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Um sargento norte-americano é resgatado depois de anos em cativeiro. No seu país é recebido como herói, mas depois começam as dúvidas. Talvez tenha sido convertido ao islamismo. Ou será um desertor. Onde é que já vimos isto? Na série televisiva “Homeland – Segurança Nacional”. Sem tirar nem pôr. Mas já lá vamos.

Alguns talibãs esperavam no ponto de encontro (ver vídeo). Outros vigiavam o perímetro nas montanhas com AK-47 e lança-roquetes. Bowe Bergdahl, um sargento norte-americano em cativeiro há cinco anos no Afeganistão, esperava dentro de uma pickup. Bergdahl estava vestido de branco e conversava tranquilamente com um talibã, enquanto esfregava os olhos, um reflexo típico de quem estranha a luz do dia. Chega a ver-se um sorriso. De repente, um helicóptero americano rasga o céu e aterra. Dois talibãs avançam, um deles tem uma bandeira branca na mão. Três norte-americanos caminham em direção aos homens, que têm Bowe junto deles. Cumprimentam-se com um aperto de mão e resgatam o soldado. Já no helicóptero, Bergdahl terá escrito “SF?” — a sigla que significa Semper Fi [“sempre leais” em latim], o mote dos “marines” norte-americanos — num prato de papel. “Sim”, responderam-lhe. Parece Hollywood, certo? Mas não é…

NicholasBrody

Nicholas Brody (fotografia retirada da Wikipedia)

Nicholas Brody. Lembra-se deste nome? Era o protagonista da série televisiva “Homeland – Segurança Nacional”. Na série, Brody, um sargento norte-americano, foi prisioneiro da al-Qaeda e esteve em cativeiro durante oito anos. Uma operação de resgate levou-o de volta para o seu país, onde foi recebido como um herói. Não tardou para que os rumores de que tinha sido convertido começassem a ecoar nos serviços secretos, designadamente pela voz da agente da CIA Carrie Mathison. Mais tarde, Brody conseguiria ser eleito para o Congresso.

Voltemos à realidade. Bowe Bergdahl (28 anos), que segundo o Guardian denota dificuldades a falar inglês, foi também ele recebido como um herói. A primeira grande polémica prende-se com os termos da libertação deste soldado. Obama reconheceu que aceitou trocar cinco prisioneiros ligados à al-Qaeda que estavam em Guantanamo. “Se há a possibilidade de alguns deles voltarem a fazer-nos dano? Absolutamente”, admitiu numa conferência de imprensa em Varsóvia, na Polónia. “[Os Estados Unidos] têm uma regra sagrada: não deixamos as nossas mulheres e homens de uniforme para trás. Isto é o que acontece no fim das guerras”, assegurou, lembrando que George Washington, Abraham Lincoln e Franklin Roosevelt tomaram decisões da mesma natureza noutra fase da História.

Obama

Barack Obama a discursar em Varsóvia

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“Não interrogámos o sargento Bergdahl, obviamente”, explicou Obama. “Antes de regressar à normalidade deverá passar por um processo de transição significativo.”

E se Bergdahl for um desertor? Alguns veteranos não têm duvidas. “Eu estava chateado na altura, e estou mais ainda agora com isto tudo a acontecer”, disse o antigo sargento Matt Vierkant, um membro do pelotão de Bergdahl, em declarações à CNN. “Bowe Bergdahl desertou durante um período de guerra e os seus camaradas americanos perderam a vida à procura dele”, rematou.

“Ele abandonou o seu posto. Ninguém sabe se trocou para a oposição, ou se é um traidor, ou se foi raptado. O que eu sei é que ele estava lá para nos proteger e, em vez disso, decidiu sair e fazer a sua ‘cena’. Não sei porque decidiu fazê-lo mas gastámos muitos recursos, e muitos desses recursos foram as vidas dos soldados”, disse Jose Baggett, um antigo soldado. Josh Korder, um antigo sargento, acusou-o de traição: “Qualquer um de nós teria morrido por ele enquanto ele estava connosco. Vê-lo a abandonar-nos assim… foi uma grande traição”.

