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desilusão

Podiam-se escrever linhas, linhas e mais linhas sobre o mesmo: erros e enganos de quem anda no relvado com um apito na boca. O árbitro, como todos os outros, é humano. Dizer só é cliché porque ainda está por inventar uma palavra que seja mais do que isso. Em Moreira de Cónegos, já na segunda parte, Salvio deu um salto, tentou ganhar um penálti e foi o último a tocar na bola. Era pontapé de baliza, mas deu canto e golo para o Benfica.

Também por lá André Simões falou, refilou, o árbitro não gostou e pronto, cartão vermelho direto. No dia seguinte, a sul, em Alvalade, queixaram-se de um penálti por marcar a favor do Sporting. Depois, de volta ao norte, no Bessa, a mesma queixa se viu quando Hernâni foi derrubado na grande área. E avistou-se outra, distinta, quando o Boavista reclamou que um picanço de Jackson Martínez com Gabriel valeria ao colombiano a expulsão.

Dois parágrafos escritos apenas com enganos que apontaram aos homens do apito.

Mais poderiam seguir-se sob o mesmo tema, pois os erros acontecem em qualquer jogo do campeonato. Mas para quê? A decisão, errada ou certa, está tomada, e os árbitros, como qualquer jogador que pisa o relvado, continuarão a enganar-se por muito mais tempo. Umas vezes em lançamentos laterais, outras em cantos e umas quantas em faltas dentro da área. Ninguém escapa ao erro, por maior concentração que haja. E, se chegaram ao nível de primeira liga, é normal que ninguém sinta mais o erro do que o árbitro que o cometeu.

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Mas, ano sim, ano sim, uma decisão mal tomada é sinónimo para o árbitro passar quase uma semana a ler e ouvir coisas sobre si. E às vezes não têm que esperar muito: é logo mal a partida termina, quando treinadores, jornalistas e comentadores concentram a atenção de hora e meia de bola a rolar no par de segundos em que a pessoa que ali estava, no relvado, a fazer cumprir as regras, se enganou. Como seria se, no final de cada jogo, os árbitros opinassem sobre a prestação dos jogadores com quem tinham acabado de partilhar o relvado?

Talvez não dissessem coisas boas, por exemplo, sobre o Estoril, que em casa, com o antepenúltimo classificado à frente, somou a quarta derrota consecutiva na liga. Ou do Vitória de Guimarães, que continua no top-5 da liga, mas registou o terceiro jogo seguido sem vencer — algo, aliás, que só conseguiu uma vez nos últimos sete encontros.

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“Hoje voltamos a não ter sorte, ou a ter azar. Houve um penálti evidente e tivemos azar, o árbitro não viu. Há outras equipas, que são boas e bem orientadas, mas que quando o futebol não lhes chega, também não têm azar.” Julen Lopetegui, uma vez mais, resolveu falar sobre arbitragem no final de um jogo. Quer ganha, empata ou perca, este tem sido o estilo do espanhol que, esta época, colocou o FC Porto a praticar, talvez, o futebol mais bonito de se ver em Portugal — por isso até coloca adversários a dizerem coisas destas.

É rara a partida na qual o treinador, seja nas flash interviews ou nas conferências de imprensa, chega ao final e não oferece palavras à prestação do árbitro. Tanto Lopetegui como qualquer outro técnico, contudo, nada ganham por criticarem o desempenho do árbitro após um encontro. Porque mais do que o próprio erro do oficial, às vezes são as reações dos técnicos ou dos jogadores que puxam a arbitragem para o foco mediático.

destaque

Quem reclamou atenção dos holofotes, nesta jornada, foi Nani. O extremou, no verão, aterrou em Portugal feito craque. Arrancou bem, a fintar, inventar assistências e a marcar golos. Uma lesão no sintético do Bessa deixou-o cinco semanas sem tocar na bola a sério e, quando voltou, não era o mesmo. Talvez por isso, e pelos adeptos, que, timidamente, já assobiavam uma ou outra finta a mais, não tenha aguentado as lágrimas.

E pelo golo, também: a cerca de 35 metros da baliza do Gil Vicente, o extremo resolveu arriscar e disparar um remate, de pé esquerdo. Acabou em golaço. Nani festejou e chorou — já não marcava de bola corrida desde novembro, quando, também com o pé canhoto, marcara frente ao Maribor, na Eslovénia, para a Liga dos Campeões.

Ele, por este pontapé, e Jackson Martínez, pelo 17.º golo que marcou no campeonato, ao Boavista, podem chegar ao clássico, no próximo domingo, com confiança inflacionada. É assim que se querem os craques nestes jogos. De fora, à espera, estará o Benfica, que tem em Jonas o melhor negócio que se fez por Portugal esta temporada. E que negócio: o brasileiro, de 30 anos, chegou à Luz sem custos de transferência e já leva 16 golos marcados. O último serviu para fechar o 3-1 que bateu o Moreirense.

Quem pouco gastou para reunir um plantel foi o Belenenses. Nem podia gastar. Com muitos ou poucos recursos, a verdade é que os azuis foram à Madeira vencer (2-1 ao Marítimo) e, com tantos solavancos em Guimarães, já só estão a três pontos do quinto lugar que dá bilhete para a Liga Europa. Isto num clube que, a temporada passada, salvou-se da despromoção apenas na última jornada. Quem diria.

resultados

Paços de Ferreira 2-2 Vitória de Guimarães
Sporting de Braga 3-1 Nacional da Madeira
Vitória de Setúbal 0-1 Penafiel
Moreirense 1-3 Benfica
Arouca 1-0 Rio Ave
Marítimo 1-2 Belenenses
Estoril Praia 1-2 Académica
Sporting 2-0 Gil Vicente
Boavista 0-2 FC Porto

Onze anos depois, o Boavista voltou a perder um dérbi frente ao FC Porto — e não foi capaz de aproveitar o estádio e o relvado que lhe têm servido para se manter fora dos lugares de descida. Quererá voltar a aproveitá-los, pois, longe do Bessa, a equipa ainda só marcou três golos e conseguiu apenas uma vitória. Longe da Europa continua a estar o Rio Ave que, nos últimos três encontros, perdeu dois e empatou um, teimando em tropeçar quando tem equipa para caminhar sem desequilíbrios.