Artigo atualizado às 17h55 com o comunicado de Francisco Assis enviado às redações

Francisco Assis desmarcou o encontro agendado para este sábado com os militantes socialistas descontentes com as opções políticas de António Costa. Isto acontece depois de o secretário-geral ter convocado todos os conselheiros nacionais para uma reunião no sábado, às 15h30, precisamente à hora em que estaria a decorrer o almoço na Mealhada. 

Num comunicado enviado às redações, o eurodeputado explica que “só assim ficam devidamente acautelados os superiores interesses do Partido Socialista cuja salvaguarda tem de prevalecer sobre todas as divergências” internas. E deixa o aviso: o “momento de extraordinária importância” que vive o PS obriga a um “especial cuidado na observância dos princípios fundamentais” que “norteiam” o partido.

“Pela sua natureza e pela sua história o PS é um partido profundamente livre, plural e democrático. Adiámos um encontro em nome do respeito por esses princípios. Pela mesma razão continuaremos a manifestar as convicções profundas que nos animam nas presentes circunstâncias históricas”, promete o eurodeputado socialista.

Ou seja, Assis adia o encontro mas não desiste da intenção de reunir os militantes socialistas que estão descontentes com o rumo escolhido pela direção socialista. Depois de conhecida a coincidência de agendas, “procedeu-se de imediato à desconvocação de tal reunião sem prejuízo da mesma se realizar em momento ulterior“, esclarece. 

Como escreveu o Observador no início da tarde, a comissão nacional – órgão máximo entre congressos – seria o espaço certo para Costa ratificar o acordo à esquerda, mas na convocatória enviada aos socialistas nada se diz sobre o assunto. 

Na última comissão política nacional, houve também quem defendesse a realização de uma reunião da comissão nacional para discutir o cenário de um futuro governo à esquerda. E, por isso, escreve Assis: “Deseja-se que a reunião da Comissão Nacional decorra num ambiente favorável à livre e leal troca de pontos de vista e contraposição de opiniões“.

O Observador sabe que Assis não quis colocar à prova os dirigentes que já tinham confirmado presença no almoço e que, por fazerem parte da Comissão Nacional do partido, teriam de fazer uma escolha: ou iam à reunião, ou ao almoço. Esta decisão de António Costa caiu mal junto dos socialistas próximos de Assis, que referem que a data escolhida – coincidente com a hora do encontro na Mealhada — causou algum embaraço. Ainda não há nova data para o encontro.

Além do Conselho Nacional, no domingo Costa reúne também a comissão política do partido para antecipar os acontecimentos dos dias seguintes. Na segunda-feira inicia-se no Parlamento a discussão do programa de Governo do PSD/CDS, que o PS prometeu chumbar caso consiga fechar a tempo o acordo de governação à esquerda com PCP e BE. Esta será já a terceira vez, no espaço de um mês, que a comissão política reúne desde que começaram as negociações do PS com os partidos à esquerda na sequência dos resultados das eleições de 4 de outubro.

Comunicado de Francisco Assis na íntegra:

A marcação de uma reunião extraordinária da Comissão Nacional do PS para uma data coincidente com aquela em que ocorreria o encontro promovido por um conjunto alargado de militantes do PS que não se reconhecem na orientação política atualmente prosseguida pela direção do Partido inviabiliza a realização deste último.

Assim sendo, procedeu-se de imediato à desconvocação de tal reunião sem prejuízo da mesma se realizar em momento ulterior. Só assim ficam devidamente acautelados os superiores interesses do Partido Socialista cuja salvaguarda tem de prevalecer sobre todas as divergências que internamente nos separem.

Deseja-se que a reunião da Comissão Nacional decorra num ambiente favorável à livre e leal troca de pontos de vista e contraposição de opiniões. Vivemos um momento de extraordinária importância na vida do nosso partido, o que obriga a um especial cuidado na observância dos princípios fundamentais que nos norteiam. Pela sua natureza e pela sua história o PS é um partido profundamente livre, plural e democrático. Adiámos um encontro em nome do respeito por esses princípios. Pela mesma razão continuaremos a manifestar as convicções profundas que nos animam nas presentes circunstâncias históricas.

Convocatória invoca “interesse excecional”

Na convocatória que o presidente do partido, Carlos César, enviou aos conselheiros nacionais diz-se apenas que o “ponto único” da agenda é a “análise da situação política e a apreciação das diligências desenvolvidas com vista à formação de governo na sequência das eleições de 4 de outubro”. Não fica claro se o líder socialista já leva o acordo fechado com a esquerda, ou não.

César invoca o “interesse excecional que envolve a discussão sobre a atual situação política” para justificar a convocatória para a reunião do órgão máximo do partido entre congressos.

A reunião da comissão política, órgão de direção alargada, também tem como ponto único da agenda a “análise da situação política”.