Numa entrevista à Agência France Press, um comandante paquistanês de uma fação talibã (Haqqani) contou o dia a dia de Bergdahl. Segundo o membro da al-Qaeda, o soldado bebia muito chá verde, aprendeu a falar dari e pasthum e jogava badminton. Os guardas terão tentado que ele se misturasse com os princípios do islão e até lhe forneceram vários livros, mas o norte-americano continuaria sempre a celebrar as festas cristãs. “Não falhava uma. Começava semanas antes a falar aos guardas do Natal e da Páscoa e festejava-as com eles.”

Na ficção, Brody levou para a sua vida o islão, rezando todos os dias na garagem de sua casa longe dos olhos da sua família. Um dia a filha descobriu e ele teve de explicar-se. Havia aprendido outros valores, mas continuava o mesmo, assegurava. A expressão que palpita na nossa mente quando recordamos esses momentos religiosos é, invariavelmente, “allahu akbar” — “deus é grande”.

DESENCANTO PELA AMéRICA

Um artigo da Rolling Stone contou ao pormenor a história do “último prisioneiro de guerra”. O desaparecimento de Bergdahl aconteceu a 30 junho de 2009. Antes disso, era recorrente trocar emails com os seus pais. A última mensagem enviada datava de 27 de junho. O pai reconheceu à revista que a morte de um camarada próximo terá afetado o seu humor. Era tudo de mais para Bowe.

Último email: “Mãe, pai, o futuro é bom de mais para gastar em mentiras. A vida é curta de mais para tratar de castigar os outros, assim como para ajudar idiotas com as suas ideias erradas. Eu vi as suas ideias e sinto-me envergonhado de ser americano. O horror da hipocrisia arrogante que eles propagam. É tudo revoltante. (…) O sistema está errado. O título de soldado americano é simplesmente uma mentira de idiotas.” As duras palavras contra o Exército do seu país continuaram: “O Exército americano é a maior piada de que o mundo se pode rir. É o Exército dos mentirosos, dos traidores, idiotas e dos bullies. Os poucos bons sargentos vão embora assim que podem e estão a dizer aos soldados para fazerem o mesmo.”

“Estas pessoas [os afegãos] precisam de ajuda, mas o que têm é o país mais conceituado do mundo a dizer-lhes que não são nada e que são estúpidos, de que não têm ideia de como viver”, continuou a escrever. Os pais contaram que o filho viu um menino afegão a ser atropelado por uma viatura norte-americana, o que terá sido outro momento traumático. Os lamentos continuaram: “Nós nem queremos saber quando nos ouvimos a dizer que os nossos camiões atropelaram crianças… Nós fazemos pouco deles na cara deles e rimo-nos para eles por não entenderem que os estamos a insultar.”

Este desencanto era profundo e terá levado a que se levantassem questões sobre a sua lealdade ao país. “Lamento por isto tudo. O horror é que a América é nojenta”, concluiu assim o email.

O pai não se conteve na resposta e escreveu no título do email “OBEDECE À TUA CONSCIÊNCIA”. Assim, em letras maiúsculas. “Querido Bowe, em casos de vida e morte, e especialmente na guerra, nunca é seguro ignorar a consciência de alguém. A ética obriga a que obedeçamos à nossa consciência”, escreveu.

Terá havido um desencanto semelhante em “Homeland – Segurança Nacional”? Sim senhor. Nicholas Brody criou uma relação próxima com o filho do seu raptor, Abu Nazir, um importante jihadista. O filho de Nazir, que Brody amava como um filho, foi morto por um ataque de um drone do exército norte-americano, o que despertou sentimentos de ódio em Brody.

Esta história está longe de acabar. Falta ouvir Bergdahl. Falta saber se os serviços secretos estão a tentar ligá-lo a terroristas, tal como fez Carrie Mathison na série televisiva, levando-a à loucura e a tratamentos de choque. Falta saber porque abandonou a sua base naquela noite de junho. “Homeland – Segurança Nacional” na vida real, quem diria?