Jo Nesbø vivia feliz na Noruega. De dia era corretor de bolsa e de noite uma rock star nos Di Derre, banda de bastante sucesso naquele país nórdico. Até que, em 1997, descobriu uma nova droga: a escrita. Nas cinco semanas de férias que foi passar à Austrália o descanso saiu do roteiro e, no seu lugar, nasceu O Morcego, o primeiro livro da carreira e a primeira aventura do anti-herói Harry Hole.

Voltou à Noruega, despediu-se do mundo da finança, disse aos companheiros de banda que não iria contribuir com novas composições nos próximos tempos e começou a construir o percurso que o tornou num dos mais talentosos autores da literatura policial nórdica. Através da Dom Quixote, já publicou seis livros da série Harry Hole em Portugal. Ao contrário do que seria de esperar, as páginas onde tudo começou só chegaram agora às livrarias portuguesas. Jo Nesbø passou por Lisboa para apresentar O Morcego e aproveitou para explicar ao Observador porque decidiu deixar o início para o fim.

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Quando regressou à Noruega, Jo Nesbø enviou o manuscrito a uma editora, na esperança de receber alguns conselhos. Em vez disso, foi surpreendido com uma proposta de publicação. Quando lhe perguntaram quanto tempo tinha demorado a escrever o livro, respondeu “um ano e meio”. Achou que a verdade — cinco semanas — não ia soar muito profissional. Ainda que tenham sido cinco semanas muito intensas. A droga da escrita tinha batido forte nas veias da estrela rock.

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O escritor nunca relê os livros que escreve. Mas abriu uma exceção para O Morcego. Ao revisitar o princípio da história do detetive da polícia de Oslo Harry Hole, e protagonista já de uma dezena de livros, Nesbø ficou surpreendido. Em 1997 já estavam montadas as bases do anti-herói que nunca se sabe se é bom ou mau, qual Walter White de Breaking Bad. O autor gosta de brincar com os sentimentos dos leitores através do protagonista. Primeiro conquista-os. Depois, quando começa a mostrar os seus defeitos, “é tarde demais”. “É como se começasses a torcer pela equipa errada. Dás por ti a torcer pelo Benfica, mas já és do Sporting porque foi o clube que apareceu primeiro.”

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O motivo pelo qual a história de O Morcego se passa na Austrália é precisamente porque Harry Hole não é o típico protagonista bonzinho, que dominava a ficção nos anos 90. Como castigo por ter atropelado mortalmente um colega por estar embriagado, Harry Hole é enviado numa missão a Sydney com o intuito de ajudar nas investigações ao homicídio de uma celebridade televisiva norueguesa. Mas o que começa por ser simples no início acaba por se tornar muito estranho e intrincado.

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Em 1997, a ficção policial nórdica já era muito popular na Noruega, na Dinamarca e na Suécia, países onde havia uma tradição dentro deste estilo desde os anos 70. O mundo só a descobriu mais tarde. Para Jo Nesbø, nem tudo o que tem selo de policial nórdico tem qualidade. Se a Escandinávia quer manter a popularidade internacional, tem de continuar a trabalhar, pois nada está garantido.

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Desde 1997, o escritor tem publicado livros da série Harry Hole de dois em dois anos. O último foi em 2013. Significa que em 2015 teremos novo livro? Não necessariamente. Neste momento está a trabalhar em The Son, cujo primeiro livro foi publicado em 2014. Recebeu também um convite para escrever um romance baseado em Macbeth, a propósito das comemorações dos 400 anos da morte de William Shakespeare, em 2016. Só depois disso haverá uma nova aventura de Harry Hole. Em Portugal, contudo, o Observador apurou que, no final do ano, vai chegar às livrarias mais um livro da série, intitulado O Fantasma, escrito em 2011.

Jo Nesbø já teve um dos seus livros, Caçadores de Cabeças, adaptado ao cinema pelo realizador de “O Jogo da Imitação“, Morten Tyldum. No entanto, mostrou-se muito relutante em vender os direitos da série protagonizada por Harry Hole, por querer preservar a personagem que existe no imaginário de cada leitor. A não ser que fosse Martin Scorsese a levar o seu herói para o grande ecrã. E eis que o impensável aconteceu.

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