afeto pelos nossos pais, começou a confundir-se com uma espécie de sensação de que todos devem nos tratar como eles nos trataram.

Crise Política no Brasil

Carta a Michel Temer

Ruth Manus
1.408

Como se faz para olhar de frente para aqueles que conhecem a nossa podridão sem nenhum tipo de constrangimento? Como se faz para não se importar com nada,e seguir em frente com os nossos objectivos?

Crónica

Quem viaja muito a trabalho tem sorte?

Ruth Manus
661

Viajar toda hora só é uma sorte quando tais viagens são por turismo voluntário ou por outra razão mais nobre. Viajar por necessidade ou por imposição não tem lá muita graça.

Crónica

A estranha geração dos adultos mimados

Ruth Manus
30.502

O fato de termos sido criados com cuidado e afeto pelos nossos pais, começou a confundir-se com uma espécie de sensação de que todos devem nos tratar como eles nos trataram.

Verão

Crónicas de Verão – O Amor

Paulo de Almeida Sande
105

Digam-me os leitores que esta crónica é fútil, inútil, ignorável; digam-me que amar é irrelevante, porque só amamos por capricho, um fútil devaneio, e no fundo, lá no fundo, é a nós mesmos que amamos.

Crónica

Liberdade de Impressão

Miguel Tamen

Na maioria dos casos, as outras pessoas não costumarem ficar impressionadas com as nossas opiniões; ocupadas com o que haverão de dizer, não mostram no geral interesse por aquilo que nós temos a dizer

Crónica

Quem viaja muito a trabalho tem sorte?

Ruth Manus
661

Viajar toda hora só é uma sorte quando tais viagens são por turismo voluntário ou por outra razão mais nobre. Viajar por necessidade ou por imposição não tem lá muita graça.

Crónica

As qualidades das qualidades

Miguel Tamen

Uma acção generosa a que se chega depois de uma análise ponderada tem qualquer coisa de deliberado que a faz parecer-se com a avareza; e pensar em ter coragem é uma variedade de cobardia. 

Crónica

A filosofia pelo fado (IV)

Miguel Tamen

Um grande fado nunca depende dos sentimentos de quem canta: depende de se achar que os outros não têm sentimentos.

Incêndios

Eu vivi um fogo. E vi quem são os heróis

Fernando Leal da Costa

Foi então que os vi. Os populares, como se lhes chama tantas vezes, montados em tratores e pick-ups equipados com depósitos e mangueiras. Chegam e, sem medo, atiram-se ao monstro que crepita fagulhas.