Quantas vezes no meio de uma discussão a mulher consegue lembrar-se de todos os pormenores de uma conversa ou de uma promessa que aconteceu há vários dias (ou anos) e o homem não faz ideia do que ela está a falar ou tem apenas uma vaga lembrança? É um lugar-comum afirmar que as mulheres têm melhor memória do que os homens, mas afinal pode não ser bem assim. Se, de qualquer forma, precisar de se justificar com a falta de memória, diga que a culpa é dos seus pais.

Os cientistas afirmaram já várias vezes que as características físicas, emocionais e psicológicas de cada indivíduo não são causadas unicamente pela informação genética guardada nas células, mas também pela influência do ambiente em que se cresce – como a sociedade, a cultura ou a educação. A forma como os pais educam os filhos, especificamente, na maneira em como se interessam pelas histórias que os filhos contam, vai influenciar a memória em adultos, segundo Azriel Grysman e Judith Hudson, investigadores na Universidade Rutgers, nos Estados Unidos.

Durante a evolução do homem enquanto espécie, o cérebro de homens e mulheres poderá ter seguido caminhos evolutivos diferentes, isto porque tinham funções diferentes – o homem caçava e passava muito tempo sozinho, a mulher colhia frutos e convivia com outras mulheres e com as crianças -, afirmam Allan e Barbara Pease, autores do livro “Porque é que os homens nunca ouvem nada e as mulheres não sabem ler os mapas de estrada”, editado em Portugal pela Bizâncio. Mas o cérebro é um órgão plástico e vai responder aos estímulos consoante o treino que lhe for dado.

São os pais, ou outros educadores, os principais responsáveis pelas palavras que as crianças aprendem e pela forma como guardam memórias. Quanto mais estimularem as crianças a contar detalhadamente como correu o dia na escola, a festa de anos de um amigo ou a brincadeira no parque, mais importância a criança dará aos pormenores e mais facilidade terá em lembrar-se deles no futuro, dizem os investigadores Grysman e Hudson no artigo publicado pela revista científica Development Review, com a ressalva de que poderá não ser o único fator.

Assim, se os educadores estimularem da mesma forma raparigas e rapazes, não existirá aparentemente diferenças na capacidade de se recordarem de um acontecimento em pormenor. O que os autores do artigo verificaram, da análise dos estudos que compilaram, é que quando as mulheres se mostraram mais emotivas, mais ligadas aos outros e com narrativas mais elaboradas, poderão ter tido conversas com os pais que as tornaram mais conscientes de si próprias, modificando os pormenores a que estavam atentas nos acontecimentos da vida. Mas os autores alertam que faltam mais estudos para confirmar as ideias que agora reúnem.

“As diferenças de género nas conversas entre pais e filhos são muito provavelmente reflexo das normas sociais e expetativas que são comunicadas às crianças”, dizem os investigadores Azriel Grysman e Judith Hudson. A forma como se comportam com os filhos, condiciona o desenvolvimento das crianças muito antes de estas conseguirem verbalizar o que pensam: os pais tendem a falar mais vezes cara a cara com as meninas e a mimar no colo os rapazes; como as raparigas são mais emotivas e mais expressivas desde bebés (pelo menos facialmente), os pais tendem a responder da mesma forma, e pelo contrário a ser menos expressivos e emotivos com os rapazes.

Portanto converse com o seu filho, olhe-o nos olhos e pergunte como correu o dia na escola. Se tiver dificuldade nesta última parte, o Observador reuniu 25 formas de perguntar “como correu a escola?” que o podem ajudar.