Ainda não passaram 24 horas desde aquele momento e as palavras que saem da boca de Kwame Sousa continuam trémulas. Eram cerca de 21h00 de quinta-feira quando o comboio em que seguia parou. Seria apenas mais uma paragem desde que partira de Lisboa rumo a Faro. Mas, naquele momento, oito militares da GNR irromperam pela carruagem e dirigiram-se a ele. Pediram-lhe os documento, revistaram-lhe o saco e depois abandonaram o local sem mais explicações. Ao Observador, a GNR diz que o artista — é isso que Kwame Sousa é — foi abordado no âmbito de uma operação policial que decorre a nível europeu. “Eu era o único preto e foi por isso”, acusa ele.

Integrado com mais 20 artistas no projeto Mar e Montanha da Trienal no Alentejo, Kwane Sousa deslocava-se para o Algarve para uma exposição. E foi isso mesmo que tentou explicar aos militares que o abordaram com cães – para detetar possíveis vestígios de droga.

 “Vinha a viajar tranquilamente. Fiz o caminho todo até Loulé. Mandam parar o comboio, entra um grupo de polícias com um cão, não falam com ninguém, passam diretamente, atravessam a carruagem, e vão até mim. Eles dizem ‘Boa Tarde’ e pedem os documentos, eu perguntei para quê. Disseram que estavam a fazer o trabalho deles. Entreguei os documentos à polícia, pegaram no meu passaporte e foram para a rua. Dois militares ficaram ao pé de mim, num comboio cheio de gente. Todo o mundo sabe que existe um certo estigma com o pessoal africano ou negro, não me deram justificação nenhuma”, dispara Kwame Sousa, nascido em São Tomé.

Enquanto ficou cercado por dois militares, dois outros saíram do comboio com o passaporte do “suspeito” na mão. Regressaram. Devolveram o passaporte e nada mais disseram. Na carruagem, diz Kwame Sousa, todos os passageiros foram solidários com ele, justificando o que acabara de se passar como “um ato xenófobo”. “Eu vou queixar-me ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e à Embaixada”, garante Kwame.

 “Quero que a GNR me apresente um pedido de desculpa formal. Podiam ter-me chamado para ir lá fora. Podiam explicar-me porque estavam a revistar-me”, disse.

Contactado pelo Observador, o responsável pelas relações públicas da GNR explicou que Kwame foi intercetado “aleatoriamente” como centenas de outras pessoas foram ao longo de quarta e quinta-feira – no âmbito da tal operação contra a criminalidade a nível europeu, através da Railpol, que envolve várias forças e serviços de segurança.

O major Bruno Marques explicou ainda que estas operações têm que ser rápidas para não impedir o “normal funcionamento dos transportes públicos”. “Para explicar o que se estava a passar, teríamos que o levar lá para fora”, diz.