Logo Observador
Política

O regresso dos três FFF

Autor
654

O que a regressão aos três FFF do tempo de Salazar mostra é que o baixo nível de instrução que perdura em Portugal só pode amplificar o lastro da (in)cultura salazarenta que o país transporta consigo.

Não é que a comunicação social não costume embandeirar em arco de cada vez que o país, o governo ou o presidente da República marcam pontos, mas desta vez o coro é algo ensurdecedor. Só para dar alguns exemplos, Nicolau Santos envia-nos um Expresso Curto de «um país cada vez mais feliz e em estado de graça: o Papa visitou-nos, santificou dois pastorinhos, o Benfica foi tetracampeão [e] Salvador Sobral ganhou o Festival da Eurovisão». Entretanto, Tiago Freire (Negócios) fala – nada mais, nada menos – d’ «O esplendor de Portugal»! Será o regresso dos três FFF – Fátima, Futebol e Fado (neste caso Festival da Canção)? Se não é, parece!

Enquanto a «geringonça» vai empurrando com a barriga as finanças e a economia, outros problemas se acumulam no futuro próximo para não falar do distante, no sábado passado – não por acaso, 13 de Maio, centésimo aniversário do chamado milagre de Fátima – o país atingiu o pleno da felicidade com a vinda do Papa, a habitual vitória do Benfica e a menos habitual vitória num festival da canção. Tudo em directo na televisão. Os três FFF a que o regime de Salazar vivia agarrado mantêm-se, pois, bem vivos quase cinquenta anos depois da morte do ditador.

O país mudou bastante e para melhor; aderiu à União Europeia que tem servido de respaldo ao regime democrático e às finanças do país; sem ela, não se sabe onde já teríamos ido parar com três virtuais falências em menos de 40 anos; é verdade que Portugal está em crise há anos mas não perdeu o essencial das melhorias que vieram com o fim da ditadura. As hipérboles com que a comunicação social se encheu durante o fim de semana interpelam-nos, porém. Não estou a pensar em «complexos de inferioridade» que viriam ao de cima sempre que Portugal é comparado com o estrangeiro, pois não sou psicólogo e os cientistas sociais acreditam pouco em mitologias identitárias…

Estou a pensar, isso sim, num nível de instrução que, apesar da melhoria de que os governos não param de se gabar, continua não só a ser de longe o mais baixo da UE como não consegue diminuir a diferença que nos separa dos outros países europeus em anos de escolaridade média da população. E porque volto eu a este tema de que me tenho ocupado nos últimos anos? Porque o atraso absoluto e relativo da instrução tem efeitos em cadeia enormes que actuam a todos os níveis da nossa vida, desde a saúde até… às atitudes sociais em geral e, em particular, a atrasos civilizacionais tais como crendices, fezadas e cantos de galo!

Ora, o baixo nível de instrução tem efeitos não só ao nível dos conhecimentos e do acesso à informação, como é óbvio, mas também ao nível cognitivo, incluindo a compreensão do mundo e das relações sociais, afectando a confiança inter-pessoal que é em Portugal das mais baixas da Europa. Tudo isto ressalta muito claramente dos estudos internacionais, especialmente quando estudamos a população mais velha, dos 50 para cima, conforme acontece com o inquérito europeu SHARE, cuja análise comparativa publicámos no ano passado.

Pode parecer que estamos a afastar-nos do tema mas não. Pelo contrário. Aquilo que esta momentânea regressão aos arcaicos três FFF do tempo de Salazar mostra é que, apesar das mudanças que o país conheceu nas últimas décadas, o baixo nível de instrução que perdura em Portugal só pode amplificar o lastro da (in)cultura salazarenta que o país ainda transporta consigo. Afunilados hoje pela televisão e repetidos à exaustão horas e horas a fio, fenómenos de massa como aqueles de que estamos a falar só podem, evidentemente, saturar o entendimento das pessoas, as quais ou fecham os aparelhos ou ficam presas ao écran e mimetizam as mensagens estereotipadas, destituídas de qualquer reflexividade, dos canais de televisão.

Ontem à noite, pelas 22h, seis-canais generalistas-seis continuavam a passar pela enésima vez as imagens de felicidade dos adeptos do Benfica e mais de uma dúzia de comentadores repetiam à saciedade todas as banalidades que se dizem nessas alturas… Mudando de F, é bom não esquecer que são historicamente bem conhecidas as condições em que se deu há cem anos o «fenómeno de Fátima» e qual foi a sua evolução ao longo do tempo, bem como as consequências que teve no longo prazo, desde logo ao nível político. E se tudo já foi dito e redito a este propósito, tal não altera o impacto desta propaganda clerical – é assim que se designa nas ciências sociais – junto de uma boa parte do eleitorado português.

*****

Entretanto, lá fora, as notícias são mais viradas para o futuro do que para um passado brumoso: Macron ganhou as eleições presidenciais em França e garante fazer reformas a fundo ao mesmo tempo que a Senhora Merkel limpou as três últimas eleições regionais na Alemanha, derrotando o SPD no seu próprio terreno e prometendo, assim, ganhar as eleições legislativas em 24 de Setembro. Sortudo como é, o nosso governo poderá beneficiar das concessões que Macron vier porventura a arrancar à Sr.ª Merkel mas teria então de fazer também as reformas de que Portugal precisa urgentemente… Infelizmente, é pouco provável que uma «geringonça» como a nossa consiga fazer isso, mesmo com os três FFF a soprar a seu favor…

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Governo

O Verão quente do primeiro-ministro

Manuel Villaverde Cabral
318

Os altos princípios do PCP e do Bloco são apenas para a televisão. Não alteram em nada a fidelidade canina da extrema-esquerda ao poder que conquistaram graças ao oportunismo constitucional do PS. 

Fogo de Pedrógão Grande

Tudo como dantes (ou pior!)

Manuel Villaverde Cabral
278

A forma partidarizada como foi constituída uma «comissão parlamentar», cuja missão devia ser apurar o que realmente se passou e porquê, já mostrou que dali nada sairá.

União Europeia

Democracia e soberanismos

Manuel Villaverde Cabral

Sem nunca ter sido chamado a ratificar a adesão europeia, o eleitorado português também não interiorizou o objectivo principal da adesão à CEE: ser garantia democrática contra as pulsões autoritárias.

Igualdade de Género

Mulheres no Parlamento: que míngua!

José Pinto

Na União Europeia da segunda década do século XXI ainda há países onde o acesso aos cargos parlamentares não anda longe de refletir a ideia apresentada no livro A República, escrito no século IV a.C.

Educação

O Filipa e a escola pública

Maria José Melo

Portugal só será realmente um país civilizado quando existir consciência cívica por parte de todos os cidadãos. Foi esta visão que adquiri no Liceu D. Filipa de Lencastre e me acompanhou toda a vida.