Governo

Portugal amarrotado

Autor
4.347

Quando há ano e meio recebeu a humilhante derrota eleitoral com o belo sorriso que não voltou a perder, o plano do dr. Costa não se limitava à tomada de um mero cargo: o objectivo era capturar o país.

Já se decidiu se os famosos 10 mil milhões “fugiram”, “voaram” ou saíram “pela porta do cavalo”? Entretanto, devia informar-se os governantes, deputados, comentadores e acólitos sortidos da frente de esquerda de que, independentemente da respectiva origem e destino, aquele dinheiro não é deles. É que falam como se fosse.

Em qualquer dos casos, o portentoso escândalo dos offshores, fundamentado num roubo imaginário, conseguiu abafar as “tricas” da CGD, colectânea de roubos reais cujo espólio voou para os bolsos de criaturas e instituições devidamente credenciadas pela casta dirigente. No primeiro caso, a casta passeia indignação, instiga muito barulho e, na condição de não se levantar surpresas, reclama um simulacro de investigação. No segundo, a ordem é de censura. No máximo, a ralé pode contemplar reverente a fortuna que lhe subtraem em prol do banco público e da harmonia universal. A casta não se limita a falar como se o dinheiro alheio lhe pertencesse: aparentemente, convenceu-se mesmo disso.

E não é só de bens materiais que a casta se julga proprietária. Na quinta-feira, a dra. Teodora Cardoso comparou o défice de 2,1% a um “milagre”, alcançado graças a “medidas que não são sustentáveis”. Embora a presidente do Conselho de Finanças Públicas tenha sido objectiva e, talvez, simpática, depressa o PCP soltou um jagunço para avisar a senhora que o milagre é ela ainda ter salário e emprego. À luz da tradição siberiana da seita, a ameaça aceita-se. Já as reacções do PM e do PR, formalmente mais brandas e igualmente raivosas, não se aceitam sob pretexto nenhum. Anda por aí um cheirinho peculiar, e não é a democracia.

Apenas na última semana, o dr. César dos Açores, que possui a inteligência de uma anémona e a subtileza de duas, confessou que se encontra a “reflectir” sobre a permanência do governador do Banco de Portugal. O “Público”, após alertar aflito para a “fuga” de capitais e de seguida lamentar os que aludem à “fuga” de capitais, aceitou nova missão: enlamear o pérfido juiz Carlos Alexandre, acusado de pedir 10 mil euros emprestados. Nas televisões, com destacado louvor para a TVI e a RTP, “analistas” esgadanham-se para apurar quem melhor aplaude os poderes vigentes. Nas rádios, ouvir os noticiários da Antena 1 e da TSF embaraçaria os conselheiros do almirante Thomaz. Nas “redes sociais”, os guardiões da moral perseguem blasfemos com afinco. E tudo, do atarantado dr. Núncio aos problemas na suinicultura e às derrotas do Tondela, serve de argumento para tentar enxotar Pedro Passos Coelho. Ao exigir, sem pingo de vergonha, a urgência de a “direita” se habituar a “novas regras”, o dr. Ferro não brinca.

De que regras se trata? Quando, há ano e meio, recebeu a humilhante derrota eleitoral com o belo sorriso que não voltou a perder, o plano do dr. Costa não se limitava à tomada de um mero cargo: o objectivo era o de capturar o país. Uma maioria, um governo e, hoje que se percebe o engodo chamado Sampaio da Nóvoa, um “presidente”. A que acresce a tal máquina de propaganda, capaz de transformar em rosas as misérias, as mentiras e a prepotência que a cada dia nos impõem. Apesar da divertida boçalidade dos protagonistas, convém não nos iludirmos: há aqui uma espécie de “projecto”, e um “projecto” onde a liberdade, seja ela qual for, é parte descartável. E indesejável.

