Dia da Mulher

O que é ser mulher

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O Dia Internacional da Mulher não é para as mulheres que nasceram no Ocidente no século XX, mas para as mulheres do mundo que não podem levantar-se e protestar em público, como nós podemos.

Todos os anos, no dia 8 de Março, a internet enche-se com cumprimentos à mulher. É uma espécie de repetição do Dia da Mãe. Há até mulheres que recebem flores e chocolates dos seus amados, parabenizando-as por terem nascido com os dois cromossomas X.

E, como é óbvio, nós, mulheres, merecemos um Dia Internacional de Sensibilização Só Para Nós, porque realmente é cansativo ser mulher. Além das partes dolorosas de que trata a ginecologia, temos de ser simpáticas todo o tempo. Se queremos ir longe neste mundo, um mundo obcecado com a juventude e a beleza, precisamos de aparecer bonitas e perfumadas todos os dias, com pelo menos uma pitada de apelo sexual. Convém-nos ainda chegar onde queremos antes da meia-idade, porque é na meia-idade que nos tornamos invisíveis para o resto do mundo. E é verdade: podemos arranjar oportunidades na vida exibindo as nossas mamas, mas temos que sofrer os soutiens desconfortáveis que as mantêm no sítio.

Para provar o que valem, as mulheres têm de trabalhar mais, sem se esquecerem de, ao mesmo tempo, não parecerem mais espertas que os seus colegas, e tudo isto ganhando sempre menos do que eles. E depois, ainda têm de lidar com a culpa de serem mãe que trabalham, ou de serem mães que abdicaram da carreira. Ao falarmos alto na internet, recebemos ameaças de violação ou “homemexplicações”. É mil vezes mais provável que os nossos esposos nos batam do que nós batermos neles. E algumas de entre nós morrem às mãos de homens que dizem que nos amam.

Por isso, minhas senhoras, espero que recebam esta manhã o vosso peso em flores, chocolates e amor e o pequeno-almoço na cama, tudo por terem nascido com esses dois cromossomas X cá no Ocidente. Vá, mandem parabéns às colegas no Facebook, e comecem o dia com um sorriso muito feminino.

Ou não. Devolvam as flores, metam os chocolates na gaveta para outro dia, porque este dia de hoje não é para nós. Não, não é para as mulheres que nasceram no Ocidente no século XX, como nós.

O Dia Internacional da Mulher é para as mulheres do mundo que não podem protestar em público, como nós podemos. É para aquelas que não podem deixar o marido, não podem falar com quem quiserem na rua, e não têm opção senão usar véu. O dia de hoje é para aquelas mulheres que não podem exigir justiça, que não podem planear a sua gravidez, e nem têm direito a cuidados básicos na altura do parto. É para todas as bebés que são mortas à nascença por terem nascido com o sexo errado. É para as mulheres cujos órgãos sexuais foram mutilados enquanto crianças, em operações que matam umas e deixam as outras traumatizadas física e psicologicamente para o resto das suas vidas. É para as mulheres utilizadas como troféus de guerra, para serem violadas ou escravizadas. É para as mulheres que não têm direito de voto, nem têm direito a fazer escolhas no seu dia-a-dia. O dia de hoje é para elas, aquelas mulheres cujo sofrimento e falta de liberdade derivam do simples facto de terem nascido no país errado com dois cromossomas X.

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Se o dia de hoje é para nós, é para nos lembrarmos dessas mulheres, não é para chocolates e flores. As limitações que enfrentamos no Ocidente — e, sim, ainda enfrentamos muitas limitações — têm, apesar de tudo, solução (além das partes ginecológicas, claro, essas teremos de aguentar). Quando nos queixamos, não nos devemos esquecer que nós, as mulheres que vivemos no Ocidente, podemos queixar-nos. Dispomos das liberdades por que lutaram as nossas mães e avós. Pode acontecer que não gostemos de falar em público porque não queremos parecer chatas (porque somos mulheres, e gostamos que os outros gostem de nós), mas podemos gritar, podemos tomar posição, podemos ser irritantes, mal-educadas e inconvenientes, podemos deixar maridos abusadores, podemos vestir o que nos apetece, podemos ajudar as outras mulheres a saírem de situações perigosas, podemos ser barulhentas e chatíssimas, ou calmas e furtivas, no esforço, ao lado dos homens, para melhorarmos tudo para todos.

