Yemshit Sherif estava a dormir com a família perto da praia onde foi encontrado o corpo de Aylan Kurdi quando ouvi gritos que pediam socorro e movimentações, entre as 4h e as 5h da manhã. Ouviu os barcos da Guarda Costeira e depois silêncio. De manhã, não queria acreditar no que encontrava: o corpo de um menino de cerca de três anos. Saber-se-ia mais tarde que era Aylan.

A história da primeira pessoa que testemunhou o que aconteceu a 3 de setembro é contada no El Mundo. Yemshit Sherif também é refugiado – curdo iraniano – e dormia com a mãe, os cinco filhos e amigos iraquianos perto da praia onde foi encontrado Aylan Urdi.

Depois de ter ouvido gritos vindos do mar a pedir “Socorro”, o refugiado curdo iraniano correu para a praia a pedir ajuda, mas ninguém parou. Entretanto, começou a ver os barcos da Guarda Costeira e ficou tudo em silêncio. Yemshit Sherif voltou para trás, porque pensou que a operação de resgate tivesse acabado.

Foi durante o amanhecer que percebeu o pior: viu um vulto na praia e só quando se aproximou percebeu que era uma criança de três anos. “Fiquei logo perturbado… Não tenho palavras. Pensei nos meus filhos, pus-me no lugar dos mortos. E senti-me triste, profundamente triste”, afirmou.

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Yemshit Sherif disse ainda que temia por si e pelos seus filhos, que tem medo. “Mas que podemos fazer? O mar é assim”, referiu. Depois de o refugiado ter encontrado Aylan, apareceram várias pessoas na praia, que chamaram a polícia. E começaram a aparecer jornalistas.

Conta que fugiu do seu país com a família porque não estavam seguros e que há quatro anos pagou cerca de 6.300 euros a traficantes para tentar chegar à Europa. “Ficaram com o dinheiro e nunca apareceram. Durante todo este tempo, trabalhei em pequenas coisas enquanto peço asilo à ONU, mas ainda não me foi concedido”, diz.

Yemshit Sherif conta que também não se sente seguro na Turquia e que está a juntar cerca de 1.500 euros para comprar um “simples bote insuflável” e remar para outro país – ele e um grupo de oito pessoas e cinco crianças.

“Papá, por favor não morras”

Entretanto, a tia de Aylan Kurdi, que vive no Canadá, contou que as últimas palavras do sobrinho foram “Papá, por favor não morras”, conta o The Telegraph. Aos jornalistas, Fatima Kurdi disse que se sentia culpada, porque lhes tinha enviado dinheiro para pagar a viagem que acabou por tirar a vida aos sobrinhos e à cunhada.

A tia de Aylan falou com o irmão ao telefone e foi ele quem lhe contou como tudo tinha acontecido. Abdullah Kurdi já tinha dito que os seus filhos lhe tinham fugido das mãos. Quando o barco se virou, Abdullah tentou “com toda a sua força” mantê-los à tona da água, mas não consegui. Foi aí que as crianças pediram ao pai para não morrer. “Tentei com todas as minhas forças salvá-los e não consegui”, contou à irmã.