Quando minha sobrinha mais velha completou 15 anos, meu presente para ela não foi um anel, nem um pingente, nem um vestido. Meu presente para ela foi uma conta poupança — ainda que com pouquíssimo dinheiro aplicado — e uma carta explicando o porquê daquele presente.

Pedi a ela que considerasse aquilo um começo. Pedi que, ano após ano, ela fosse engordando aquela conta. Não importava o quanto, poderia ser só o troco de um lanche comprado na cantina da escola. Poderia ser um pequeno percentual de um dinheiro que ganhasse de natal da avó. Não importava o quanto, a questão era apenas sobre, lentamente, ir aumentando aquele monte.

Expliquei que a intenção daquilo não era acumular dinheiro para comprar uma bolsa fabulosa ou uns tênis que ela adorasse. A intenção daquela poupança era ser uma fonte de liberdade e retirar um certo estigma que pode pairar sobre o dinheiro, sobretudo quando você é mulher.

Desde criança nos falam sobre amor. Sobre família. Sobre estudo. Pouco se fala sobre dinheiro. Com os meninos se fala mais. Com as garotas, raramente. Ainda há uma confusão entre planejamento e ambição, sobre metas e ganância. Nos colocam como meta a família, os filhos, o casamento e uma carreira mas atenção: uma carreira que viabilize tudo isso, não uma que atrapalhe.

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E, sim, se uma mulher quiser ser mãe, o ideal seria uma carreira que não atravessasse sua vida privada. Mas curiosamente não se fala isso para um rapaz que pretenda ser pai. No entanto, essa limitação da vida profissional em nome de planos familiares costuma trazer consequências graves para a vida de uma mulher.

Disse na carta à minha sobrinha que aquele dinheiro era dinheiro para poder mudar de país se um dia ela desejasse. Para pagar uma pós graduação. Para comprar um apartamento só seu. Para ter patrimônio. Aquele era um dinheiro para não ter medo de um dia se divorciar se fosse preciso. Para poder sustentar filhos sozinha se um dia isso fosse necessário.

Reforcei para ela: engorde essa conta. Retire quando precisar e engorde de novo. Sacrifique cosméticos, roupas, restaurantes, viagens que não enriqueçam sua alma. Economize. Veja o dinheiro render. Aumente a meta. Saiba que o dinheiro está ali, te esperando quando for preciso. Torne inconcebível a ideia de permanecer numa relação por dependência financeira.

É preciso desvincular dinheiro de egoísmo para mulheres. É preciso afastar a ideia de que o amor basta. É preciso esclarecer que dinheiro, amor, família e liberdade não são inimigos uns dos outros. Ensine sua filha a ganhar dinheiro, a poupar para si mesma e a ter orgulho disso. São poucas as mulheres que são ensinadas a cultivar sua própria liberdade.