Na semana em que a NASA anuncia ter encontrado indícios de água líquida em Marte, estreia o filme “Perdido em Marte”, de Ridley Scott. No filme, baseado no livro “O Marciano”, de Andy Weir (editado em Portugal pela Topseller), um astronauta fica retido no planeta vermelho e tem de fazer os possíveis e impossíveis para sobreviver até que alguém o possa ir buscar.

Levar astronautas para Marte ainda não é uma realidade, mas a agência espacial norte-americana espera que esteja para breve – a primeira viagem tripulada está prevista para 2030. Portanto, ainda que com ficção à mistura, ter astronautas-cientistas a viver em Marte faz parte dos desejos da humanidade. A NASA foi consultor científico do realizador e o Observador foi perceber o que se diz sobre o rigor científico do filme.

Não há tempestades fortes em Marte

O botânico Mark Watney (Matt Damon) ficou retido em Marte devido a uma tempestade no planeta equivalente à força de um furacão na Terra. Mas John Logsdon, antigo director do Instituto de Política Espacial da Universidade George Washington, citado pelo Guardian, disse que a atmosfera em Marte é tão pouco densa que os ventos não podem ser mais do que pequenas brisas.

Daniel Tamayo, investigador no Centro de Ciências Planetárias da Universidade de Toronto, ainda vão viu o filme, mas leu o livro e disse ao Observador que esse é realmente o maior problema da história. “No livro, uma tempestade de areia destrói uma antena de comunicação. Mas uma coisa dessas certamente que não aconteceria em Marte.” No entanto, o cientista admite que tanto o livro como o filme precisam de alguma ficção para prender a audiência.

Não se anda em Marte como na Terra

No filme, o personagem principal caminha de um lado para o outro como faria na Terra. O que nos faz ter os pés bem assentes no chão e dar passadas firmes é a gravidade que o planeta azul exerce sobre o nosso corpo, mas em Marte, com cerca de metade do diâmetro da Terra, a gravidade é 0,375 da do nosso planeta. A título de exemplo, uma pessoa que pese 70 quilogramas na Terra, pesará pouco mais de 26 quilos em Marte.

“Não poderiam andar normalmente. Seria mais aos saltinhos, como acontece na Lua”, disse John Logsdon.

Então, e a radiação?

A atmosfera da Terra funciona como um filtro que retém parte da radiação nociva vinda do Sol e do espaço em geral. Mas a atmosfera pouco densa de Marte não permite esse nível de proteção. É por isso que John Logsdon acrescenta mais uma crítica: não há referência à radiação solar e cósmica a que o personagem está sujeito. “O botânico poderia ficar muito doente ou, caso voltasse para casa, morrer de cancro no ano seguinte.”

Quem és tu astronauta-botânico retido em Marte?

Considerando que o livro estava, em termos científicos, muito rigoroso e desculpando algumas lacunas com a necessidade de introduzir um elemento de ficção, Daniel Tamayo lamenta que o personagem não se desse mais a conhecer.

“A lacuna no livro, não relacionada com a ciência, é que não encontramos muito sobre o personagem [principal]. Aprendemos algumas coisas, como de onde é e que tipo de música gosta, mas nunca chegamos a descobrir como ele é realmente”, disse Daniel Tamayo. “Não há nenhum momento em que diga como é morrer em Marte, o que lamenta na vida, o que poderia ter feito diferente. Na maior parte das vezes limita-se a seguir em frente e a resolver todos os problemas.”

Críticas à parte, o livro e o filme são cientificamente bons

Apesar de alguns pormenores poderem não ser o mais fiáveis possível, é preciso não esquecer que ainda assim se trata de um filme de ficção. Apesar disso, o rigor científico é notável, como elogia Scott Hubbard, professor no departamento de aeronáutica e astronáutica da Universidade de Stanford, citado pelo Guardian. O professor salienta que a forma como Mark Watney faz crescer alimentos enquanto espera que o salvem é credível.

“Para um ‘cromo’ como eu, foi divertido resolver toda a matemática e física para os problemas e soluções de Mark”, escreveu Andy Weir na secção de Perguntas e Respostas do livro, citado pelo Business Insider. “Quanto mais trabalhava nisto, mais me apercebia que tinha acidentalmente passado a minha vida a fazer pesquisas para esta história.”

Daniel Tamayo também apreciou o rigor científico do livro e a forma como são abordadas tantas questões científicas sem que se torne demasiado aborrecido. “A personagem principal passa muito tempo a trabalhar em problemas científicos, como o facto de expirar dióxido de carbono o iria, provavelmente, asfixiar.” O cientista apreciou a forma como os problemas eram colocados e resolvidos e considera que se deve principalmente à personalidade do personagem: cativante e humoristicamente sarcástico.

Outro ponto notado por Daniel Tamayo é que a ficção teve pouco lugar na recriação da tecnologia usada em Marte, porque de facto essa tecnologia (ou algo muito próximo disso) já existe, portanto não foi preciso recorrer a “grandes elementos de ficção científica com dispositivos ‘mágicos'”. Como exemplos temos a tecnologia que permite o aquecimento ou a produção de oxigénio, refere a Business Insider.