Entre peças históricas de valor incalculável e “arte degenerada”, as obras modernas ou de cariz vanguardista proibidas por Hitler, foram milhares de pinturas, esculturas e até utensílios domésticos que correram o mundo e também passaram por Portugal.

A expressão com que a norte-americana Lynn H. Nichols, historiadora de arte especializada neste período bélico, firmou um momento negro da história da cultura europeia não foi meiga: “a violação da Europa” (no original: The Rape of Europa). Com esta obra, editada em 1994 e sem edição portuguesa (no Brasil, “Europa Saqueada: O destino dos tesouros artísticos europeus no Terceiro Reich e na Segunda Guerra Mundial” [ed. 1996], foi publicada pela Companhia das Letras), a investigadora mergulhou no mundo paralelo do mercado da arte nos países ocupados pelo Terceiro Reich. Considerado por alguns especialistas como “o maior roubo da História”, calcula-se que mais de 20% do património artístico europeu terá sido furtado durante o período do conflito.

Dos projectos megalómanos de construção (e recheio) de um Führermuseum – Museu do Füher – ao confisco compulsivo de obras nas zonas ocupadas, entre museus, colecções particulares de famílias não associadas ao regime e vítimas do Holocausto, o Terceiro Reich reuniu um património inimaginável.

Para Hitler, era uma questão de “vingança histórica”, pelas pilhagens sofridas durante as incursões napoleónicas pelo território que viria a ser a Alemanha, entre muitas outras razões. Por outro lado, o total desprezo por manifestações artísticas de vanguarda – como o Dadaísmo, Surrealismo e o próprio movimento Bauhaus – levou à classificação de obras de Chagall, Kandinsky e Picasso como “arte degenerada”.

Para reforçar a propaganda, em 1937, Munique foi palco de uma exposição dedicada a estes artistas e trabalhos discordantes dos ideais nazis da “pureza da raça” e do anti-semitismo. Entre os quadros dispersos de forma anárquica pela galeria estavam obras de Klee, Otto Dix e Max Ernst.

Muitas destas obras foram queimadas em fogueiras, destruídas pelos bombardeamentos, escondidas em bunkers ou à vista de todos sem que ainda ninguém as encontrasse ou pensasse salvaguardar. Mas muitas mais serviram um outro propósito: financiar as forças germânicas.

Os negociadores e Portugal

Com o aval de Hitler, quatro marchands d’art estavam autorizados a negociar a “arte degenerada” apreendida: Bernard Bohmer, Karl Buchholz Ferdinand Moller e Hildebrand Gurlitt. Este último foi o mais prolífico em volume de negócios e número de obras transacionadas. Foi também o marchand que, pelo que é do conhecimento público, juntou num apartamento em Munique uma colecção de 1400 quadros de artistas tão valiosos como Picasso, Renoir ou Monet. Após iludir durante décadas grupos de investigação como os Monument’s Men, dizendo que tinha perdido todas as obras nos bombardeamentos da cidade de Dresden (1945), coube ao seu filho enfrentar a investigação. Cornelius Gurlitt, entretanto já falecido, viu o seu pequeno apartamento ser alvo de buscas e, por detrás de várias latas de conserva fora de prazo, a polícia alemã descobriu centenas de quadros avaliados em centenas de milhares de euros. Como contrição pelos pecados do pai e assumindo a sua “responsabilidade histórica”, Cornelius aceitou ajudar as autoridades a encontrar os donos originais das obras, chegando a criar uma página com formulário de contacto para os possíveis proprietários – entretanto já desactivada.

Mas se isto se passou em Munique, também Lisboa não fugiu à acção destes marchands. Em 1943, a capital portuguesa era um território oficialmente neutro ao conflito, mas a localização estratégica beneficiava os dois inimigos. Nas ruas da Baixa e na linha costeira até ao Estoril passeavam (e espiavam) militares, escritores, comerciantes e meros turistas com sentimentos opostos: uns apoiavam os Aliados, outros preferiam as forças do Eixo.

Nesse mesmo ano, o nº50 da Avenida da Liberdade, abriu as portas ao público. Esta galeria-livraria era o novo projecto de Karl Buchholz, um dos marchands anteriormente autorizados pelo Reich. As suspeitas de colaboração no contrabando de obras para o outro lado do Atlântico acompanharam-no sempre, mas as provas não são fortes o suficiente para as confirmar. Apenas se sabe que Buchholz continuou a negociar obras de arte, embora não existam dados concretos que foram parte do saque.

A livraria com o seu nome, hoje localizada na Rua Duque de Palmela, conserva o mistério das origens do fundador, enquanto perduram os investigadores e estudiosos desta época que se debruçam sobre as peças que partiram de Lisboa para o mundo.

Oficialmente e em exposição ao público, a capital guarda uma obra simbólica dessa “Europa saqueada”: um almofariz em ágata que pertencia à família Rothchild. A peça foi adquirida em 1999 por João Neto, director do Museu da Farmácia, onde hoje faz parte da exposição. Uma parte da história desta dinastia da banca alemã, poderosa e bem associada, mas com um legado que Hitler reprovava: a fé judaica.

 (Re)Conhecer as peças perdidas

Vinte anos e um documentário depois, o trabalho iniciado por Lynn H. Nicholas continua a ser debatido, investigado e trazido ao grande público. O interesse histórico pelo tema já resultou em filmes, inúmeros livros e muitas reportagens.

São histórias de famílias que perderam heranças seculares de valor incalculável e episódios rocambolescos sobre os marchands de arte que fizeram grandes negócios durante os anos de guerra. São as aventuras dos estudiosos norte-americanos que percorreram a Europa em busca do património apanhado no conflito, como foi retratado em The Monument’s Men – Os Caçadores de Tesouros. São também os casos de aproveitamento na apropriação destas obras perdidas por museus de renome mundial e colecionadores privados com capacidade para ziguezaguear pelos acordos internacionais.

A maior atenção do público e a pressão exercida por grupos internacionais de apoio aos que reclamam a restituição das obras, com o Registo Central de Informações sobre a Propriedade Cultural Saqueada à cabeça, têm produzido efeitos nas últimas décadas. Muitos proprietários conseguiram recuperar as peças perdidas sem delongas. Outros continuam à procura e à espera. O caso de Maria Altman contra o governo austríaco, que chegou às salas de cinema esta semana numa adaptação com Helen Mirren, correu nos tribunais durante vários anos e envolvia a restituição de cinco quadros de Klimt.

Já o mercado de venda e compra de arte está mais cauteloso com as obras relacionadas com este período ou suspeitas de fazerem parte do saque. A investigação às origens de cada peça e ao registo dos proprietários permitiu detectar diversos casos pendentes e, após nova avaliação, devolver as obras. Também os museus, muitos deles norte-americanos, como MoMA (Museu de Arte Moderna, em Nova Iorque) ou o Art Institute of Chicago, disponibilizaram na internet listas com centenas de obras das suas colecções cujo rasto de propriedade se perdeu entre 1933 e 1945.