Há uma razão para poucas, muito poucas, equipas inglesas terem o verde a predominar no equipamento. Fora de superstições, inimizades com a Irlanda ou qualquer outra crença, a verdade é que, em 1912, a Football Association deixou que o verde passasse a ser uma de três cores para os guarda-redes utilizarem nos jogos. Eles gostaram, só pode, pois até à década de 80 era esse o tom que todos, quase todos, vestiam por Inglaterra. Daí que nenhum clube na Premier League tenha no verde a cor preferida.

O Chelsea é exemplo. Escolheu o azul, misturado, uma vez ou outra, ou traços de branco. O Sporting não. É português, portanto nada disto o afetava e sempre foi amigo do verde. Por respeito ou não, contudo, chegou a Londres em modo alternativo: de amarelo quase integral. Ou por acreditar que o verde vestido no Bessa, na sexta-feira, foi um chamariz para o azar que deu a Nani uma lesão e aos leões um problema — não teriam o craque, o melhor jogador, o homem que brilha, contra a equipa de José Mourinho.

Talvez por isso o leão pareceu leãozinho. A equipa encolheu-se e pegou na faca de dois gumes, a que deu ao Chelsea o respeito que o clube merece, mas que não pode ter. Porque assim agiganta-se ainda mais, domina o adversário e encurrala-o na própria timidez. Escrito e feito, pois o Sporting, nos primeiros dez minutos, mal ultrapassou a linha do meio e viu o Chelsea, à sua frente, a tocar nos 80% de tempo passado com a bola e a atacar os leões por todo o lado. Sentia-se o respeito e a hesitação, a tal que Ricardo Esgaio, aos 7’, teve quando abriu as pernas à frente de Filipe Luís, deu uma via para o brasileiro passar a bola e vestir uma cueca ao português.

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Pelo meio, Esgaio derrubou o adversário e o árbitro apitou. Era penálti e o primeiro castigo inglês que Cèsc Fabregas, o espanhol em quem a bola cai sempre, transformou em golo. 1-0 e, em oito minutos, o Sporting já perdia pelo resultado que, em Lisboa, durara 90 minutos. Sem Nani na relva, alguém tinha de crescer, pedir a bola e assumir os dribles que o craque costuma construir. Carrillo fizera-o contra o Boavista e toda a gente o sentenciara a fazê-lo em Londres.

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Aos 12’ tabelou com o calcanhar de Adrien e inventou uma jogada que deixou Capel, na esquerda, sozinho com a bola. Saiu um cruzamento frouxo. Aos 15’, umas fintas do peruano voltam a levar a bola até ao espanhol, que de novo decidiu mal quando errou o passe para a corrida que aí vinha de Jonathan Silva. Os leões perdiam a timidez em dois momentos e o Chelsea aborrecia-se: aos 16’, uma troca de passes com última paragem em Matic levou o sérvio a colocar a bola em Schurrle que, à entrada da área, se virou para a baliza e rematou para o 2-0. Maurício, que atrás de si estava, quase nada fez para o impedir.

Agora entrava a estratégia. Os blues, com bola, trocavam éne passes e, caso fosse um contra-ataque, faziam as coisas tão rápido que facilmente desmontava a defesa do Sporting. Mas, a defender, abrandaram, recuaram e também se encolhiam. Ou seja: os leões podiam crescer. E fizeram-no. A posse de bola quase ficou nos 50-50 e foram várias as jogadas em que o Sporting rondou a área inglesa. Adrien e João Mário mexiam-se mais e tabelavam sempre que podiam com Carrillo. Aos 21’ e 36’ houve cruzamentos perigosos na área do Chelsea, mas pelo meio houve um remate de Schurrle, com a canela, que Rui Patrício desviou com dificuldade.

Intervalo era tempo para respirar. Não de preocupação, mas talvez de alívio. Afinal, em Maribor, o 0-0 prosseguia e, portanto, os oitavos de final continuavam a ser um destino reservado ao Sporting. Por isso Marco Silva nada fez. Nada trocou. A segunda parte arrancou e só não houve logo um golo porque o livre que Schurrle bateu não acertou na baliza por pouco. Seria uma questão de minutos, pois aos 50’ houve um golo. E foi do Sporting, quando Carrillo, na direita, arrancou, enganou Filipe Luís, cruzou e viu o tal Schurrle cortar a bola para o pé direito de Jonathan Silva, que pode ser cego, mas viu o caminho para o 2-1.

Lá se ia o respeito. Mas por pouco, porque aos 56’ o Chelsea voltou a puxar as rédeas do jogo para os seus pés. Fabregas, na esquerda, bateu um livre, cruzou a bola e via-a ser desviada perto do primeiro poste, até parar no pé de John Obi Mikel, que não marcava há 11 meses e agora fazia-o quase em cima da linha de baliza. Era o 3-1 e o Sporting ficava igual em golos sofridos e marcados nesta Champions (12 contra 12). Não era uma má notícia — essa viria um pouco depois.

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Aos 62 minutos, mais coisa menos coisa, chegava uma notícia da Eslovénia. O Schalke 04, pelo pé do pequenote Max Meyer, acabara de marcar um golo. E assim a rota do voo mudava e os leões passavam a ter um bilhete na mão para os dezasseis avos de final da Liga Europa. Esqueça-se o respeito: agora era preciso arriscar. Marco Silva até já o tinha feito, uns minutos antes, quando trocara William Carvalho por Fredy Montero, mas, além de um cabeceamento de Slimani que Petr Cech defendeu em cima da linha, os leões não produziram mais nenhuma ameaça.

Adrien Silva ainda usou o pé canhoto para rematar à entrada da área, aos 79’, mas a bola não acertou na baliza. Aos 86’ usou o direito para a pontapear outra vez, dentro da área, após Carrillo se livrar de Azpilicueta junto à linha. Nada aconteceu, pois um corpo de defesas tapou a baliza. Os blues, nesta altura, já só defendiam e respeitavam a urgência do Sporting em carregar, atacar e procurar jogadas que lhe dessem golos e a passagem aos “oitavos”. Aos 88’ foi Jonathan Silva a ter espaço para, de longe, rematar e, perto do poste, Cech defender.

Os golos não mais apareceram. Em Londres ou em Maribor. E esta seca, o 3-1 em Stamford Bridge e o 1-0 no Estádio Ljudski (na Eslovénia) confirmariam a ligação que o Sporting fará em fevereiro — descolará da Liga dos Campeões e rumará à Liga Europa. As duas derrotas, os dois empates e as três derrotas deram sete pontos aos leões, os que José Mourinho queria ver como suficientes para a equipa de Alvalade se qualificar, mas que o Schalke tornou insuficientes.

Jogar o futuro em Londres seria sempre arriscado. Muito mesmo. E, a queixar-se de algo, os leões terão sempre de suspirar pelo empate deixado em Maribor, na primeira jornada e no último minuto ou, em último caso, do penálti que só o árbitro viu no 3-3 que acabou em 4-3 na Veltins Arena, contra o Schalke 04.