José Vilhena, para mim, era o Tio Zé. Eu e o meu tio nascemos no mesmo dia, com 36 anos de diferença. Durante muitos anos festejávamos em família o aniversário. Não que, aparentemente, ele ligasse muito a essas coisas, mas entre família e alguns amigos, poucos, as velas do bolo que eu também tinha de apagar por ele e o elevar do copos para um brinde, passávamos uma tarde de Julho na sua casa de Santo Amaro de Oeiras. Durante a adolescência, os amigos que eu convidava ficavam sempre muito empolgados por ir conhecer o autor da Gaiola Aberta, a revista que liamos às escondidas. A desilusão era grande. Em vez do cómico e do tipo que contava piadas, aparecia uma figura serena e, provavelmente, a mais apagada da festa.

Nunca ouvi o meu tio contar uma anedota. Piadas sim, daquelas vindas do nada, a propósito de uma situação, de uma notícia ou de outra coisa qualquer, improvisos de um observador. Esse ar sereno, de olhar atento, que por vezes incomodava como se já soubesse o que íamos dizer ou o que estávamos a pensar, completava o ar distinto na sua figura de 1,80 metros e que nos últimos anos era sublinhada pela bengala que o acompanhava sempre. Lembro-me vagamente de o ver jogar ténis em Santo Amaro de Oeiras, mas não me lembro de o ver alguma vez apressar o passo para ir a algum lado. A vida era para se ir vivendo e, sobre a morte, disse-me uma vez que, se fosse para morrer, gostava que fosse com uma bomba atómica. Assim não teria pena de deixar este mundo.

Há pouco tempo tive de desmontar a sua casa. Entre muitas coisas, cartas da minha avó, cartas de amor, algumas com datas próximas de remetentes diferentes, um maço de cigarros com as beatas coladas, que escondiam um conjunto de folhas manuscritas enquanto esteve preso em Caxias, encontrei também umas fotos minhas, com dois ou três anos, em cima do seu MG branco descapotável e seguro por uma bonita jovem. Sabia que, de vez em quando, quando tinha uma conquista mais “complicada”, passava lá em casa e me levava. Tirando esses episódios, nunca misturava a sua vida boémia e a família, com quem ia quase sempre almoçar ao domingo. E quando, já adulto, o acompanhava, colocava-me numa redoma e não me deixava entrar no outro mundo de boémia.

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José Vilhena com o seu sobrinho, Luís (D.R.)

Quando almoçava com ele em sua casa, ou íamos à Cervejaria Alemã, falávamos de tudo, de pintura, de arquitectura, de política, de história e sei lá mais o quê. Frases curtas, discurso claro. Percebia-se que já tinha lido tudo o que há para ler, que tinha visto os melhores filmes e que conhecia todas as obras arte, mesmo sem as ter visitado. Viajou pouco, mas conhecia meio mundo.

Quem o conheceu pessoalmente facilmente lhe reconhecia a sua singularidade e a bondade e respeito pelos outros. A sua personalidade tímida, que quase sempre se resguardou da exposição pública, apenas cedeu mais recentemente a entrevistas, mas raramente procurava o reconhecimento da sua obra. Essa obra que é o produto de apenas uma pessoa. Ele desenhava, pintava, escrevia, fotografava e, antes de 1974, editava e distribuía os seus mais de 60 livros. Muitos dos desenhos aguarelados das caricaturas valem por si só, independentemente da anedota que contêm. Tenho hoje pena de, nos anos 90, lhe ter dado a conhecer as artes digitais e o Photoshop porque, à conta disso, a sua obra gráfica perdeu alguma graça que tinha.

Apesar da sua figura de porte distinto e personalidade discreta, quando vestia a pele de humorista no ativo era implacável. Como todo o bom humorista, seria capaz de morrer por uma boa piada, exagerando, claro. Embora, no caso dele, arriscando muito, sobretudo antes de 25 de Abril. Por muitos, que o conheceram ou apreciam a sua obra, é visto como um herói, pela forma livre como fazia a crítica de costumes, desmascarava a política e ao mesmo tempo fazia rir. Porque no final e utilizando um dos lemas que José Vilhena usava muito: rir é o melhor remédio.