Quando Cristóvão Norte ligou a Pedro Passos Coelho a dizer que o apoiava na sua intenção de concorrer à liderança do PSD, sem nunca o ter conhecido pessoalmente, o atual primeiro-ministro respondeu que ficava muito contente por receber um telefonema de um militante histórico do PSD. Cristóvão Norte corrigiu-o a tempo: “Eu não sou nenhum militante histórico, esse é o meu pai”.

Pai e filho têm agora 40 anos a separá-los na Assembleia da República. Um foi deputado na Constituinte por Faro – o único mandato conquistado pelo PPD/PSD a baixo do Tejo – e impulsionador de uma das maiores festas do partido, a Festa do Pontal, enquanto o outro é atualmente deputado no Parlamento. Este sábado, assistiram os dois às comemorações do 25 de abril na Assembleia da República.

Há 24 anos que Cristóvão Norte pai não pisava a Assembleia da República. Só o voltou a fazer há poucos dias, aquando uma iniciativa do Expresso que reuniu vários antigos deputados à Constituinte no Parlamento para assinalar os 40 anos da sua eleição. Cristóvão Norte diz que não voltou antes porque “é uma daquelas coisas que se vai adiando” e acabou por participar no encontro porque o filho “insistiu muito”. Eleito em 1975 para a Constituinte, ficou no Parlamento até 1991. Atualmente diz que é o filho que não o deixa afastar-se da política. “Eu nunca estou afastado, tenho plena noção do que se passa, mas ele chega a casa e pergunta-me o que é que eu acho disto ou daquilo e acabamos a debater”, afirma ao Observador.

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Cristóvão Norte, em segundo plano, durante a Assembleia Constituinte

Convidado a entrar para o partido por Carlos Mota Pinto, que tinha sido seu professor em Coimbra, Cristóvão Norte foi um dos 81 deputados eleitos pelo PPD – mais tarde PPD/PSD – em 1975 e teve lugar na Comissão Permanente que juntava o núcleo duro dos pais da Constituição como Jorge Miranda, Marcelo Rebelo de Sousa, Freitas do Amaral ou Vital Moreira. “Era uma comissão de luxo e eu brincava com eles a dizer que nem sequer percebia o que eles diziam porque eu era só licenciado em Direito e eles eram todos professores. Mas estava lá porque fui o único eleito a Sul do Tejo”, refere Cristóvão Norte. A difícil implementação do PPD no Alentejo e no Algarve fez com que nesse tempo frases como “a social-democracia é a antecâmara do fascismo” fossem comuns nas iniciativas do PPD, mas as dificuldades estavam generalizadas um pouco por todo o país.

“Foi uma época de muitos tumultos, extremamente dividida e com uma grande partidarização da sociedade. Estas divisões eram diárias na Constituinte. Às vezes Henrique Barros, presidente da Assembleia gritava ‘calem-se’ para os deputados e era ignorado. Para além disso éramos insultados pelas pessoas que iam assistir às sessões nas galerias”, recorda Cristóvão Norte.

No Algarve, um dos picos do verão quente, aconteceu já no outono, quando em outubro de 1975 Governo Civil foi ocupado durante uma manifestação do PCP. “Eu ia muitas vezes a Faro durante a Constituinte devido aos conflitos permanentes no Algarve. Quando o Governo Civil foi ocupado, Mário Soares e Sá Carneiro foram à cidade fazer um comício onde asseguraram que a instabilidade passaria e que a democracia havia de ser instalada”, lembra o histórico social-democrata. Apesar de o período de maior tensão ter passado depois do 25 de novembro e com as eleições em 1976, Cristóvão Norte filho lembra-se que os problemas continuavam ainda no início dos anos 80.

Crescer na política

“Lembro-me de ter seis ou sete anos e acordar sobressaltado a meio da noite quando o telefone tocava. Normalmente era alguém a pedir ajuda ao meu pai. Ou a JSD, que tinha tido um evento interrompido, ou algum problema nas sedes. E o meu pai saía de casa a meio da noite para ir à polícia ou falar com o governador civil”, recorda o atual deputado do PSD, de 38 anos, também eleito por Faro. Nascido poucos dias antes da primeira festa do Pontal, em agosto de 1976, Cristóvão Norte diz que cresceu a participar em caravanas de comícios que facilmente juntavam 15 ou 20 mil pessoas e rodeado por algumas das maiores figuras do partido.

