(Este artigo está já desatualizado. Para saber os resultados eleitorais israelitas consulte este artigo)

Os resultados oficiais das eleições legislativas em Israel só serão conhecidos quarta-feira de manhã, mas os números à boca das urnas vão desmentido as sondagens: 27 lugares no Knisset para o Likud de Benjamin Netanyahu, o atual presidente no poder há seis anos, e 27 para a União Sionista, coligação liderada por Isaac Herzog, segundo uma sondagem do Canal 10 e Canal 1 — há ainda uma outra sondagem que dá conta de uma vantagem de uma cadeira para Netanyahu (28-27). Estes resultados levaram o presidente Reuven Rivlin a declarar nesta noite de terça-feira que um bloco central seria a única solução viável.

“Estou convencido que apenas uma união governamental [bloco central entre Likud e União Sionista] pode evitar uma rápida desintegração da democracia de Israel e novas eleições no futuro próximo”, disse Rivlin, citado pelo Live Blog do Hareetz. Esta solução de Governo, que prevê uma rotação de papéis, aconteceu em 1984: Shimon Peres (Partido Trabalhista) exerceu o cargo de primeiro-ministro durante os primeiros 25 meses, enquanto o líder do Likud, Yitzhak Shamir, assumiu a pasta dos Negócios Estrangeiros. Na segunda metade do mandato inverteram-se os papéis. Netanyahu afirmou ao Canal 2, no entanto, que não aceitaria “rodar no cargo com Herzog” e deixou claro que “não existe essa opção”.

A abstenção continua a descer desde 2006: a taxa de participação destas eleições situou-se nos 71.8%, melhorando assim o registo observado em 2013: 67.8%. Em 2009 registou-se 65.2%, enquanto em 2006 foi de 63.2%.

Está tudo em aberto. O dia foi longo, com várias declarações via Facebook, apelando ao voto. Netanyahu, por exemplo, pediu aos eleitores para votarem nele para contrariarem o voto em massa dos árabes de Israel. O primeiro-ministro viu até ser-lhe proibida uma conferência de imprensa, por ser considerada “propaganda ilegal” pelo comité de eleições. Herzog mostrava-se “cuidadosamente otimista” no final do dia e afirmava que o rival estava “em pânico” e “histérico”.

Enquanto a realidade vai refutando as sondagens, há uma surpresa nestes números recolhidos à  boca das urnas: a Lista Conjunta, um bloco de partidos árabes israelitas, tornou-se, até ver, na terceira força política, com a previsão de 13 cadeiras no Knisset. “Os árabes já disseram que não querem formar governo com Herzog, mas já admitiram também que poderão dar apoio tácito”, explica ao Observador Gustavo Plácido dos Santos, do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança (IPRIS). “Pode ser relevante. Houve pressão por parte de [Mahmoud] Abbas [presidente da Autoridade Palestiniana] para os árabes apoiarem o centro-esquerda.”

Embora não sejam conhecidos os resultados oficiais, Netanyahu, que até declarou “grande vitória” no Twitter, começou a negociar com Naftali Bennett, do Habayit Hayehudi, que se acredita contar com oito cadeiras. A crer nas sondagens à boca das urnas, os dois partidos contarão com 35 cadeiras no Knisset, um número ainda muito longe dos 61 necessários. Mas talvez esta seja uma estratégia para condicionar e dar um sinal ao presidente israelita, mostrando que tem apoios e condições para governar. O líder escolhido pelo presidente para formar governo terá 42 dias para garantir essa maioria de 61 elementos. Se falhar, o rival terá hipótese de formar Governo. Ver aqui as contas da Vox.

Paulo Gorjão, diretor do IPRIS, não considera que seja complicada encontrar uma coligação governativa, no entanto prevê muita instabilidade para o futuro próximo de Israel. “A questão mais importante é saber qual a durabilidade e as condições que este Governo terá. Se, de facto, as sondagens estiverem certas e houver esse intervalo mínimo entre os dois partidos, então esse será um Governo a curto prazo. Estamos a escolher um Governo que independentemente da sua geometria partidária não vai ter uma vida longa”, explica.

