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Em dezembro de 2010, Mohammed Bouazizi, um jovem tunisino de 26 anos desempregado, que vendia fruta e legumes, auto-imolou-se, em sinal de protesto pelo Governo ter confiscado o seu carrinho de mercadorias. A morte de Bouazizi gerou protestos por toda a Tunísia, que acabaram por se estender a outros países do Norte de África, desencadeando aquilo que ficou conhecido como Primavera Árabe.

Colin Fenton, que dirige a investigação sobre matérias primas e estratégia na JP Morgan, escreveu que o aumento dos preços do alho e de outros alimentos de primeira necessidade na Tunísia tinha sido um indicador das revoltas que se seguiram. Agora, de acordo com a Business Insider (BI), Fenton voltou a chamar a atenção para uma tendência: os preços do alho estão a subir novamente, registando-se valores 75% mais elevados do que a média de preços dos últimos cinco anos. Nas Filipinas, os preços do alho chegaram aos 295 pesos filipinos por quilo (cerca de 4,93 euros por quilo).

“Será que este vegetal humilde nos está a alertar para o regresso da volatilidade dos mercados globais? Serão os efeitos inflacionários da política de taxas de juro a zero?”, escreve Colin Fenton. Segundo o site Business Insider, mesmo que a observação de Fenton acabe por se revelar limitada, o aumento dos preços do alho está a causar pressão no orçamento filipino para comida e a revelar a insegurança alimentar latente no sudeste asiático.

A Business Insider diz que as tendências da Google confirmam um grande interesse dos filipinos no aumento dos preços do alho e acrescenta que esta atenção não se verifica na maior parte do mundo. Nem mesmo na China, o maior produtor e exportador de alho (fornece cerca de três quartos da produção mundial), onde, entre março e novembro de 2009, o preço deste produto aumentou 40 vezes.

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No caso da China, os analistas falaram de uma “bolha do alho” e encontraram pelo menos três razões para explicar esta situação. Em primeiro lugar, as plantações de alho diminuíram 50% porque houve uma redução da procura pelo produto com a crise de 2008. Mas a procura aumentou novamente em 2009 por causa dos rumores de que o alho poderia ajudar a prevenir a Gripe Suína. Em terceiro lugar, a fácil concessão de crédito dada pelo Governo chinês deixou muito dinheiro disponível para os especuladores investirem na área que em cada momento parece dar mais lucro. Em 2009, era o alho.

Segundo o jornal filipino Philippine Star, o aumento dos preços pode ser o resultado de um conjunto de fatores como a baixa produção doméstica e a recusa dos comerciantes em serem abastecidos por produtores locais. O mesmo jornal escreve que o secretário da Agricultura filipino, Proceso Alcala, disse que há suspeitas de que os comerciantes estão a guardar grandes quantidades de alho. Suspeitas essas que estão a ser investigadas, disse Alcala.

Há cerca de duas semanas, o Governo filipino começou a monitorizar diariamente as transações de alho em 13 mercados públicos em Manila. De acordo com o Philippine Star, para tentar reduzir os preços, foram permitidas lojas ambulantes na capital do país para ajudar as cooperativas de agricultores a distribuir os seus produtos sem precisarem de intermediários.

A Business Insider escreve que nos países emergentes, onde a comida tem um peso significativo no Índice de Preços ao Consumidor, – indicador que mede as mudanças no nível de preços de determinado cabaz de produtos – o aumento nos preços de certos vegetais pode destabilizar os mercados locais e desencadear a volatilidade.

Foi o que aconteceu, escreve o BI, de uma forma geral, nos países que passaram pela Primavera Árabe e também na Índia, onde o aumento do preço das cebolas – um ingrediente fundamental na maioria das refeições indianas – provoca grande instabilidade.

Em 2013, depois de os preços das cebolas terem registado um aumento de 245%, o Business Insider lembrou algumas reações desencadeadas por esta grande subida. O site de promoções Groupon na Índia ficou em baixo depois de ter oferecido descontos de 85% na compra de cebolas, o que permitia adquirir um quilo deste produto por nove rupias indianas (aproximadamente 11 cêntimos). Para além disso, houve tentativas de roubo de cebolas e uma disputa partidária entre o partido do Congresso, líder na altura, e o partido da oposição BJP. Um membro do Bharatiya Janata Party chegou mesmo a depositar cebolas num banco como forma de protesto.