Um dos defeitos das eleições é a maçadora possibilidade de ganharem os outros. Uma pessoa passa anos no Tik Tok a ver vídeos sobre o capitalismo, o patriarcado, o colonialismo, o heteronormativismo, o cis qualquer coisa, a Palestina, o clima e a compostagem, e depois aparece um electricista de Famalicão que mete uma cruz no quadradinho errado e eis-nos com 230 deputados, regimento, comissões, maiorias, oposições, debates, eleições burguesas, uma maçada.

Felizmente brotou a Assembleia Popular, recuperada do vasto catálogo de êxitos democráticos do  PREC e pronto, resolve-se o problema.

Na Assembleia Popular não são precisos votos, deputados ou, Deus nos livre, eleitores. Bastam umas dezenas de criaturas exóticas, um megafone, três palavras acabadas em “fobia” ou “ismo”, uma relação difícil com o sabão, um concerto solidário de artistas da bolha e a convicção inabalável de que montar uma tenda numa praça confere imediatamente mandato popular.

A partir daí, tudo é simples. Quem arma a Quechua, representa o povo. Quem foi eleito por milhões de portugueses representa “o sistema”.

Para salvar a Humanidade, os campistas anunciam então a intenção de levar o “poder popular” a São Bento e explicar aos deputados como funciona a democracia do povo. O pormenor de os deputados terem sido escolhidos pelo povo não os perturba. A democracia verdadeiramente democrática começa precisamente quando não gostamos do resultado das eleições.

Durante quase cinquenta anos andámos equivocados, a pensar que democracia passava por votar, eleger representantes, aprovar leis e substituir governos.

Afinal passa por uma criatura com um arganel no nariz e ar esgrouviado, com um megafone a informar  a nação de que ela e vinte e sete amigues parecides, decidiram outra coisa.

Isso significa que, se tudo correr de forma revolucionária e expedita, poderemos brevemente fechar São Bento e governar o País a partir da Assembleia Popular da Rua da Betesga. A Constituição será substituída por  uma bandeira da Palestina, o Diário da República por uma conta do Tik Tok e o Tribunal Constitucional por um brasileiro de roupa sebosa e cara tapada, a ameaçar atirar tijolos contra o primeiro-ministro.

À frente de tudo, os direitos. A esquerda folclórica, agora reciclada pelo Tik Tok e Instagram, descobriu que para transformar um desejo numa obrigação de terceiros, basta chamar-lhe “direito”.

Berra-se “direito à habitação” e desaparecem por encanto o preço do terreno, o cimento, o ferro, os salários, os arquitectos, as licenças, os juros, os impostos, as obras, a manutenção, etc.

As casas deverão nascer espontaneamente de palavras de ordem como, na  velha ciência medieval, se acreditava que os ratos nasciam espontaneamente da palha.

A palavra “direito” tornou-se assim uma espécie de cartão de crédito ideológico sem limite, muito agradável porque a factura chega sempre à morada de outra pessoa.

Já o conceito de “povo” ganhou nuances.

Quando as pessoas votam “mal”, são um eleitorado desinformado, reaccionário, ou vítima da extrema-direita.

Quando os representantes eleitos por esses deploráveis, aprovam uma lei, ou a polícia executa uma ordem legítima, trata-se de violência institucional, força desproporcionada, e repressão fascista.

Quando cinquenta figurantes dos filmes do Mad Max levantam o braço numa praça, e decidem não cumprir a lei, temos “povo”,  resistência e uma criatura embrulhada num lenço fedayn a explicar que o povo está a lutar contra o “fássismo, pá”.

Para estas luminárias, uma manifestação só é democrática enquanto ninguém lhes diz que não podem fazer aquilo que lhes apetece. Assim que aparece uma autoridade a dizer “isto não pode ser”, instala-se imediatamente a ditadura.

Não sou jurista, mas desconfio de que o direito à manifestação ainda não inclui o direito de adquirir uma praça por usucapião, transformar o espaço público em parque de campismo e chamar fascista a qualquer pessoa que pergunte a que horas pensam levantar a tenda.

A imprensa, claro, tratou estes movimentos como se tivessem germinado espontaneamente depois de uma chuvada de Outubro, acarinhando-os, entusiasmando-se com as suas verbalizações, amplificando os seus vagidos, enfim, uma festa.

A verdade é que, olhando com alguma atenção, encontramos por lá os flautistas de Hamelin do PCP, BE, Livre, colectivos marxistas, grupelhos de lunáticos,  organizações “antifascistas”, movimentos climáticos, associações “antirracistas” (a novilíngua é uma maravilha), colectivos LGBT, e activismo pró-Palestina (antissemitismo, em português).

