A urna eletrónica usada nas eleições no Brasil, que tem sido um modelo para outros países, tem falhas e não está imune a fraudes, alerta Diego Aranha, docente de Ciências da Computação da Universidade Estadual de Campinas, no interior de São Paulo. Aranha coordenou o grupo da Universidade de Brasília que, em 2012, identificou erros na urna, conseguindo ultrapassar o seu sistema de sigilo e recuperar a ordem de quase todos os votos nela registados, durante testes promovidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Aranha afirma que, atualmente, o maior risco oferecido pela urna é a ação de agentes internos que a alterem de maneira indetetável para a sociedade ou para os operadores do sistema. O investigador defende que a impressão do voto, hoje inexistente, tornaria o processo mais confiável e permitiria ao eleitor verificar se o sistema se comportou de maneira honesta.

“A solução verdadeira não reside apenas em recursos tecnológicos, e sim no fortalecimento do processo, combinando vantagens da votação eletrónica com a votação manual”, afirmou Aranha, realçando que tanto as votações apenas eletrónicas como as puramente em papel são mais vulneráveis a fraudes.

O especialista afirma que a solução poderia ser um sistema que combinasse características dos dois tipos de votação, e que produzisse, no final do escrutínio, múltiplos registos dos votos. “A maioria das máquinas de votar em operação noutros países obedece a esses princípios, para que os resultados não dependam unicamente do software de votação”, acrescentou. Segundo Aranha, o Estado brasileiro não mostrou interesse em realizar novos testes à urna eletrónica depois de 2012.

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Ao todo, 530 mil urnas eletrónicas foram usadas na primeira volta das eleições brasileiras, no último dia 5 de outubro. Findo o escrutínio, foram registadas queixas nas redes sociais, tanto sobre a dificuldade em acionar alguns números da urna como sobre erros no reconhecimento de eleitores pelo sistema biométrico, que está a ser implantado.

O TSE negou que tenha havido erros e, no dia 5, justificou os problemas descritos pelos eleitores com um suposto mau uso da urna. Segundo o tribunal, a urna eletrónica grava somente a indicação de que o eleitor já votou, e, pela criptografia dos dados e outros mecanismos de segurança, não há a possibilidade de se verificar quais os candidatos que obtiveram o voto.