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Ter consulta ou sofrer os efeitos da greve? Compreensão, revolta ou surpresa? Arriscar ou ficar em casa? Um pouco de tudo. E, nesta greve dos médicos em Coimbra, há uma frase dita a várias vozes: “Eles lá sabem”.

8h, o trânsito nas instalações do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra (CHUC) não andará longe do caos habitual. “Nem parece um dia de greve”, desabafa um dos seguranças. Mas no interior das consultas externas nota-se a diferença. Há pessoas que se deslocaram em vão, há serviços diminuídos, há longas filas à espera de uma luz que pode não chegar.

Glória Andrade vinha para uma consulta de Medicina Interna. Veio de propósito da Tocha. Saiu do Hospital revoltada. Não com a greve propriamente dita, mas com a falta de informações. “Liguei ontem e não me conseguiram dar uma resposta. E vim aqui para nada”, lamenta.

O Hospital tem muitos utentes que não são de Coimbra, nem sequer do distrito. Luís veio de Figueiró dos Vinhos (Leiria). Trouxe a mãe a uma consulta e nem sequer sabia da existência da greve. Saiu como entrou, sem cuidados de saúde e sem uma nova data para consulta. Não sabendo do protesto, nem dos motivos que o justificam, não sabe se concorda ou não com os médicos.

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Apesar do transtorno, há quem tenha muito respeito pela contestação médica. Nuno Ferreira é um dos mais jovens que se avistam e vinha para uma consulta de fisiatria. Não a teve e, assim, teria de esperar duas semanas por novos tratamentos de fisioterapia. Mas garante que o médico vai arranjar uma forma de o ver mais cedo. Não se trata de uma cunha, mas apenas fruto de uma relação médico-doente de longa data. Nuno acrescenta: “Eles lá sabem a razão dos protestos. Se todos sofremos, eles também sofrem de certeza”.

Há opiniões muito distintas. E há quem vá mais longe do que as posições da Ordem dos Médicos. “Em vez de dois dias, devia ser mais tempo. Até que esta gente pare de enterrar o Serviço Nacional de Saúde”. As palavras peremptórias são de João Valado. Ele que hoje não teve problemas. Veio apenas para um tratamento de uma tendinite e esses serviços clínicos não foram prejudicados.

Entre utentes, vão-se vendo alguns médicos. Vêem-se os que estão a trabalhar, naturalmente. Mas também João Gil, um médico que está a fazer greve e que se deslocou esta manhã ao Hospital. Um dado insólito, justificado assim: “Isto não é um restaurante, em que se possa fechar a porta e voltar noutro dia”. É a consciência que o faz aderir à greve, para não permitir que “o Serviço Nacional de Saúde deixe de ser um serviço abrangente e se reduza a um gueto para o que é mais assistencial e não é lucrativo”. Mas é também a consciência que o faz deslocar-se ao CHUC, para garantir que nenhuma situação urgente ficou por tratar.

João Gil assegura que, na oftalmologia onde trabalha, grande parte dos médicos fizeram greve. Uma situação que não se terá repercutido em todos os setores. De acordo com o diretor clínico do CHUC, José Pedro Figueiredo, “houve serviços onde a greve teve algum impacto, mas houve outros onde este foi praticamente nulo”. E deixou uma mensagem de tranquilidade à população: “Os serviços mínimos estão normalmente assegurados e as cirurgias e consultas serão recalendarizadas a partir do final da semana”.

Um dos serviços com menos contingências poderá ter sido o de otorrinolaringologia. É pelo menos a impressão da utente Palmira Silva. Veio relativamente de perto, de Souselas. Conseguiu ter consulta e, apesar de faltarem alguns médicos, pareceu-lhe que as coisas estavam a funcionar de forma quase normal. “Apesar da greve, vim à aventura e consegui ser atendida”, esclarece sorridente.

Assim, o alívio mistura-se com a revolta e a satisfação com o impasse. E, ao invés dos insultos, há pelo menos muita compreensão no escuro pelos motivos que justificam a contestação. Com exceções e algumas dúvidas, uma espécie de cheque em branco passado a quem nos trata da saúde. “Eles lá sabem”…