Nós, no Ocidente, podemos fazer todas essas coisas sem a ameaça de ostracismo, encarceramento ou morte.

Viva a Irmandade e feliz Dia Internacional Da Mulher.  

(traduzido do original inglês pela autora)

Oh, what it is to be a woman

Every year, on March 8th, the internet fills up with good wishes to womankind. It’s like a kind of second Mother’s Day or Valentine’s Day. There are even some women who receive flowers and chocolates from their loved ones, congratulating them on their having been born with two X chromosomes.

And, by god, do we deserve an International Awareness Day Just For Us, because it’s really exhausting being a woman. Alongside all the painful and messy gynaecological stuff, we have to be nice, all the time. If we want to get anywhere in this youth and looks obsessed world, we have look like we made an effort every morning, look pretty and smell good. God forbid we don’t have some modicum of sex appeal. We must make sure that if we want to get anywhere, that we do it before middle-age hits, because that’s when we become invisible to the all people in the world. We must remember to use our boobs to get what we want, as boobs of all kinds are great door openers, but oh, the uncomfortable underwear to keep them in place.

We have to work harder to prove ourselves but, at the same time, concentrate on not seeming cleverer than our male counterparts, and we still earn less than them. Then we have to deal with the tiresome guilt of being a mother and going to work, or the guilt of being a mother and abdicating our careers, or the having to deal with other people’s opinions about our not wanting to be a mother. We receive rape threats and mansplaining when we say things out loud on the internet. We are far more likely to be beaten up by our male partners than we are to beat them up, and some of us die at the hands of the people who claim to love us.

So, ladies, this morning, I hope you receive your body weight in flowers and chocolates and love and breakfast in bed for having been born with those two X chromosomes in the twentieth century in the Western World. Go, congratulate each other on facebook, and start the day with a lovely ladylike smile.

Or don’t. Give the flowers back, and put the chocolates in a drawer for another day, because today is not for us. Today is not for women who were born in the Western World in the 20th Century, like we were.

International Women’s Day day was created for women in the western world when we still didn’t have the vote and were still treated like the property of others, but we are so far from that, now.

Today it is for the women of the world who can’t stand up and be bolshy in public like we can, women who can’t leave their husbands, women who can’t talk to whomever they like in the street, nor have a choice about whether they wear a veil. It is for women who can’t fight for justice, who can’t plan their pregnancies and don’t have a right to even the most basic care at the birth of their children. It is for baby girls, killed at birth just for being the wrong sex. It is for women whose genitals are mutilated in childhood, some of whom die, the rest traumatised physically and mentally for the rest of their lives. It is for the women who are used as tools of war, being raped or enslaved. It is for women who don’t have the vote, don’t have a say in their own lives. It is for them, the ones whose suffering and lack of freedom stem from the mere fact of their having been born with those two X chromosomes in the wrong place in the world.

If today is for us, it is just for us to remember those women, it is not for chocolates and flowers. None of the crap that we go through, and yes, some of it is scary, horrible, crap, is beyond hope or unfixable (apart from the gynaecological stuff, of course). We can’t complain, because we damn well CAN complain. We have been given the freedoms, won by our mothers and our grandmothers, to fight. We might not like doing it, we might not like standing up to be counted (because we are women and we still like to be liked), but we can shout, we can take a stand, we can be irritating and rude and inconvenient, we can leave our abusive husbands, we can wear what we like, we can help other women out of dangerous situations, we can be dreadful, loud and pushy or clever, quiet and sly if we want to, in the continuing fight, alongside men, to keep improving our situation.

We can do all those things without the fear of being murdered, ostracised, or imprisoned.

Up the bloody sisterhood and happy International Women’s Day.

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