Legislativas 2015

Coligação em ‘estado de choque’ com estratégia de Costa

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Não foram fáceis as 2h45 de reunião com o PS. Na coligação acredita-se que Costa quer mesmo liderar governo de esquerda. Ordem é para não dar pretextos: Maria Luís vai falar com Centeno.

Álvaro Isidoro

Ouve-se de tudo no PSD, no CDS e no Governo. De tudo sobre António Costa, sobretudo depois da reunião desta sexta-feira, na São Caetano à Lapa. Fala-se de um líder “altivo”, que saiu de uma derrota mas se apresenta como se fosse ele a decidir o futuro do país. Sobretudo fala-se da convicção reforçada de que o líder do PS está mesmo disposto a fazer um Governo à esquerda – com apoio ativo do Bloco de Esquerda e do PCP, de cujos votos favoráveis precisaria – para ser governo e para governar, desde logo para aprovar cada orçamento do Estado.

O encontro durou longas duas horas e 45 minutos. Mas os ecos dos lados da coligação contam que o PS pouco ou nada disse durante todo o encontro. Não tinham que dizer – foi o que alegaram lá dentro. Costa, aos jornalistas, pareceu conferir: disse que não foi possível trabalhar numa “proposta”, porque não lhe foi apresentada nenhuma – ou seja, que era a Passos que competia levar propostas para construir consensos.

Aparentemente, os socialistas também não fizeram muitas perguntas. À direita conta-se que até a sugestão de trocar informação sobre as contas do Orçamento veio de Passos – o que o Observador ainda não conseguiu confirmar. Um facto: Maria Luís Albuquerque ficou de conversar com Mário Centeno sobre o assunto nestes dias.

Costa quis passar uma mensagem à coligação de que estavam numa posição central de negociação, que estavam “muito satisfeitos” com a conversa de quarta-feira com o PCP – explicando que os comunistas terão abdicado do seu programa, de todas as linhas vermelhas – e que até os orçamentos dos socialistas estarão na disposição de viabilizar.

E no mínimo pode-se dizer que convenceu a direita. “Não é uma questão de sobrevivência no PS”, admite uma fonte ao Observador. “É uma questão estratégica”. E porquê? A justificação possível é esta: o PSD e CDS conseguiram mais de 38% dos votos, um pouco acima dos mínimos que os partidos tiveram em 2005. O PS ficou bastante abaixo. “O problema é que o PS deixou de ser competitivo”, alega a mesma fonte. Ou seja, para inverter os planos tem que jogar forte: chamar a esquerda a responsabilidades para deixar de estar sob fogo dos dois lados do tabuleiro político”.

A questão que se coloca é, assim, de que falaram os nove representantes dos três partidos naquele tempo. “Arrancámos um compromisso para uma nova reunião”, diz uma fonte da coligação ao Observador. Se eles querem propostas, vamos tratar delas”. Passos haveria de se referir ao novo processo que se abre como um exercício “criativo” de pescar no programa do PS matérias que possam “adivinhar” ser prioritárias para os socialistas. Costa, note-se, tem feito o contrário nas reuniões com PCPe Verdes – sai sempre dos encontros falando das matérias “em que há convergência”. Parte do consenso à procura, depois, de aprofundamento nas mais difíceis.

Fechada a reunião, Passos e Portas reuniram-se com as respetivas delegações. E fizeram a pauta para os próximos dias: não dar pretextos a Costa. Maria Luís falará com Centeno e vai entregar-lhe os dados que o PS queira; as propostas da coligação seguem para o Rato na 2ª-feira, um dia antes da nova reunião. E depois se verá, a real disposição negocial de Costa. Se tudo falhar, Costa terá ainda que derrubar o governo que Passos quer, de todo o modo, levar a Cavaco Silva. E assumir o ónus de o derrubar (e tentar o jogo com a esquerda).

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