A propagação de bactérias multirresistentes das fezes das gaivotas do Porto e Matosinhos está a estagnar ou até a diminuir, porque as cidades estão a “tratar melhor os esgotos”, indica um estudo científico da Universidade do Porto.
“Os resultados preliminares indicam que há uma estabilização ou até uma ligeira diminuição na disseminação das bactérias multirresistentes” que se encontram nas fezes das gaivotas, disse em entrevista à Lusa Paulo Martins da Costa, investigador na área das resistências aos antibióticos e que está a trabalhar no estudo sobre a monitorização de resistência aos antibióticos em bactérias isoladas de gaivotas, que arrancou em novembro transato e termina este verão.
Ao contrário do que está a suceder em ambientes hospitalares, onde as bactérias multirresistentes estão a aumentar, a verdade é que nas fezes das gaivotas está a detetar-se uma ligeira diminuição, revelou o especialista e professor de Segurança Alimentar no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto.
O fator mais determinante para a “evolução favorável” sobre a estabilização das bactérias multirresistentes nas gaivotas, é porque as cidades estão a “tratar melhor os esgotos”. Apesar do registo de uma ligeira diminuição das bactérias multirresistentes nas gaivotas, continua a existir um risco para a saúde pública, porque as gaivotas acabam por “involuntariamente se infetar com os micro-organismos e depois devolvem-nos à população humana”.
Quando a parte microbiana passa ilesa das Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) para o meio ambiente, acabam por ser as gaivotas, cujo habitat mais comum é em zonas aquáticos, que ficam infetadas com esses micróbios e os lançam depois, através das fezes, nas praias, águas e interiores das cidades, explica Paulo Martins da Costa, considerando ser urgente “pesquisar novos antibióticos”.
“Nós [entenda-se o Homem] vamo-nos cruzar, de uma forma muito indireta, com os produtos veiculados nessas fezes (…) quando damos um banho no mar, quando fazemos atividades de recreio junto à orla marítima ou mesmo quando passeamos pela própria cidade, onde as gaivotas estão por toda a parte”, constata o especialista.
Questionado pela Lusa sobre quais as vantagens de haver gaivotas nas cidades o investigador disse que “não há nenhuma”. “Elas são símbolo de liberdade no seu ecossistema natural, no ambiente selvagem”, disse, reiterando que a acumulação de dejetos é também um problema de saúde pública. “São preocupantes os dejetos na cidade que depois se transformam num finíssimo pó que poisa na roupa, nas refeições e nos alimentos de venda ao ar livre”, alerta.
As gaivotas na região do Porto e em toda a linha costeira atlântica e mediterrânica, já não fazem o ciclo de vida fora do ambiente citadino e já são conhecidas por “gaivotas urbanas”, porque nas urbes elas encontram alimento fácil, habitat e locais onde nidificar e pernoitar interessantes, bem como clima que não as obriga a migrar.
As câmaras do Porto, Matosinhos e Gaia colocaram em curso medidas para travar a proliferação de gaivotas naquelas cidades, com destaque para a proibição de alimentar as aves, colocação de pinos em edifícios e falcões no rio Douro.