Não existe qualquer placa de identificação na filial da Frente Nacional, em Paris. A porta fica ao lado de umas janelas baças pelo tempo, há uma campainha e nada mais. Estamos na Rua Jeanne D’Arc e não há um único sinal de que ali fica o partido francês mais à direita, aquele que defendeu o regresso da pena de morte e a reintrodução de fronteiras na Europa.

A mulher que abre a porta, ao fim de alguma insistência, justifica: “Entre rápido, por razões de segurança não gostamos de nos expor”. Desde o ataque ao semanário satírico Charlie Hebdo, há uma semana, que o correio transborda e o telefone não para de tocar, garantem.

“Há dois tipos de telefonemas: os das pessoas que se querem mostrar solidárias com o partido e os que querem informações ou formulários para aderirem”, explica ao Observador Bernadette de la Bourdonnaye, responsável pelas relações com a imprensa.

“Estamos cheias de trabalho e sem mãos a medir. Desde a semana passada que não param de chegar cheques com adesões e o telefone não para”, conta.

Ainda não há números de adesões após os ataques em Paris, mas, em setembro de 2014, o partido contava já com mais de 83 mil adesões, um recorde desde 2011 – o partido recebeu uma média de 20 mil inscritos por ano.

O número de telefonemas levou a que a Frente Nacional organizasse um encontro em Nanterre, onde funciona a sede o partido, para que as pessoas pudessem obter informações e pudessem inscrever-se.

Bernadette de la Bourdonnaye, que abre envelopes enquanto fala ao Observador, tem nas mãos cheques com vários valores. A maior parte é de 250 euros. “A Marine Le Pen sempre disse que o dinheiro não seria um problema para quem quisesse aderir ao partido. Assim, um estudante paga 30 euros anuais. Depois, há vários valores, consoante o que cada um pode dar”, refere. Há vários tipos de adesão possível: além de estudante, há preços para adesões de “casais” ou para adesões “de suporte”. A do valor mais elevado chama-se “adesão prestígio”.

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Bernadette de la Bourdonnaye, responsável pelas relações com a imprensa da FN.

Quem está na sede diz que, entre quarta-feira e sábado, grande parte dos telefonemas que chegaram foram por solidariedade. Porquê? Na quinta-feira, o Presidente francês, François Hollande, reuniu com vários partidos para organizar a marcha da República (que se realizou no domingo, mas chegou a estar prevista para sábado), e não convidou a Frente Nacional. A líder do partido, Marine Le Pen, que tinha já agendado um encontro com o Presidente na manhã de sexta-feira, decidiu não ir à marcha. Trocou-a por uma outra, precisamente em Nanterre, onde o partido joga em casa. “Foi uma querela política. Mas Hollande esteve mal, porque numa manifestação pela união e pela liberdade de expressão, não ter vontade que a Frente Nacional esteja presente…”, opina Bernardette, antes de fazer questão de mostrar um “cartaz antigo” onde Marine Le Pen apela à “união do povo francês” – o mote da marcha da República.

As duas mulheres que trabalham ao cimo de umas escadas de madeira, que ligam uma biblioteca aos escritórios, passaram a manhã na Prefeitura de Paris, numa homenagem aos polícias mortos. Já estiveram em vários locais a prestar homenagem às vítimas dos ataques registados na última semana. “Não fomos à marcha, mas temos feito homenagens por todo o País”, garante Bernadette.

No discurso da Frente Nacional, tudo é medido. A responsável ressalva, por exemplo, que os “ataques não são bons para ninguém”. Mas é óbvio para todos que, desde quarta-feira, o partido não larga o assunto, procurando reforçar o discurso mais radical de França – um dos mais duros da Europa contra a imigração. “O que dá pena é que há muito que a Marine Le Pen diz que o extremismo islâmico é perigoso, que há pessoas a serem recrutadas nas prisões. Ela fez um diagnóstico e não foi ouvida ou levada a sério”, diz.

“O que queríamos era fechar as fronteiras para impedir os terroristas e as armas de entrarem no País. E controlar melhor quem sai e quem entra”, diz. “Isto não é simples?”, interroga.

Mas é mais complicado do que isso. Marine Le Pen pediu já a suspensão dos acordos de Schengen, que permitem a livre circulação entre países europeus, e que deve ser impedido o regresso a França aos cidadãos com dupla nacionalidade que vão para países terceiros lutar em células terroristas. Disse, também, que “os islamitas abriram guerra contra França”, justificando que seja dada — palavras de Le Pen — “aos franceses a oportunidade de se pronunciarem sobre o regresso da pena de morte” através de um referendo – e que a pena de morte devia fazer parte do “arsenal penal” francês. Jean-Marie Le Pen, pai de Marine Le Pen e fundador da Frente Nacional, até utilizou, por exemplo, um conhecido slogan britânico para apelar ao voto na sua filha no Twitter: “Keep calm and vote Le Pen”.

“Discurso perigoso e enganador” 

Paulo Sande, antigo diretor do Gabinete em Portugal do Parlamento Europeu, olha para o discurso adotado pela Frente Nacional, e não só não vê simplicidade como considera mesmo que a radicalização defendida, “na linha do que sempre foi defendido pelo partido”, é altamente contraproducente. “É um discurso perigoso, e enganador. Pretende levar as pessoas a pensarem que acabar com Schengen é acabar com os atentados. Isso não é verdade. E é um discurso de demagogia, que usa os argumentos tradicionais de um partido de extrema-direita, as pessoas não vão ficar mais seguras.”

Paulo Sande sublinha que a argumentação de Marine Le Pen se baseia em pressupostos errados: “Dizer que as fronteiras nacionais protegem mais que um espaço alargado, com reforço nas fronteiras, partilha de informação, é um erro. O que acontece é justamente o oposto, é precisamente com fronteiras alargadas que se consegue lutar contra ameaças destas”. E o antigo diretor do Gabinete em Portugal do Parlamento Europeu aponta um perigo: “É evidente que há uma radicalização, as sociedades europeias estão muito radicalizadas, a crise também trouxe isso, os imigrantes são muitas vezes culpabilizados. Se nós apontarmos os islâmicos como inimigos, estamos a falar de muitos milhões na Europa. Só em França são quase quatro milhões. Pessoas a quem a República francesa reconheceu a nacionalidade. Isto é um problema de fundo. Estaremos a dar razões para os islamitas recrutarem, ao radicalizarmos o discurso.”