O Ministério da Saúde de Gaza (abro um avantajado parêntesis para notar que, a julgar pelas notícias que nos chegam, o governo de Gaza parece ter um único ministério, o da Saúde. Raramente se ouve alusões ao Ministério do Interior, que existe, nunca se ouve alusões ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, que parece que está na Cisjordânia, e não há vestígios de um Ministério do Ambiente ou da Agricultura & Pescas. A preponderância da “pasta” da Saúde não admira, dada a desmesurada quantidade de hospitais, clínicas e estabelecimentos similares disseminados pelo território: sempre que Israel atinge um alvo ali, quase invariavelmente calha de ser um hospital. Às vezes, também acontece Israel atingir uma escola, embora não haja alusões nos “media” ao Ministério da Educação de Gaza. De qualquer modo, se descontarmos os escudos humanos, os massacres regulares de dissidentes, as penas brutais para homossexuais e adúlteras, a endoutrinação de criancinhas no ódio aos vizinhos e o pormenor de a generalidade dos “hospitais” e das “escolas” esconderem túneis e armazéns com propósitos bélicos, não há dúvida de que o Hamas valoriza imenso os cuidados médicos e a instrução) apresentou há dias um relatório com dados da natalidade  e da mortalidade locais, identificando mortes por causas naturais e violentas.

Mesmo sem procedermos ao desconto recomendado quando a informação é produzida por uma organização de terroristas sanguinários, o relatório declara inequivocamente que a população de Gaza tem aumentado desde o início da reacção israelita ao 7 de Outubro (cerca de 1,2%). Aliás, tem aumentado de forma bastante superior à média global (0,8%), ainda que inferior ao crescimento estratosférico que se registava até à guerra, e que era dos mais elevados do mundo (2,5%). Em princípio, estas minudências deveriam bastar para provar, ou mínimo sugerir, que nem Israel cometia genocídio pela fome antes de 2023 nem comete genocídio pelas armas de 2023 em diante. Por muito que se estique o conceito, convém que o conceito cubra a “intenção” de exterminar um determinado “grupo nacional, étnico, racial ou religioso”. Logo, das duas uma: ou os israelitas são genocidas terminalmente incompetentes, o que não é provável se atendermos ao respectivo poder militar, ou os israelitas não são genocidas e apenas se esforçam por erradicar a ameaça de uma associação recreativa que lhes invadiu o país para raptar, torturar e matar homens, mulheres, velhos e bebés. Parafraseando um espécime especialista em pântanos, a ofensiva sobre Gaza não nasceu no vácuo.

Em suma, pois, é o próprio Hamas a involuntariamente explicar que Israel não está a praticar genocídio nenhum. Por azar, desconfio que as inúmeras pessoas que repetem a propaganda do Hamas sem parança e com zelo não vão repetir esta particular evidência. Acredito que, no seu íntimo, fiquem aborrecidas com a circunstância de em Gaza não morrer tantos inocentes quanto gostariam, o que tira verdade aos slogans que guincham por aí. Porém, como a mentira jamais perturbou essa gente, em público os “activistas” do rio até ao mar vão continuar a jurar que sim, que as políticas israelitas são genocidas e responsáveis directas pelo falecimento de dezoito ou dezanove milhões de meninas e rapazinhos que o Hamas, apesar do enorme empenho, foi incapaz de proteger. E se, movido por uma ingénua crença na redenção humana, um mensageiro lhes apontar as estatísticas demográficas divulgadas pelo Hamas, o mensageiro será devidamente insultado , com a indispensável referência à choruda “avença” com que o governo de Netanyahu patrocina os seus lacaios.

Não adianta. Às vezes, os amigos da Palestina não se vergam nem aos argumentos do Hamas, donde é escusado procurar iluminá-los com argumentos adicionais que provam que os actos de Israel depois do 7 de Outubro são uma luta pela sobrevivência e não o genocídio das lendas. É por exemplo escusado lembrar que Israel retirara de Gaza em 2005. E que forneceu a Gaza electricidade e água durante 18 anos. E que em 2024 facilitou a vacinação contra a poliomelite de centenas de milhares de crianças, além de, previamente a 2023, atender nos seus hospitais milhares de doentes vindos de Gaza. E que 20 mil cidadãos de Gaza trabalhavam em Israel. E que cada ataque é precedido por avisos. E que os riscos da ofensiva terrestre são assumidos para reduzir a morte de civis. Etc. As acções de Israel não configuram genocídio, mas o oposto: a resistência ao genocídio que o Hamas, cuja “carta” pede o assassínio de judeus, francamente gostaria de perpetrar. E que os simpatizantes do Hamas gostariam que acontecesse.

O comentador e escritor Douglas Murray reparou que o episódio do voo Dubai-Telavive é uma analogia bastante precisa destes três (?) anos de guerra no Médio Oriente. Perante o perigo, suscitado pelo radicalismo islâmico, os israelitas a bordo, com a indispensável ajuda do comandante, perceberam que ou tratavam do assunto ou o assunto trataria deles. Eles trataram do assunto e tudo correu bem, felizmente para quem prefere os chamados valores ocidentais, infelizmente para quem, mesmo no Ocidente, escolhe os princípios do terror. A fim de manter a analogia, por aqui e por ali, nos “media” não faltaram notícias que, mais do que os factos, revelaram o desapontamento dos “jornalistas” que as assinaram. Uns garantiram que a coisa não passou de um “desentendimento” entre os pilotos – de cortar à faca, esqueceram-se de acrescentar. Outros insinuaram a escassa credibilidade da história através do recurso à atribuição (céptica) de fontes: “Um oficial de segurança israelita afirmou que…”; “Segundo Netanyahu…”.

Suponho que, a esta hora, já haja “activistas” a exigir a punição dos israelitas que entraram no cockpit (pelo crime de violação do direito internacional), que imobilizaram um dos raros muçulmanos a bordo (pelo crime de racismo), e que lhe aplicaram ou deviam ter aplicado uma valente carga de porrada (pelo crime, lá está, de genocídio). Caricatura? Os “anti-sionistas” é que costumam caricaturar judeus para legitimar o ódio que lhes têm e os genocídios com que sonham. Já era assim em 1933.