Diogo Freitas do Amaral lembra Mário Soares, que completa 90 anos no domingo, como o “adversário muito difícil” que o exercício do poder torna “um homem tolerante”, e que lhe enviou flores no dia seguinte a tê-lo derrotado nas presidenciais de 1986.

“Toda aquela combatividade e energia sem contemplações que ele tinha no combate político, depois, no exercício do poder, transformava-se num líder magnânimo, tolerante, aberto a todos”, declarou Freitas do Amaral, em entrevista à Agência Lusa.

A propósito dos 90 anos que Mário Soares completa no domingo, Freitas do Amaral lembrou o seu adversário nas eleições presidenciais de 1986 disputadas em duas voltas. Soares venceu com 51, 18 % contra os 48,82 % de Freitas, depois de o último ter tido 46,31 % na primeira volta, enquanto Soares tinha obtido 25, 43%.

Freitas do Amaral só havia de voltar a falar com Soares um ano depois das eleições, confessamente sentido com o que considerou terem sido as críticas injustas à sua atividade académica que o adversário lhe dirigiu no calor da campanha eleitoral.

Quando se voltaram a encontrar, Soares pediu-lhe desculpa. Um ano antes, no dia seguinte às eleições, logo de manhã, Freitas tinha um ramo de flores enviado por Soares a chegar-lhe a casa.

“Quando ele no dia da vitória nas presidenciais disse que ia ser o Presidente de todos os portugueses – fórmula que veio a ser repetida por todos os Presidentes da República eleitos depois dele – ele estava a dizer a verdade”, contou.

“A começar por mim, no dia seguinte à vitória eleitoral tinha um ramo de flores de mais de um metro de altura, enviada por ele, ‘com um grande abraço democrático, para si e para a sua excelentíssima esposa’. Não creio que nenhum outro candidato presidencial vencedor tenha feito isso a qualquer candidato derrotado, mas ele é assim, está na maneira de ser dele”, declarou.

A pluralidade de Soares provoca diálogos improváveis, recorda Freitas: “Era um homem que convidava para São Bento ou para Belém pessoas de todas as correntes e sensibilidades. Punha-me a mim a conversar com o Dr. Cunhal, punha o Henry Kissinger a falar com o Dr. Jorge de Melo, que era um grande empresário do anterior regime, etc”.

Para o professor de Direito, o antigo primeiro-ministro e Presidente da República é “uma figura de referência deste regime”, que simboliza o próprio regime democrático, argumentando que “foi muito importante antes do 25 de Abril no combate à ditadura e depois do 25 de Abril no combate à tentativa comunista de tomada do poder”.

Convidado a isolar um momento definidor de Mário Soares, Freitas do Amaral aponta o comício da Fonte Luminosa, em que, a 19 de julho de 1975, o PS exige a demissão do primeiro-ministro Vasco Gonçalves, o que viria a acontecer pouco tempo depois.

“Esse foi um momento definidor. Temos aí o Dr. Mário Soares com todas as suas qualidades: a coragem, a oportunidade, a capacidade de influenciar os acontecimentos, e a fidelidade a uma ideia de democracia que não contemporizava nem com as ditaduras de direita, nem com eventuais ditaduras de esquerda”, afirmou.

Atualmente, Soares e Freitas almoçam e conversam com frequência, “mais próximos” politicamente, mas “não no mesmo local” ideológico, frisa o professor de Direito que foi ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro Governo do socialista José Sócrates.

“O Dr. Mário Soares é um socialista, pertencente à Internacional Socialista, com todas as características próprias do socialismo democrático. Eu continuo a ser democrata-cristão”, sublinhou.

Freitas do Amaral não dá apenas os parabéns a Mário Soares pelos seus 90 anos, felicita-o igualmente “pela vida que teve e pelo bem que fez ao país”.

“Para quem chega aos 90 não é impossível chegar aos 100”, desejou.