Nas eleições presidenciais do Egito, que começaram segunda-feira e continuam esta terça, os boletins de voto que, para além da cruz, incluam desenhos de corações ou declarações de amor, não vão ser invalidados.

As regras foram alteradas pela comissão eleitoral do país depois de no referendo de janeiro – em que 98% dos egípcios votaram a favor de uma nova constituição – muitos votos terem sido descartados porque continham a frase… “Eu amo-te”.

A quem se dirigia a declaração? Ao antigo líder do exército Abdul Fattah al-Sisi, que ajudou a depor Mohamed Morsi em julho do ano passado, depois de meses de protesto contra o líder da Irmandade Muçulmana. Sisi passou a ser adorado por muitos egípcios que o veem como um herói nacional e o único capaz de salvar o país da instabilidade política.

A BBC escreve que a popularidade de Sisi tomou proporções fora do normal. Nas ruas do país é possível comprar t-shirts, bijuteria, perfumes, chocolates e mesmo sandwiches com a imagem ou o nome do antigo líder do exército. Há quem venda cartões de identidade falsos com a fotografia do candidato. No espaço referente à profissão está escrito: “Salvador do Egito”. Na linha da morada pode ler-se: “o escritório presidencial”.

An Egyptian man displays a fake ID of Egypt's army chief Field Marshal Abdel Fattah al-Sisi which is being sold in the streets of Cairo as part of paraphernalia in support of Sisi's candidacy for the upcoming presidential elections, on January 28, 2014 in Cairo. Three years after a popular uprising forced out ex-general Hosni Mubarak, Egypt's army is again pushing a commander to stand for president after he ousted the first civilian head of state. The army endorsed its Field Marshall Abdel Fattah al-Sisi's candidacy for a presidential election scheduled to be held by mid-April. On of the writings in Arabic read: "Occupation: savior of Egypt".  AFP PHOTO/FAYEZ NURELDINE        (Photo credit should read FAYEZ NURELDINE/AFP/Getty Images)

Um cartão de identidade falso com a fotografia de Sisi

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Uma mulher criou uma linha de joalharia em honra de Sisi e deu-lhe o nome de “Segunda Vitória” porque considera que a deposição de Morsi foi o maior sucesso do exército egípcio desde a guerra israelo-árabe em 1973.

Outros preferiram prestar homenagem através da música. Uma instrutora de aeróbica, Bosy Moukhtar Bosey, fez um videoclip onde se podem ouvir frases em inglês como “Sisi, o amor dos egípcios” e “Agora todo o mundo sabe que tu és o líder dos egípcios”.

Nestas eleições presidenciais, Sisi tem apenas um adversário, o candidato da esquerda, Hamdeen Sabahi, e espera-se que o ex-líder do exército seja o grande vencedor. Abdul Fattah al-Sisi é apoiado pelos militares, pelas principais cadeias televisivas, bem como pela elite política e financeira. Morsi e outros membros da Irmandade Muçulmana estão presos e a organização não está representada na campanha para as presidenciais, situação que a CNN atribui aos esforços das autoridades egípcias para eliminar o movimento do panorama político do país.

Segundo a BBC, alguns consideram que o entusiasmo em torno de Sisi é exagerado e muitos pensam que uma mudança não será possível. De acordo com a CNN, os candidatos têm sido vagos nas propostas políticas, preferindo fazer declarações populistas na televisão. Ambos prometeram salvar a economia egípcia, mas nenhum explicou como vai criar emprego ou cortar nos subsídios para a alimentação e combustíveis, o que pode gerar uma onda de raiva junto dos mais pobres.

Os críticos de Sisi pensam que ele é um contrarrevolucionário e acusam-no de ser o principal responsável por abusos de direitos humanos que se têm registado no Egito desde que Morsi foi deposto, escreve a Al Jazeera. Alguns consideram que toda a parafernália propagandística disponível nas ruas é um sinal preocupante de um novo culto de personalidade.