Nem me passa pela cabeça que isto seja algo mais do que coincidência, Deus me livre. Até porque quando qualquer pessoa normal fala de habitação, vem-lhe logo à cabeça, de sopetão, o capitalismo extractivo, o colonialismo, o palestinianismo, o género, a polícia, o clima e, acaba inevitavelmente a acusar o supermercado de ser uma estrutura de violência sistémica contra o grão-de-bico.

Já agora, de onde vem o dinheiro para as tendas, as multas, os megafones, os jambés, a paparoca, os telemóveis, os arganéis, os cartazes, o tabaco e a liamba?

Podemos fingir que não sabemos de nada, mas há organizações internacionais a financiar o activismo  “das causas”, redes transnacionais a apoiar organizações e projectos anti-ocidentais, e o dinheiro escorre por uma enorme cornucópia de fundações, ONG, colectivos e associações, que torna uma matrioska num modelo de transparência empresarial.

A Guerrilla Foundation, por exemplo apoia grupos como a Climáximo, e “Casa para Viver”, para superar o “capitalismo extractivo”,  salvar o planeta e isso.

No plano internacional, o milionário Neville Singham, que vive na China, financia uma complexa rede de organizações e projectos radicais, incluindo  Code Pink, The People’s Forum, BreakThrough News, Tricontinental, etc. entidades associadas a campanhas anti Ocidente, antissemitas e outras dezenas de “istas” da moda,  que muito convém ao Sr. Xi Jin Ping.

O mesmo vale para a Irmandade Muçulmana que ajuda a distribuir fartos dinheiros do Qatar e outros, por instituições, flotilhas e grupos esquerdistas e islamistas do Ocidente..

Existe uma notória convergência de causas entre extrema-esquerda, anticapitalismo, activismo identitário, movimentos “antissionistas” e redes islamistas que, apesar de terem ideias aparentemente  diferentes sobre mulheres, homossexuais, religião e liberdades individuais, se juntam na mesma tenda, contra o inimigo comum. É pois óbvio que  não estamos perante uns “jovens” vítimas do “sistema”, que  se encontraram casualmente no Rossio para comparar piercings, descobriram que todos tinham uma tenda e decidiram salvar o proletariado.

Apesar de tudo isto ser muito cómico, há aqui uma questão que não tem graça nenhuma.

A democracia liberal repousa na disposição para aceitar a derrota. Ser-se democrata significa aceitar que milhões de concidadãos possam escolher políticas que se considerem erradas, governos que se desprezem e partidos que não se suportem. E reconhecer que a única alternativa é voltar a votar, não substituí-los por cinquenta alucinados com cartazes, seguidos por algumas centenas de simplórios e calhaus com olhos que, na sua máxima expressão nacional, são menos do que os espectadores de um jogo de futebol da segunda liga.

Este frenesim importado de Paris acabará por desaparecer e algumas das criaturas mais folclóricas regressarão aos obscuros ecossistemas de onde vieram.

A crise da habitação, infelizmente, perdurará.

Durante anos os governos da “justiça social” aumentaram a procura promovendo intensos fluxos migratórios, baixaram a oferta amarrando-a a uma teia de licenças, custos, regras “sociais”,  impostos, travões administrativos e hostilidade à construção e ao lucro, e incentivaram os baixos salários pela importação descontrolada de mão de obra barata. Agora os autores e apoiantes do descalabro, descobrem, indignados, que há mais gente a procurar casas do que casas disponíveis.

O que ficará de todo este momento de alucinação e folclore é justamente a falta de casas e o regresso da perigosa ideia de que uma minoria se transforma instantaneamente  no “povo” assim que compra um megafone e regurgita umas larachas antediluvianas, exumadas da vala comum do marxismo

No fundo, o espectáculo destes dias resume bem a infantilização da política. Monta-se uma tenda, grita-se “revolução” e espera-se que os amanhãs cantem. Enquanto o alucinogénio ajuda, tudo parece épico. Depois passa o efeito. Fica a barraca, a ressaca, a descoberta de que o capitalismo abriu outra vez às nove, e que o poder popular, a assembleia popular, e a resistência anticapitalista consistiam em vinte criaturas ignorantes e patéticas, embrulhadas em lenços terroristas fabricados no Vietname, a telefonar de um iPhone produzido por uma multinacional americana para pedir a uma plataforma capitalista que lhes traga uma pizza que os pais pagam pelo Mbway.