No passado, a escritora e jornalista espanhola Rosa Montero achava indecente que se fizesse uso artístico da dor. A canção “Tears in Heaven”, que Eric Clapton compôs para o filho de quatro anos que morreu, ou o livro Paula, que Isabel Allende escreveu sobre a morte da filha, eram uma espécie de tráfico de uma dor que deveria ser conservada pura. A ridícula ideia de não voltar a ver-te, lançado a 23 de janeiro em Portugal pela Porto Editora, foi escrito após a morte do marido e inspirou-se no diário que Marie Curie escreveu quando, também ela, perdeu o marido. “Não é um livro de luto”, esclareceu ao Observador Rosa Montero, aquando da sua passagem por Lisboa. Aos 64 anos já não conserva a mesma opinião sobre Eric Clapton e Isabel Allende. Acredita que “na origem da criatividade está o sofrimento, o próprio e o alheio”.

Logo na primeira página surge o aviso: este não é um livro sobre a morte. Nem Rosa escreveu A ridícula ideia de não voltar a ver-te para se salvar da morte do marido, Pablo Lizcano, falecido com cancro em 2009. “Quando a minha editora me mandou o diário de Marie Curie para escrever o prólogo passavam já mais de dois anos desde a morte de Pablo. E eu já tinha feito o luto. O que me interessou no diário é a dimensão pessoal que dava à figura de Marie Curie”, contou. Leu-o imediatamente e conheceu outra faceta da cientista que em 1903 rompeu os cânones ao ser a primeira mulher a ganhar um Prémio Nobel, neste caso o da Física (em 1911 ganharia também o da Química). Em vez de escrever um prólogo, escreveu um livro inteiro, onde no final estão publicadas as poucas páginas que compõem o diário.

“Dei-me conta de que a personagem de Marie Curie é enorme – por um lado é apaixonada, por outro irracional – e que me podia servir como tela de projeção para uma série de reflexões e de emoções que eu andava a sentir e a dar voltas à cabeça nos últimos dois, três anos”. Para além da morte do marido, a entrada nos 60 anos também estava a levantar questões. “Chegas a uma idade em que começas a olhar à tua volta e a pensar o que fizeste da tua vida. Quando vi o diário pensei que a figura enorme e complexa de Marie Curie me poderia ajudar a refletir publica e literariamente sobre tudo isto”. Ajudou.

“A mim, escrever salva-me a vida. Como a maioria dos romancistas, comecei a escrever em criança, tinha cinco anos quando escrevi os meus primeiros contos. Sem isso eu não podia viver, então, todos os livros de alguma maneira salvam-me a vida. Este não me salva mais a vida do que os outros livros”, disse Rosa.

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Capa do livro de Rosa Montero

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Como o luto de certa forma já estava feito, Rosa Montero conseguiu escrever sobre a morte de forma despudorada, sem melodrama, e também sobre a beleza da vida. “Na vida moderna, cada vez mais se oculta a morte, evita-se que nos vejam chorar, ocultam-se os mortos, que morrem nos hospitais. Temos uma relação de negação perante a morte que não creio que seja nada boa“, disse.

A ascensão de Marie Curie num mundo de homens levou a que a forma como a sociedade tem tratado a mulher ao longo dos tempos fosse um dos temas centrais da narrativa. Para além da cientista polaca, ao longo das 148 páginas lembram-se outras mulheres importantes que nunca tiveram o reconhecimento que mereciam, apenas porque nasceram no período errado com o sexo errado. E não foi assim há tanto tempo. “Comecei a trabalhar com 18 anos, nos últimos anos do Franquismo. Naquela época ias pedir trabalho e diziam-te que não contratavam mulheres. Podiam dizê-lo porque não era ilegal!”, contou Rosa, para quem as sociedades de Itália e Espanha na década de 1990 ainda eram “sociedades católicas e extremamente machistas”.

