Imagine que passa numa montra e vê uma peça de decoração que tem tudo a ver com a sua sala. Custa 100 euros. Hesita, mas as contas para o mês já estão feitas e o orçamento não permite gastar essa quantia. Retoma caminho. Na semana seguinte, a loja faz uma promoção dessa peça – 30% de desconto. Mas você só parou ali por acaso e não volta a passar naquela rua. Nunca chega a saber que a peça baixou de preço. Perde uma oportunidade de embelezar a sala. A loja perde outra de efetuar vendas. 

Agora, imagine que tem um sistema automático e instantâneo que lhe permite entrar na loja, deixar um contacto e ser avisado quando a peça entrar em promoção. Mesmo que não volte a passar naquela rua. Apetecível? Foi isso que João Leitão, 33 anos, quis fazer – mas no universo online. E foi assim que nasceu a Followprice, o botão que lhe permite selecionar os itens de que mais gosta, sem perder muito tempo, e depois esperar por ser notificado quando aqueles entram em promoção.

Num ano e meio, a Followprice já chegou a cerca de 90 lojas em 14 países. E, até ao início do ano, há novidades a caminho: a entrada nos mercados do Reino Unido e dos Estados Unidos da América (EUA), através de parcerias com, “no mínimo, quatro lojas de média e grande dimensão”. Nos planos está, também, uma parceria com cinco profissionais da Universidade de Carnegie Mellon, nos EUA, que vai permitir analisar dados de compras e apostar numa recomendação de produtos personalizável e preditiva. 

Como nasceu o negócio

Primeiro, como nasceu esta ideia? João Leitão é engenheiro civil de formação e lançou uma empresa que desenvolvia software para essa área. Era vizinho de Vasco Moreia e Gonçalo Mendes na incubadora Tagus Park, onde estes também tinham lançado a sua empresa. Mas houve um dia em que recebeu um telefonema que mudou a vida dos três.

Estava a fazer uma campanha de 20% de desconto nos software e recebi um telefonema de um cliente, que queria saber quando era a próxima campanha. E isso fez-me pensar numa solução em que não fosse preciso telefonar para uma loja para saber isso. Uma solução que permitisse às pessoas acompanhar a evolução dos preços”, conta ao Observador João Leitão. 

Quando imaginou o Followprice, fez dois slides. No primeiro, captou a imagem do site da Fnac e manipulou-a, inserindo um botão. No segundo, captou uma segunda imagem do Facebook e inseriu uma notificação que avisava que aquele produto estava com desconto. Mostrou-os a Vasco e Gonçalo. Não foi preciso muito para abandonarem os projetos em que se encontravam para se dedicarem, em exclusivo, a “seguir o preço” (Followprice). Foi nesta altura que João Andrade se juntou ao projeto para desenvolver a tecnologia. 

“Decidimos que este era o caminho, porque este era um projeto que tinha um potencial global. Era essa a grande diferença”, explica Vasco Moreira. 

No final de 2013, contactaram várias lojas online para testarem o botão. E entraram logo para o mercado. Passaram por vários concursos: venceram o BET Breaking Tech, foram finalistas do Start Me Up e ficaram em terceiro lugar no Acredita Portugal. No dia em que souberam que pertenciam ao top 3 do concurso, também obtiveram o “ok” da Fnac, o primeiro grande nome com quem fecharam contrato. Ainda nem sequer tinham recebido investimento. 

Em março de 2014, estavam presentes em cerca de 50 lojas. Foi com o contrato fechado com a Fnac, que decidiram procurar capital. “Percorremos o país a apresentar o projeto e tivemos a oportunidade de escolher os investidores que quisemos”, adianta Vasco Moreira. Em janeiro de 2015, receberam 645 mil euros da Portugal Ventures e da Best Horizon. Pelo caminho, passaram por um programa de aceleração de startups da Universidade Carnegie Mellon. 

“Isto faz com que a pessoa que está só a ver possa converter-se em vendas mais facilmente. As pessoas que nós levamos às lojas tipicamente convertem as vendas em 300% mais do que aquela que é a taxa de conversão normal da loja. As vendas triplicam. Além disso, o preço médio por compra também está a subir, porque tipicamente as pessoas não seguem produtos com preços baixos”, explicam os fundadores. 

Além de avisar quando o preço baixa, o botão da Followprice também permite receber notificação quando o produto volta a estar disponível, caso tenha estado em rutura de stock. A empresa também lançou uma nova funcionalidade e testou-a numa das lojas aderentes em Hong Kong – o envio de cupões de desconto personalizáveis para os clientes que estão a seguir o preço daquele produto. A experiência envolveu cupões de desconto de 5,99 euros em produtos de 100 euros e em 20 dias gerou um acréscimo de 40 mil euros nas receitas da loja. 

Para o próximo ano, os fundadores da Followprice querem avançar para uma ronda maior de investimento e entrar nos mercados espanhol, chinês e indiano, de forma mais massiva. O modelo de negócio passa por receber uma comissão por vendas geradas, mas também podem existir modelos híbridos, com recurso a uma mensalidade. “Tentamos retirar os obstáculos possíveis aos clientes e adaptar as nossas propostas ao modelo com que se sentirem mais confortáveis”, conclui João Leitão. 

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.