Quem ganhou o debate? Escrevo com as cadeiras dos dois debatentes ainda quentes mas adivinho o que vamos ouvir nas próximas horas: as hostes socialistas vão reclamar vitória inequívoca e o mesmo vai acontecer com a coligação.

António Costa esteve semelhante à sua prestação no debate televisivo, acusando Passos Coelho de ter ido além da troika e de ser um entusiasta da austeridade e das privatizações de serviços do Estado.

Mas Pedro Passos Coelho esteve diferente e bem melhor do que na semana passada, muito mais bem preparado sobre questões centrais concretas com o objectivo de descredibilizar as propostas de António Costa e colocá-las no terreno do aventureirismo. E sobretudo, sem ter que regressar regularmente a José Sócrates como linha de argumentação. Aliás, o nome do ex-primeiro ministro socialista não foi citado nem uma única vez.

Chegou para o líder da coligação sair com a ideia de vitória? Chegou. Mas mais importante do que isso é que o país ganhou com este debate. Foi esclarecedor, muito mais voltado para as propostas eleitorais que estão em cima da mesa do que do passado mais ou menos longínquo e, por isso, mais útil para a definição de tendências de voto para quem ainda não a fez.

E o que resultou daqui?

Tivemos um confronto que é filho das duas formas como PS e PaF encararam desde o início esta corrida eleitoral. Os socialistas com um programa muito detalhado – recuperação da credibilidade “oblige” – e a coligação com propostas vagas, pouco concretizadas – compromissos não cumpridos há quatro anos “oblige”.

Neste sentido, esta é uma eleição entre o cheque em branco que a coligação pede e o cheque de cobertura duvidosa do PS.

Sem promessas e projecções do lado do PSD/CDS e com tantas promessas e números em cima da mesa do lado do PS, as discussões mais longas centraram-se nas medidas socialistas: emprego, legislação laboral, apoios sociais e seguranlça social. Costa a fazer a sua defesa, Passos a tentar demoli-las.

A questão dos cortes nas prestações sociais foi, a este nível, significativo. António Costa não soube indicar onde vai cortar os cerca de mil milhões que o programa do PS propõe em prestações sociais. Sintomaticamente, o líder socialista tentou esclarecer a questão nas breves declarações feitas aos jornalistas no final.

A melhor preparação de Passos permitiu-lhe também fazer um daqueles “números” preparados, quase sempre de bom efeito: quando desafiou Costa a discutir uma reforma da Segurança Social com o PSD e CDS independemente do resultado das eleições. Evasivo, o líder socialista não se comprometeu.

Sem que nenhum dos candidatos tenha arrasado o outro, o debate não foi mais decisivo do que o da semana passada. Mas reequilibrou a campanha e deixa a sensação de que esta eleição poderá mesmo ser decidida com “photo finish”.

Crucial é que este “duelo” tenha recentrado a discussão no que realmente importa para o futuro: como vamos pagar as nossas pensões, que estratégias há para ajudar a economia a crescer e a criar empregos e como vamos aliviar o fardo fiscal que carregamos.

É isto que se exige aos partidos. Falem-nos de 2016, de 2019, de 2021. Deixem 2011 em paz. Já todos percebemos o que se passou, como se passou e o quanto nos custou.

* Paulo Ferreira é jornalista e colunista do Observador

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