Sei que arrisco a repetição, mas se a casa continua a arder é difícil sentarmo-nos na sala sem mencionar o incêndio: em Outubro de 2015, os portugueses caíram nas mãos de gente perigosa. A julgar pelas sondagens, e por defeito de visão ou de carácter, não consta que preferissem mãos diferentes. Por isso, e porque se gastou o nome para não se reconhecer a coisa, não vou ceder ao impulso dramático e dizer que chegámos ao – esperem um instante – fascismo. O caminho até lá, porém, é parecidíssimo com este.

Notas de rodapé:

1. Numa era em que o Estado é tão eficaz a vigiar a vida dos cidadãos, é consolador descobrir brechas nesse sufoco. Consola um bocadinho menos perceber que as brechas não beneficiam aqueles que cumprem a lei, mas justamente os que a violaram. Mas ainda assim é revigorante aprender que, segundo o próprio director dos serviços prisionais, não existe um “protocolo” de actuação para fugas de presidiários. O que fazem então as autoridades quando alguém se evade da cadeia? Ligam para o 112 e, aparentemente, esperam. Com sorte, os fugitivos regressam, ou porque se esqueceram de qualquer coisa na cela, ou porque têm saudades. Com azar, os fugitivos não voltam a ser vistos. É pena que tamanha descontracção não se aplique a outros ramos do Estado: com ou sem “offshores”, com ou sem falhas informáticas, o fisco, por exemplo, está repleto de “protocolos” destinados a garantir que o nosso dinheiro não lhe escapa. Se escapar, em penúltima instância vamos parar à prisão. Em última, escapamos nós.

2. Leio que Barack Obama assinou um contrato milionário para escrever as memórias dos seus mandatos presidenciais. Aguardo para ler as críticas dos indígenas a essa infâmia: um antigo chefe de Estado não pode revelar conversas e momentos privados; trata-se de um reles ajuste de contas; aquilo é de um ressentimento intolerável; etc. Isto, claro, se a obra mencionar o “eng.” Sócrates. Se não mencionar, as críticas serão nulas, mas o desplante maior: quem julga o sr. Obama que é para ignorar a criança que sonhava com ventoinhas, o governante que vendia moinhos, o socialista que, desconfiado do mercado, compra os próprios livros e o empreendedor que, sensível ao investimento, paga a outros para escrevê-los?

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Minorias

Não havia sapos à porta do São João

Alberto Gonçalves
3.637

Em teoria, eu deveria achar certa graça à fúria com que os ciganos investem contra o Estado. Na prática, a graça perde-se no zelo com que reclamam os respectivos benefícios.

Crónica

Quatro grandes questões do nosso tempo

Alberto Gonçalves
1.055

Não sei se o sr. Costa tem azar com as limitações de quem lhe escreve os discursos, ou se ele escolhe deliberadamente burgessos. Sei que exaltar a língua enquanto a torturamos com zelo tem a sua piada

Mário Centeno

Quem se mete com o PS

Alberto Gonçalves
1.406

Não espanta que o dr. Costa achasse o episódio do dr. Centeno “ridículo”, como não espanta a inquietação dos avençados do regime, a começar pelos que sobrevivem no futuro semanário Diário de Notícias.

PSD

Sulistas, populistas e… que mais?

Helena Cristina Coelho

Por um lado, Rui Rio aparece de peito feito a condenar o abominável populismo, que rejeita — por outro, parece cair em tentações populistas, em que cede. O que esperar daqui?

Congresso do PSD

O PSD mudou para melhor?

Maria João Avillez

Um mínimo de seriedade face ao PSD reclama um mínimo de benefício da dúvida. Não se sabe é onde ir buscar o empolgamento. O das manhãs do início de uma nova aventura política.

Rui Rio

O que Rio pode realmente aprender com Sá Carneiro

Miguel Pinheiro

Sá Carneiro tentou várias vezes fazer acordos de regime com o PS: em 1976, em 1977, em 1978 e em 1979. Ao perceber que o PS nunca aceitaria negociar, virou-se para o CDS e ganhou com maioria absoluta.

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site