Rosa soube em dezembro que venceu o prémio da crítica de Madrid com A ridícula ideia de não voltar a ver-te. Admitiu que a realidade está a mudar, mas ainda há muito que fazer. Mesmo nos meios mais intelectuais. “Publicam-se muito menos críticas de livros de mulheres nos suplementos culturais do que de homens. Quando se fazem antologias, por exemplo ‘a literatura na última década’, as mulheres quase não estão presentes. No júri dos grandes prémios quase não há mulheres. Nos prémios então é uma vergonha. Em quase 60 anos de Prémio da Crítica há pouquíssimas mulheres. É ridículo!”, acusou a escritora, que reivindica a palavra feminista.

Rosa Montero, escritora,

Rosa Montero: “Temos uma relação de negação perante a morte que não creio que seja nada boa”. ©André Correia

Portugal não entrou na crítica ao machismo na sociedade. Da cultura lusa, só chegam elogios. “Eu tenho uma grande relação com Portugal. Adoro, Adoro. Sinto-me melhor aqui do em casa porque sinto-me em casa mas sem as coisas de que não gosto em Espanha. Lá somos muito mais agressivos, gritamos mais, somos mais intolerantes. Vocês são como a parte boa de Espanha. Tenho um apartamento aqui em Cascais e grande parte dos meus últimos livros foram escritos aqui. Este incluído“, adiantou. No livro, por exemplo, cita Fernando Pessoa e Paula Rego.

“Pessoa é magnífico, é um escritor moderníssimo nessa coisa louca e vertiginosa dos heterónimos. No século XXI estamos a viver a fragmentação do eu, a multiplicidade do eu mais do que nunca. E Paula Rego parece-me uma das pintoras vivas mais importantes do mundo. Tem uma capacidade de misturar o horror com a ternura, a beleza com a fealdade. A sua mão é brutal”, disse.

“Há uma urgência por livros de reflexão”

O Babelia, suplemento cultural do El País, jornal para o qual Rosa Montero trabalha em exclusividade, começou 2015 a dizer que o ensaio está de volta ao primeiro plano, seja na filosofia, na política ou na ciência. “O mundo inteiro está no auge do ensaio porque precisamos de pensar o global. Temos a sensação de que tudo está em crise: o sistema democrático, o sistema partidário, tudo”. Rosa concorda, por isso, que há uma urgência por livros de reflexão em todo o mundo. Mesmo em Espanha, onde, segundo ela, “o ensaio nunca foi o forte dos espanhóis”.

“Ao longo da história temos sido muito bons narradores, muito bons pintores, músicos medianos. Mas pensadores não. Filósofos, muito pouco. O racional não é o nosso forte”, disse.

A ridícula ideia de não voltar a ver-te continua a vender muito, tanto em Espanha como na América Latina, mesmo dois anos após a publicação. “Tenho tido um feedback maravilhoso”, contou a autora. “Os leitores sempre me escreveram cartas, mas com este livro escreveram-me muitíssimas mais. 90% eram histórias de luto, mas o extraordinário é que não eram histórias tristes, eram histórias belas que celebravam a vida e o amor. Eu não escrevi com esta intenção, mas o livro ofereceu às pessoas um espaço para poderem resgatar a beleza que houve na sua dor. Essa parece-me ser a função da literatura”.

Se na origem da criatividade está o sofrimento, como defendeu, pode então dizer-se que o seu melhor livro foi este? Não necessariamente. “O romance é um género de maturidade, então tenho a sensação de que há seis ou sete anos que estou no meu melhor momento criativo. Este livro insere-se nesse período, com outros que sinto serem as minhas melhores obras”, admitiu.

Quando se encontrou com este tema, Rosa Montero tinha um romance em mãos, mas estava bloqueada. “Já estava a trabalhá-lo há mais de um ano, tenho três ou quatro capítulos, e de repente perdi-lhe o sentido. Não podia continuar a escrevê-lo e agora está congelado, no meu frigorífico mental”, disse. Depois de A ridícula ideia de não voltar a ver-te já escreveu outro romance, que vai sair a 17 de fevereiro em Espanha. Chama-se O Peso do Coração, é com a mesma protagonista do livro de 2012 Lágrimas na Chuva, Bruna Husky, e passa-se em Madrid no ano de 2109. “Cada vez é mais difícil voltar àquele romance inacabado. Creio que morreu. Está a ponto de morrer, vá”, disse a escritora, em tom bem-humorado.