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No reino animal, os machos usam as estratégias que têm ao alcance para conquistarem as fêmeas. O grande objetivo dos machos parece ser deixar descendência, independentemente do recurso que tenham de usar. O das fêmeas é escolher o melhor partido. Entre macacos-uivadores a escolha parece ser entre sons altos e graves ou grandes testículos, e ambos resultam, mas em espécies diferentes, segundo o estudo publicado pela revista científica Current Biology.

Os macacos-uivadores, como o nome indica, emitem vocalizações fortes que servem para a comunicação entre os elementos do grupo ou para dar o alerta no caso de avistarem um predador, mas alguns conseguem fazê-lo com um som mais alto e mais profundo. É o osso hioide – um osso nós também temos no pescoço, por baixo maxilar –, anormalmente grande, que permite a estes animais fazerem este tipo de sons. O hioide cria uma espécie de câmara que amplifica os sons.

Os macacos-uivadores têm das vocalizações mais fortes do reino animal. Apesar de serem aproximadamente do tamanho de um cão, os rugidos são tão fortes e profundos como os de um animal do tamanho de um tigre.

Mas além de servirem para a comunicação diária, chamemos-lhe assim, a equipa de Tecumseh Fitch e Leslie Knapp, coautores seniores do estudo, verificaram que as vocalizações também podem ter um papel importante na reprodução, tal como Charles Darwin já havia proposto, mas que nunca tinha sido comprovado, refere o comunicado da Universidade do Utah (Estados Unidos).

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Vocalizar mais alto e mais forte, implica ter um osso hioide maior. Mas criar uma estrutura deste tipo obriga a um grande dispêndio energético enorme e pode implicar que outras estruturas fiquem mais pequenas. Para testar esta ideia, os investigadores estudaram o volume do hioide de nove das 10 espécies de macacos-uivadores, os grupos sociais de oito espécies e volume dos testículos em cinco espécies. Isto resultou na análise de 255 ossos hioides existentes em museus norte-americanos e europeus e de dois machos adultos vivos, de dados publicados sobre o volume dos testículos de 66 macacos-uivadores e outros 21 analisados in vivo num zoo.

Diferenças nos hioides

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  • Os ossos hioides dos machos são três a oito vezes maiores do que o das fêmeas da mesma espécie;
  • Entre espécies diferentes, os machos maiores têm ossos hioides 10 vezes maiores do que os machos mais pequenos.

Universidade de Utah

O que os investigadores verificaram foi que as espécies que formam haréns – um macho dominante com um grupo de fêmeas e, eventualmente, machos jovens – têm capacidade para fazerem vocalizações mais sonoras, mas têm testículos mais pequenos. Já as espécies que vivem em grupos com vários machos adultos têm sistemas vocais menos desenvolvidos, mas testículos maiores. Uns gritam mais, os outros produzem mais esperma – cada um com a sua estratégia. Assim, parece ter-se mantido em cada espécie a característica mais vantajosa para produzir mais descendentes.

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Exemplo de um osso hioide desenvolvido como uma câmara de amplificação de sons, muito diferente do correspondente nos humanos – Jacob C. Dunn/Universidade de Cambridge

Mas como é que isto funciona? Para os machos que têm de lutar com outros machos para conseguirem acasalar com o maior número de fêmeas possível, ter uns testículos grandes que produzem muitos espermatozoides é o mais vantajoso. Já o macho que têm de dominar um grupo de fêmeas sozinho, as vocalizações mais fortes ajudam-no a proteger o harém de machos competidores, porque se apresenta como um macho dominante, grande e saudável.