“Quando se escolhe um candidato a primeiro-ministro, a personalidade, o caráter político é muito importante. Também isso tem de ser avaliado na vida política nacional. Não há tabus neste debate”. É assim que António José Seguro explica, numa extensa entrevista ao jornal Público, a personalização da campanha das primárias, com críticas diretas a António Costa e a rejeição de uma alegada promiscuidade de uma ala do partido com os negócios do Estado e setor privado.

“Há uma mistura entre política e interesses”, reitera o secretário-geral, sem querer adiantar mais. “Os leitores do Público perceberão o que quero dizer”. Para António Costa sobram as responsabilizações. Diz que o autarca de Lisboa “criou um problema novo” e que “violou uma cultura de solidariedade e de lealdade”. Mais até: responsabiliza-o por uma eventual ausência de maioria absoluta nas próximas legislativas: “Antes desta crise, provocada pelo António Costa, eu diria que o PS tinha todas as condições para obter uma maioria absoluta”. Ainda que mantenha o objetivo e reitere que não governará sem ela (mesmo que para isso tenha de fazer uma coligação).

Essa coligação, diz Seguro, terá de partir dos pressupostos programáticos do PS: manter o Estado social, manter Portugal na UE. “Os compromissos que vierem a ser feitos não podem obrigar a cedências que sejam contrárias aos princípios do PS. Não governarei a qualquer custo, nem a qualquer preço”, garante.

Nas cinco páginas da entrevista, Seguro é conduzido de volta aos temas que têm marcado a campanha. O Governo de Sócrates (“Não enjeito nenhum do passado do PS, mas também não trago nenhum passado de volta”); mas também o candidato Guterres: 

Se quiser ser candidato a Presidente, estou convencido que receberá o apoio da esmagadora maioria, não só dos socialistas, mas de muitos cidadãos portugueses. Já há muitos meses que digo que vejo nele três condições: capacidade enorme de diálogo, sensibilidade social e prestígio internacional que é indispensável para a ação do futuro Governo do país.

Também passa pelas suas propostas para o país. As de hoje, que passam pelo fim dos cortes retroativos nas pensões ou o aumento do IVA na restauração, entre outras: “A totalidade das propostas do PS não ultrapassa 0,5% do PIB. Aquilo de que me podem acusar é de ser muito rigoroso e muito criterioso. A alternativa a estas propostas que apresentamos é fecharmos o país”, assegura. Mas passando também pelas propostas futuras, com um ligeiro levantar do véu:

É indispensável fazermos o processo de conversão entre o sistema público de pensões e o geral. Entre outras coisas. Mas comigo também fica assumido que não há cortes retroativos nas pensões. 

Seguro passa também pela transparência, dizendo que “não é aceitável que existam deputados que, por serem advogados, estejam a coberto do estatuto dos advogados e argumentem que não podem dizer para quem é que trabalham e de que é que recebem dinheiro”. A sua proposta é a de criar “níveis de transparência para que os eleitores possam avaliar”. 

Quanto ao seu futuro Governo (ganhando as primárias e, depois, as legislativas), Seguro retira Costa do elenco. “Considero que António Costa deve cumprir o seu mandato, para o qual os lisboetas o elegeram”.