E lembra: “Não deixa de ser curioso que Netanyahu convocou eleições [em dezembro] por considerar que estava em grandes condições de vencer a corrida.” As sondagens eram-lhe favoráveis em dezembro, altura em que rompeu a coligação governativa e demitiu o ministro das Finanças, Yair Lapid (um dos representantes do centro-direita), e a ministra da Justiça, Tzipi Livni (herdeira da tradição centrista do Kadima de Ariel Sharon). Livni juntar-se-ia a Herzog, formando a União Sionista.

CAMPANHA E CENÁRIOS

Benjamin Netanyahu encabeçou todas as sondagens até março, altura em que foi ao congresso norte-americano, a convite dos republicanos e à revelia de Barack Obama, para endurecer a retórica anti-Irão, rejeitando o acordo nuclear entre Estados Unidos e aquele país. Para Gourjão, essa foi uma jogada de risco, não só a ida ao congresso como o assentar de toda a narrativa na segurança, como era hábito em Israel. Herzog assentou a campanha na economia, nas condições de vida da população e nos elevados preços das casas, que terão aumentado 55% entre 2008 e 2014.

O país mudou, segundo o diretor o IPRIS. “A novidade destas eleições é a visibilidade e o impacto que os temas não securitários tiveram pela primeira vez. Não há memória de uma eleição em que a segurança e a defesa tivessem menor relevância como acontece agora. Netanyahu apostou fortemente no mesmo registo, de forma muito demagógica e populista, como é o traço dele. É uma jogada de alto risco. Se vencer, percebeu o que ninguém percebeu… Se perder, falhou completamente na leitura das prioridades da população”, explica Gorjão.

E o futuro? Como estão e ficarão as relações com a Casa Branca? “A prioridade do próximo Governo será remediar essa relação, que está completamente arruinada. Israel teve sempre o apoio dos republicanos e democratas, mas estes últimos não apoiaram a ida ao congresso”, explica Gustavo Santos. “Se Herzog ganhar, só pela postura dele, que é mais calmo e menos agressivo — Netanyahu é um verdadeiro falcão –, será positivo. Mas considero também que seja qual for o líder do próximo Governo, desde que não seja Netanyahu, será do agrado dos Estados Unidos.”

Paulo Gorjão prevê uma relação difícil até ao final do mandato de Barack Obama caso Netanyahu vença as eleições. “Não facilitará a vida a Obama. A questão do Irão continua a ser uma questão muito complicada de gerir. Não auguro nada de positivo para a relação entre Israel e EUA se Netanyahu se mantiver no poder. Se ‘Bibi’ [Netanyahu] voltar a ganhar, vamos ter mais do mesmo, em relação a EUA, Palestina e no contexto do Médio Oriente.” O diretor do IPRIS considera também que Netanyahu, em caso de vitória, sofrerá uma pressão forte por parte dos países europeus, que poderão inclusive “reconhecer o Estado da Palestina”.

E se Herzog vencer? Uma das bandeiras da campanha da União Sionista, e daí também o apoio [tácito ou não] dos árabes, dava conta do reconhecimento do Estado da Palestina. “Vejo uma grande possibilidade de haver o reatamento do processo de paz patrocinado pelos Estados Unidos”, prevê Gorjão.

Já Gustavo Santos, que considera Herzog semelhante a Netanyahu, embora “mais discreto semanticamente”, mostra-se mais reticente quanto ao processo de paz, principalmente pelo afastamento do Egipto: “Estas negociações têm de ter um parceiro forte, que tem sido o Egipto. Mas este tem cortado relações e tem-se afastado da região… Herzog até poderá procurar retomar as negociações, mas não acredito que possam avançar…”