“Uma das minhas primeiras recordações de infância, e ninguém me contou, lembro-me mesmo, é estar com Sá Carneiro. Tinha quatro anos e fiz uma birra porque o meu pai estava a ter uma reunião numa sala com ele, num comício durante a campanha do Soares Carneiro em Faro. Sá Carneiro abriu a porta, estendeu-me a mão e deixou-me ficar lá com eles. Faleceu muito pouco tempo depois e lembro-me da angústia que isso causou”, diz o deputado, afirmando que o encontro foi marcante mas que “nunca” pensou entrar para o PSD ou vir a ser deputado como o pai – “Talvez num ou outro comício tivesse pensado nisso quando tinha 7 ou 8 anos, porque eram verdadeiros líderes políticos e era apaixonante”.

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Cristóvão Norte num congresso do PSD

O assunto da política ficou arrumado até aos 18 anos, altura em que se filiou na JSD. “Acabei por ir para a JSD porque me revia nas ideias do partido e gostava de debater os temas políticos”. Mas escolha de ingressar na política foi à revelia do pai. “Não queria que eu entrasse porque sabe as vicissitudes da política e sempre entendeu que eu me devia afastar”, diz o filho. Esta afirmação é conformada pelo pai que justifica a posição por conhecer “a balbúrdia da política”. “Mas ele tinha o bichinho. Eu gostei de lá estar, mas gostava que ele se tivesse dedicado a outra atividade. Não foi com a minha bênção, mas a verdade é que hoje também continuo a participar por causa dele”, refere.

Quanto ao peso do nome que os dois partilham e possíveis facilidades dentro do partido, o filho diz apenas: “Há pessoas que gostam de mim por causa dele e outros que não gostam de mim por causa dele. Há ainda os que pensam que somos a mesma pessoa e criticam, a dizer que não há renovação na Assembleia”. Antes de ser eleito deputado, Cristóvão Norte chegou a liderar a JSD, entregando uma petição para a abertura do curso de Medicina no Algarve na Assembleia da República, e foi chefe de gabinete de Macário Correia na Câmara de Faro. Do pai diz ter herdado a emotividade no discurso. Mas o pai acrescenta mais algumas características. “É muito interventivo, fala com todas as pessoas, é inteligente e politicamente astuto. Está muito mais bem preparado do que eu estava para ser deputado”, considera Cristóvão Norte pai.

Ser deputado ontem e hoje

Desde logo, Cristóvão Norte pai diz que a grande diferença está nos meios. “Nem tem comparação possível, antes tínhamos uma secretária para 90 pessoas e o funcionamento da Assembleia era muito empírico. Em menos de dois anos preparou-se uma Assembleia da República com muito pouca preparação e os deputados que vinham de fora, tinham de se preparar muito mais”, declara o antigo deputado, lembrando que durante a Constituinte os deputados não receberam qualquer salário, o que criou algumas dificuldades financeiras aos eleitos – levando até a empréstimos entre os colegas e condicionando as opções de alojamento na chegada a Lisboa.

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Pai e filho na varanda da Assembleia

No entanto, a diferença mais profunda, segundo o histórico social-democrata, prende-se com os ideais. “Na altura debatiam-se ideias e as pessoas sentiam essas ideias. Havia discussões de substância e apresentavam-se os mais puros ideais. A discussão não se fazia meramente por conveniência económica como hoje se faz muitas vezes”, admite sem rodeios. Para o filho, as diferenças prendem-se com o “prestígio” e “autonomia” que os deputados tinham anteriormente e que têm vindo a perder, devido à falta de ligação entre os eleitos e os eleitores, prejudicando assim a “perceção de representatividade” dos portugueses, e a influência da máquina dos partidos. “Antigamente, os próprios partidos estavam à mercê dos deputados porque eles eram a cara do partido nos vários sítios, como o meu pai foi no Algarve”, afirma Cristóvão Norte.

Uma tónica comum para os dois é o Algarve. Cristóvão Norte pai foi um dos impulsionadores da abertura da Universidade do Algarve, que já conta com um pólo em Portimão para além das instalações em Faro, – “foi a coisa mais importante que fiz” – e da construção da Via do Infante. “A estrada nacional 125 era um morticídio, uma rua urbana. Balsemão incitou-me a fazer uma intervenção sobre este tema em 1983 e a Via do Infante lá acabou por ser construída”, resume Cristóvão Norte pai. Já o filho, mais limitado pelas atuais condições do país, não se lançou nas infraestruturas, preferindo acredita que Portugal precisa de “um novo paradigma de crescimento e desenvolvimento”, especialmente no que diz respeito ao mar, tendo sido autor da lei de bases de gestão do espaço marítimo. “Foi uma proposta onde houve consenso com o PS e é preciso que se diga que Portugal não é um país pequeno, temos um vastíssimo leque de riquezas no mar”, assegura o deputado.